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E quando não se gosta de ser mãe?

A maternidade é o papel mais importante da vida: eles dão muito trabalho mas compensa, o sorriso da criança alivia todos os cansaços. Ou não. Durante décadas não querer filhos foi o grande tabu da maternidade. Hoje, há outro: ter filhos, mas não gostar de ser mãe e sentir arrependimento por ter tomado essa decisão. Um olhar sobre a vida de mulheres que, como as outras, gostam dos filhos, mas confessam que não foram talhadas para o papel.

Foto: Anastasia Shuraeva / Pexels
31 de agosto de 2020 | Sofia Teixeira

No dia 13 de setembro de 2013, pelas 17 horas, Sara tinha acabado de dar à luz a sua primeira e única filha, depois de oito meses de uma gravidez planeada. Conquanto o dia tenha calhado a uma sexta-feira, 13, sentia-se esperançosa e alegre. Acreditava que o melhor da vida estava para vir com a maternidade. Hoje, mais de três anos depois, é isto que tem a dizer sobre ser mãe: "Odeio."

Estarão agora quase todas as leitoras de sobrolho franzido. Isso não nos espanta. Procurar uma mãe que não goste de ser mãe implica muitos sobrolhos levantados e sorrisos condescendentes, sempre acompanhados da resposta: "Mas isso existe?" Mais ou menos como se andássemos à procura de um unicórnio alado. Mas sim, isso existe, como prova o testemunho de Sara, qualquer pesquisa no Google – experimente digitar ‘hate being a mom’ e surpreenda-se com a quantidade de resultados –, alguns estudos já feitos e o que nos dizem os psicólogos.

O tabu é grande e poucas mulheres têm coragem de o expressar em voz alta – ou escrever –, menos ainda consentem que lhes seja conhecido o nome ou o rosto, mas há muitas descontentes com a maternidade. Porquê? Porque, na realidade, afirmam, há tantas razões para gostar de ser mãe como para não gostar. "Nunca mais dormi uma noite seguida, profissionalmente fiquei na prateleira porque a disponibilidade não é a mesma e outros passam à frente, há anos que não sei o que é namorar com o meu marido, mais de metade do meu ordenado some-se em gastos com a minha filha, deixei de ter tempo para coisas tão simples como ir ao cinema, à manicure ou ler um livro sossegada no sofá", defende Sara. E atenção: não é que não goste da filha (longe disso), não é que não se derreta com os seus sorrisos e as suas graças e não é que não faça tudo o que pode para a ver bem e feliz. Mas acha que o preço a pagar por esse amor é demasiado alto: "A sensação de haver sempre e para sempre as necessidades de outra pessoa primeiro é esmagadora."

Sentimentos como os de Sara não são bem aceites. A prova disso é aquilo que aconteceu o ano passado quando corria no Facebook o chamado ‘desafio da maternidade’, que apelava a que as mulheres partilhassem momentos felizes ao lado dos filhos. Duas brasileiras responderam a este desafio de forma diferente. Natália Pinheiro, uma paulista, mãe solteira, na altura com 25 anos, e Juliana Reis, uma carioca, também com 25 anos, ousaram contrariar a ideia cor-de-rosa do desafio. "A maternidade não me faz feliz, o Yuri me faz feliz. Eu não amo ser mãe", escreveu Natália Pinheiro, reforçando o amor que sente pelo filho, mas ousando questionar alguns estereótipos e a pressão social exercida sobre mulheres que não se sentem confortáveis em exercer tal papel. "Quero deixar bem claro que amo o meu filho, mas odeio ser mãe", disse também Juliana Reis no seu texto, ao mesmo tempo que lançava outro desafio: que as mães partilhassem fotos de desconforto relacionado com a maternidade e relatassem más experiências.

Houve algumas manifestações de apoio, discretas, mas, no geral, ‘o circo pegou fogo’, mostrando que não gostar de ser mãe é uma espécie de um pecado mortal não oficial. Foi drama e horror e a rede destilou ódio: foram ostracizadas de alguns grupos de Facebook, o perfil de Juliana chegou a ser bloqueado e foram ofendidas. Muito ofendidas. Os mais benevolentes diziam apenas que estavam doentes porque essa postura era sintoma de depressão pós-parto. Mas será que não gostar do papel de mãe tem de ter alguma coisa de patológico?

