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Empregar o choro

"Seria ali o melhor destino para chorar. Não há nenhum artigo no contrato que impossibilite chorar no local de trabalho. Tal como não existe nenhuma cláusula que impossibilite de rir".

Juliette Binoche no filme 'Camille Claudel 1915' (2013).
Juliette Binoche no filme 'Camille Claudel 1915' (2013). Foto: D.R
03 de setembro de 2021 | Cláudia Lucas Chéu

Li algures, talvez tenha sido num meme, que melhor seria usar o horário laboral para chorar do que fazê-lo no tempo de lazer. Faz sentido, uma vez que há tanta gente que tem empregos que detesta e que dão certamente vontade de chorar. Chorar pode mesmo ser motivado pelo local de trabalho (um cubículo sem luz solar ou vivalma) e pela função que se desempenha. Se assim for, melhor será despejar o saco lacrimal enquanto lhe estão a pagar. Também já chorei no trabalho. Num dos meus trabalhos de argumentista deparei-me com um chefe rude e pouco disponível às opiniões dos seus escribas. Já várias vezes tinha sentido a pressão através do seu tom de voz autoritário e das críticas pouco fundamentadas sobre o meu trabalho. Muitas vezes tive de ouvir que escrevia rápido demais e que não era possível escrever com densidade dessa forma. Que ficava tudo superficial. Não percebia. Não percebia porque é que, no seu entender, a velocidade só produzia textos superficiais. Tenho noção de que os meus não ficavam abaixo dos textos dos meus colegas, que gastavam as oito horas laborais para escrever o mesmo número de cenas. Saía mais cedo porque já tinha despachado tudo e ele ficava furioso. Um dia arranjou outro modo de implicar comigo. Após uma visita aos décors de uma série, disse-lhe que gostava daquilo que tinha visto. O que fui eu dizer? Desatou aos gritos à frente da equipa. Que eu não percebia nada daquilo e que os décors eram uma merda. É verdade que eu não percebia nada daquilo, ainda não percebo, mas não estava à espera dos gritos em frente à equipa. Senti-me aflita, o choro a trepar goela acima, e fugi para a casa de banho. Tranquei-me no cubículo e chorei. Chorei mesmo. Gastei uns bons vinte minutos laborais a chorar junto à retrete. Depois lá me recompus. «Deixa-te de coisas, isto não foi nada.» Voltei para a sala de trabalho, com olhos vermelhos e cara de poucos amigos. O tipo olhou para mim e não disse nada. Um brutamontes que não merecia aquelas lágrimas, mas se tivesse de ser, em casa é que eu não ia deixar a minha frustração por ter de lidar com ele. Seria ali o melhor destino para chorar. Não há nenhum artigo no contrato que impossibilite chorar no local de trabalho. Tal como não existe nenhuma cláusula que impossibilite de rir. Temos pena, pensei. Até terminar aquele projecto teria de lidar com ele. E com lágrimas se fosse preciso. Explicar-lhe-ia o motivo se fosse questionada: «Estou a chorar porque trata os seus colaboradores como se fossem bestas. Mas olhe que é um engano seu, eu posso chorar, não há nada que me impeça.» O projecto acabou após umas semanas e ele, desde o episódio do choro, passou a ignorar-me. Foi uma bênção. E até lhe agradeço ter-me feito ver que é melhor chorar no trabalho do que em casa. A infelicidade devia ser paga, sempre, sempre.

*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990. 

 

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