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Da ortodoxia religiosa ao mundo da Moda: a revolução pessoal de Julia Haart

Um ano depois da estreia da série 'Unothordox', a Netflix volta ao tema do papel das mulheres no seio das comunidades de judeus ortodoxos. Em formato de reality show, 'My Unorthodox Life' conta a história da empresária e designer de Moda, Julia Haart, e sua família, desde a escola religiosa às catwalks de Nova Iorque

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03 de agosto de 2021 | Maria João Martins

Não usarás calças. Não mostrarás os ombros ou os braços. Aceitarás o marido que te escolherem e, com ele, terás todos os filhos que a Natureza, leia-se Deus, te conceder. E às filhas ensinarás o valor da resignação em prol da família. Assim foi a vida de Julia Hendler como judia ultraortodoxa, no seio da comunidade haredi, até ao dia em que, casada a filha mais velha, decidiu romper com tudo o que conhecera até aí e partir à conquista do que lhe faltara em mais de 40 anos. Incluindo uma carreira de topo na Moda.

Esta é a história do reality show que a Netflix estreou a 14 de julho: My Unorthodox Life. Ao longo de nove episódios, assistimos às conquistas, contradições e conflitos vividos por Julia, que já não é Hendler mas Haart, os seus quatro filhos e genro na passagem de um mundo ao outro, com tudo o que isso significa de angústia e autoquestionamento. Mesmo que, a nossos olhos, apareçam vestidos e maquilhados como personagens de uma versão contemporânea de Dallas ou Dinastia, as tensões entre todos são tão reais e potencialmente tão devastadoras como uma tempestade de verão.

Julia Haart e Robert Brotherton nas filmagens de My Unorthodox Life, da Netflix
Julia Haart e Robert Brotherton nas filmagens de My Unorthodox Life, da Netflix Foto: Netflix

Mas quem é realmente Julia Haart? Nascida em Moscovo em abril de 1971, acompanhou os pais para os Estados Unidos ainda muito pequena. Integrada a família numa comunidade ultraortodoxa de Nova Iorque, Julia cresceu de acordo com os padrões vigentes: frequentou uma escola religiosa, foi educada para ser uma boa esposa e mãe, toda ela abnegação e sacrifício. Aos 19 anos, conforme era esperado, casou com um estudante cinco anos mais velho e começou a dar aulas de religião. Em segredo, para ter algum dinheiro seu, foi vendendo seguros de vida. 

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Mas, em 2013, decidiu que não aguentava mais esta vida de autoapagamento. Poucos dias após o casamento, também aos 19 anos, da sua primogénita, Batsheva deixou a casa de família e a comunidade e soltou-se num mundo em que a religião, judaica ou qualquer outra, não é a medida de todas as coisas. Pediu o divórcio e abandonou o nome de casada. Tornou-se Julia Haart, a mulher que, em meia dúzia de anos, queimou etapas no muito competitivo mundo da Moda e das marcas de luxo. Em 2016, depois de ter criado em nome próprio uma coleção de sapatos, tornar-se-ia diretora criativa da italiana La Perla e, em 2017, vestia Kendall Jenner para a gala do Met com um vestido que fez furor, já que entre a transparência total do vestido e a nudez da modelo havia apenas 85 mil cristais. Dois anos depois, ei-la nos lugares em que a vemos em My Unorthodox Life: CEO da superagência de modelos Elite World Group e diretora criativa da e1972, a marca de luxo da própria Elite. Como Julia, sem estudos ou curriculum nas áreas quer da Moda, quer da Gestão, aqui chegou, a série não esclarece.

Miriam Haart, Batsheva Weinstein e Binyamin “Ben” Weinstein nas filmagens de My Unorthodox Life, da Netflix.
Miriam Haart, Batsheva Weinstein e Binyamin “Ben” Weinstein nas filmagens de My Unorthodox Life, da Netflix. Foto: Netflix

O foco do reality show da Netflix está todo na repressão física, mental e emocional a que as mulheres são submetidas, do nascimento à morte, nesta comunidade ultraortodoxa. O tema, recorde-se, já fora tratado em anteriores programas da Netflix: Unorthodox, baseada nas memórias de Deborah Feldman, que deixou a comunidade hassídica depois de casar aos 17 anos e ter um filho. Antes disso, já fora apresentado o documentário One of Us que acompanha as vidas de três antigos judeus hassídicos depois de abandonarem a comunidade de origem e o modo traumático como se relacionam com o que deixam para trás, nomeadamente as famílias, que nem sempre compreendem ou aceitam esta opção.

Às críticas que não tardaram a chegar ainda antes da estreia de My Unorthodox Life, Julia Haart responde, antes de mais, que gosta muito de ser judia mas que rejeita o fundamentalismo religioso, qualquer que ele seja: "Antes de me julgarem - declarou - vejam o programa. Estão só a fazer presunções porque vêem o termo não ortodoxo no título, mas se virem com atenção repararão que também tenho coisas positivas a dizer sobre a comunidade."

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Goste-se ou não do formato de reality show, o mérito desta série está no modo como aqui se colocam algumas questões perturbadoras sobre o papel e os direitos das mulheres dentro de certas minorias religiosas, mesmo em países, como os Estados Unidos, em que estes estão há muito consagrados pela Constituição. O que, ao longo dos episódios, vai demonstrando, sobretudo através das conversas com as filhas, Batsheva e Miriam, é que a sua luta é contra um sistema que nega às mulheres qualquer possibilidade de prosseguir estudos para além da escola religiosa, de ter uma carreira, de cantar, dançar ou de se vestir de acordo com a sua personalidade e gosto pessoal. "O que eu quero - diz em determinado momento - é que as raparigas da minha comunidade de origem também possam sonhar ser médicas, advogadas ou o que elas quiserem. Quero que saibam que importam como indivíduos e não apenas como mães e esposas."

Julia Haart e o filho mais novo, Aron Hendler, nas filmagens de My Unorthodox Life, da Netflix
Julia Haart e o filho mais novo, Aron Hendler, nas filmagens de My Unorthodox Life, da Netflix Foto: Netflix

Na série, Julia não esconde que na origem da sua radical mudança de vida esteve, não apenas a falta de realização profissional, mas também a frustração amorosa e sexual. Casada sem amor ou desejo pelo pai dos filhos, temia que este modelo se repetisse nas filhas, sobretudo em Miriam, cuja homossexualidade a tornava uma potencial vítima de humilhação e ostracismo. Vemo-la, por isso, a abordar abertamente estas questões no reality show, em família (de que faz parte o seu segundo marido, o italiano Silvio Scaglia), para evidente desconforto da filha mais velha e do genro, dos filhos mais novos e até do assistente pessoal, Robert. Um desconforto que se estende à leitura do manuscrito das suas memórias, onde, uma vez mais, Julia não hesita em expor o mau resultado das educações religiosamente orientadas, mesmo que isso passe por expor a intimidade dos que lhe são próximos. Com o título Brazen: My Unorthodox Journey from Long Sleeves to Lingerie, a obra, editada pela Random House, tem lançamento previsto para Abril de 2022.

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