A psicóloga Filipa Jardim da Silva defende que, sendo verdade que existem muitas mulheres que sentem desprazer na maternidade no âmbito de depressões pós-parto, não é menos verdade que, em alguns casos, o quadro depressivo é ultrapassado e, ainda assim, o encantamento com a maternidade não chega. Mesmo amando os filhos e apreciando muitos momentos com eles. "Há uma tendência a ‘patologizar-se’ as mulheres que não gostam de ser mães, mas mesmo que possam não constituir a maioria, é possível existirem mulheres que não apreciam o seu papel parental." E é apenas isso. Não estão doentes. Não estão, mas podem ficar: porque a pressão social para gostar do novo papel é grande e os sentimentos negativos são reprimidos. "Claramente, nem todas as mães apreciam o seu novo papel, mas esses sentimentos tendem a ser reprimidos e acompanhados por vergonha e culpa. Lamentavelmente, o estigma em torno desta questão é enorme e leva à omissão destas emoções, o que poderá potenciar o desenvolvimento de quadros de doença psicológica, como depressão e ansiedade."

Porque, note-se, o impacto negativo que o nascimento de um bebé pode ter está documentado. Filipa Jardim da Silva cita um estudo publicado pela Demography, em 2015, que seguiu 2016 mulheres alemãs durante pelo menos dois anos e que revelou o seguinte: ter uma criança pode ter um forte impacto negativo na felicidade pessoal, sobretudo no primeiro ano de vida. "Os resultados encontrados evidenciam que o efeito de um novo bebé é emocionalmente mais devastador do que um divórcio, uma situação de desemprego ou até o falecimento de um companheiro", conta a psicóloga.

Certezas e ambivalências

Há uma frase muito usada por muitas destas mulheres. Por quase todas, na verdade: "Adoro os meus filhos, mas odeio ser mãe." Separar o que sentem pelos filhos do que sentem por ser mães pode parecer um contrassenso, mas não é. Filipa Jardim da Silva frisa mesmo que são dois aspetos muito diferentes, sendo possível uma mulher adorar os filhos e não apreciar as tarefas, rotinas, responsabilidades e papéis sociais inerentes à maternidade. Uma sensação que, defende, muitas vezes advém de uma sobrecarga materna e da ideia preconcebida que as mães devem estar sempre presentes e disponíveis. "Isso pode conduzir a um dia a dia em que não existe espaço para ser-se mulher, pessoa, filha ou amiga, mas apenas para ser-se mãe, o que pode retirar o prazer possível desta experiência. Daí a importância das mulheres pedirem ajuda e delegarem tarefas inerentes à maternidade, para que possam apreciar a sua experiência sem se sentirem sufocadas ou aprisionadas."

Mesmo as mães que adoram a maternidade e jamais prescindiriam dela sabem que há coisas das quais abdicam em prol dos filhos e admitem que há momentos de ambivalência, de falta de paciência, de vontade de fugir. E sabem que isso é normal. "Gratificação e frustração são o dia a dia de uma mãe", defende o psicanalista Nuno Cristiano de Sousa. "A rebeldia de uma criança e o trabalho que dá são o preço a pagar pela gratificação de a ver crescer. E o processo de acompanhar o crescimento de um filho é uma das experiências mais divertidas pelas quais se pode passar, mas, ao mesmo tempo, acarreta consequências que implicam imensa resiliência e tolerância à frustração, principalmente nos primeiros meses de vida do bebé." Por isso, o psicoterapeuta defende que essa ambivalência entre adorar os filhos, mas detestar o trabalho que eles dão, é compreensível quando é vivida pontualmente, mas se é um sentimento presente constantemente talvez seja sinal de vários aspetos que tenham de ser repensados na relação dos pais com a criança, a relação do casal e a gestão do dia a dia.

Mas há mães para as quais não há ambivalência, antes certezas. Ninguém tem dúvidas que quanto mais sozinha estiver a mulher e quanto menos recursos e apoios tiver, mais provável é que encontre desagrado na experiência. Mas mesmo aquelas que têm aparentemente todas as condições reunidas podem sentir-se arrependidas de entrar no barco da maternidade. Sara, por exemplo. "Tenho uma vida relativamente confortável financeiramente, algum apoio da minha mãe, ocasionalmente de uma babysitter e o meu marido sempre foi muito participativo nos cuidados à nossa filha. Acredito que se as circunstâncias fossem menos favoráveis o que sinto seria pior, mas mesmo com todas estas condições, para mim, claramente, é um papel sobrevalorizado. Se soubesse o que sei hoje, teria optado por não ser mãe", garante Sara.

