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Dicionário das flores

"Gosto muito do António Lobo Antunes. Uma vez falámos, ou melhor, ele elogiou-me uma gabardine."

Irises, 1890
Irises, 1890 Foto: Vicent van Gogh/Getty Images
01 de maio de 2021 Cláudia Lucas Chéu

O António Lobo Antunes que não leve a mal, mas roubou-me sem saber a ideia que andava na minha cabeça há alguns anos. Simplesmente, antecipou-se a publicá-la. Há muito que tinha anotado este nome para o título de um livro. E porquê? Porque a minha mãe tinha em casa, desde que eu era miúda, um livro homónimo e pequeno de capa amarelada. Um livrinho que me intrigava, e eu não conseguia descortinar o interesse que alguém podia ter por aquilo, pois tratava-se de um dicionário dos nomes das flores. Perguntava-me porque quereria alguém saber o significado das flores e se teriam as flores um significado. As flores eram flores, pronto, e as únicas que me agradavam eram as azedas, que colhia nos arrabaldes da encosta junto à ponte 25 de Abril, e lhes mordia o caule e bebia o líquido que fazia jus ao nome. De resto, não via qualquer interesse nas flores, nem via interesse em significados. Nessa altura, como qualquer criança, limitava-me a ser. A estar atenta ao presente, não procurava significados para as coisas, bastava-me que existissem.

Gosto muito do António Lobo Antunes. Uma vez falámos, ou melhor, ele elogiou-me uma gabardine que eu tinha vestida, curiosamente com um padrão de flores, e eu ouvi-o. Uma gabardine vistosa, cheia de flores com cores fortes, que eu usava nos tempos do Conservatório. Foi há tantos anos – muito antes do António deixar que lhe publicassem o Diccionário da Linguagem das Flores –, nos primórdios do El Corte Inglés em Portugal. Durante uma sessão de autógrafos do António, pus-me na fila. E quando chegou a minha vez, ele olhou para mim, sorriu e elogiou-me o casaco: «Que bela gabardine. Tantas flores. Que nome coloco no livro?» 

Cito muitas vezes o António nas minhas aulas de escrita. «Um livro faz-se escrevendo uma palavra de cada vez», «está-se morto demasiado tempo» ou «paciência, orgulho e solidão» são alguns dos conhecimentos necessários a um escritor. Hoje comprei hortênsias e lembrei-me do António, do Diccionário da Linguagem das Flores, da minha gabardine, do dicionário pequeno da minha mãe, que neste momento se encontra em minha casa. Cravei-o há uns anos. Fui consultar o nome «hortênsia» e descobri: frieza, indiferença, vaidade. Preferia não ter ido ao dicionário, significa algo que me desagrada. Queria continuar a olhar para as hortênsias e a gostar delas sem qualquer significado. Só porque existem e são belas, como todas as flores; mesmo as que são feiotas, sobretudo essas, parecem-me ainda mais belas. Também me ocorreu que procurar significados é uma coisa de adultos e que retira graça ao que existe na Natureza. A Natureza não precisa de dicionário para existir, não precisa de linguagem. Pelo menos não precisa da nossa linguagem nem de ser traduzida. Devíamos apenas admirá-la. Talvez o único dicionário de flores que volte a abrir cá em casa seja o do António, que não é um dicionário. Trata-se de um objecto repleto de frases férreas, como carruagens antiquíssimas, progredindo nos carris. Ainda bem que me roubou, sem saber, o título. Ficou mais bem entregue.

*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990. 

 

 

Saiba mais
Cláudia Lucas Chéu, Crónica Flor do Cacto, flores, António Lobo Antunes, Dicionário da Linguagem das Flores, reflexão, memória, Natureza
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