Já a socióloga Orna Donath, da Universidade de Tel Aviv, em Israel, sabia deste os 16 anos que não queria ser mãe. E quando em 2007 apresentou a sua tese de mestrado sobre judeus israelitas que não queriam ter filhos, ficou com uma frase na cabeça, que toda a gente repetia, a propósito destes homens, mas sobretudo das mulheres: elas vão arrepender-se. E, de facto, havia alguns estudos sobre isso, sobre mulheres que decidiam não ser mães e que se arrependiam dessa decisão mais tarde. Mas, curiosamente, não havia estudos sobre a situação oposta: sobre quem os tinha e se arrependia disso.

E foi por isso que avançou para esse tema na altura do doutoramento, dando voz a 23 mulheres israelitas que, como Sara, lamentam o dia em que decidiram ter filhos. Uma das coisas que a socióloga demostra com o seu estudo – e uma das ideias que combate – é a ideia de que são as mães solteiras com pouco apoio e poucos recursos que se arrependem de ter tido os filhos. Ter as condições consideradas necessárias – tempo, dinheiro, ajuda, um companheiro participativo – não afasta o arrependimento. Um arrependimento que, no estudo, é balizado de forma muito clara para o distinguir da ambivalência. As mulheres com quem falou não são aquelas que se queixam das dificuldades para depois concluírem, com um sorriso, que vale tudo a pena, são aquelas para as quais não há nenhum ‘mas’: se pudessem voltar a atrás no tempo escolheriam não ser mães e, pesando vantagens e desvantagens, defendem que os aspetos negativos, para elas, superam os positivos.

Optar por não ter filhos

Os estudos na linha dos de Orna Donath são raros, mas não os únicos. Na verdade, nem terão sido os primeiros. Um estudo levado a cabo pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos, nos Estados Unidos, realizado entre 2002 e 2003 junto de 7000 mulheres, mostra que a esmagadora maioria das mulheres americanas, 97%, concordava à data com esta frase: "As recompensas de ser mãe superam as dificuldades e trabalho que a maternidade dá." Mas sobravam 3% que não concordam com a frase. E 3% – não é demais frisar e ser redundante – são 3 mães em cada 100, não é um valor a desprezar.

Impõe-se a pergunta: porque é que estas mulheres optam então pela maternidade? Sara assume que a pressão social e familiar a empurrou um pouco para a decisão. Ser mãe nunca foi um desejo marcado, mas o marido queria ser pai, a sua própria mãe abanava a cabeça quando ela dizia que não sabia se queria filhos e as amigas apregoavam-lhe as maravilhas da maternidade. Acha que a história cor-de-rosa que toda a gente conta desempenhou um papel na decisão de avançar. "Ouvimos vezes sem conta outras mães dizerem que os sacrifícios exigidos são compensadores. Acreditamos na versão delas, sem questionamos que para nós pode ser diferente. Eu não sentia grande instinto maternal, mas acabei por achar que depois de ser mãe ele inevitavelmente aparecia." Antes de ser mãe nunca tinha ouvido falar de mulheres que não gostavam desse papel. Só quando começou a sentir-se assim, logo nas primeiras semanas, é que pesquisou e percebeu que não estava sozinha. "Falo ocasionalmente com outras mães que se sentem da mesma forma que eu. À minha família nunca disse nada, vi desde o início que não havia abertura para isso."

No caso das mulheres entrevistadas por Orna Donath, muitas assumem também que a pressão social foi determinante: em Israel, em média, os casais têm três filhos, pelo que não querer ser mãe é uma opção socialmente pouco aceite. "A maternidade implica um compromisso profundo e por muitos anos. É uma decisão que deve ser tomada após um balanço sério do quão disposta se está a aceitar as consequências, as boas e as desafiantes", alerta Nuno Cristiano de Sousa. "Abdicar da maternidade é um desejo saudável quando a mulher não tem vontade de se sujeitar às condicionantes que daí vêm."

Talvez por isso, Orna Donath tem-se batido por esta ideia: quando uma mulher disser que não quer ser mãe, acreditem nela. Não a questionem, não a pressionem, não tentem mudar-lhe a opinião, não a exortem a pensar melhor no assunto e não a intimidem com um possível arrependimento futuro. Acreditem nela: ela não quer ser mãe.

*Artigo originalmente publicado na edição 344 da Máxima / Maio de 2017.

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