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Cyberbullying: “A perseguição e o ataque são virtuais, mas o sofrimento é real”

As palavras de denúncia do ator Manuel Moreira lembraram a urgência de falar sobre cyberbullying e discurso de ódio nas redes sociais.

Foto: @joannacorreia
25 de maio de 2021 | Joana Moreira

"Isso é para o Manel Moreira?", pergunta um dos rapazes do vídeo que foi partilhado em muitas contas de Instagram esta terça-feira. A mensagem, com texto e vídeo, foi enviada de forma privada para o ator português, que decidiu, entretanto, partilhá-la com os seus 23 mil seguidores, numa forma de alertar para o bullying de que é alvo pela sua homossexualidade. "Há sempre quem revire os olhos quando falamos na importância para a não-discriminação, da linguagem que escolhemos usar em casa à frente de crianças e jovens, da empatia e do combate ao bullying", começou por escrever no post na sua página na rede social.

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Manuel Moreira, 38 anos, conhecido do grande público por interpretações na série Morangos com Açúcar ou no espetáculo Avenida Q, decidiu divulgar as mensagens depois de ser, mais uma vez, o alvo de um grupo de rapazes online. "Há umas semanas um outro rapaz deste mesmo grupo mandou-me uma mensagem do mesmo género, a meio da noite. Estão a beber copos e começaram a fazer vídeos a chamar-me paneleiro e a dizer que eu era uma merda", relata à Máxima. Na altura, o ator terá apagado o vídeo e bloqueado o rapaz que lhe enviou a mensagem. Desta vez, as mensagens com o mesmo cariz e o "mesmo tipo de insultos" levaram Manuel a expor a situação. "Há mesmo aqui uma sensação de impunidade que a idade ou o álcool não desculpam", justifica.

"Apesar de isto já não me afetar, lembro-me sempre dos miúdos que eu conheço e dos que eu não conheço, mas que podem estar a passar por isto (...) É um exemplo crasso de como o bullying é exercido. A energia que está naquele vídeo é a mesma energia, tom e formato dos episódios de bullying tanto na internet como ao vivo nas escolas do país inteiro, nas paragens de autocarro, nas colónias de férias de verão, onde os miúdos vão e são confrontados com estes ataques diariamente como eu fui quando era miúdo", alerta.

Na sua publicação chovem likes, comentários de apoio e de estupefação perante o que ali é partilhado, de figuras públicas a desconhecidos. "Há uma conversa muito instituída do ‘ai, já não há paciência para a conversa do bullying’ e a verdade é que muita gente ficou chocada por ver este exemplo prático. Mas se imaginar que em vez de ser eu, um homem resolvido de 40 anos, for um miúdo de 15, que e está a passar por uma depressão e em busca de uma identidade, a ser vítima destes insultos, é quase impossível uma pessoa não se chocar", diz.

"O que acontece na internet não fica só na internet"

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A frase acima foi o mote da campanha de sensibilização da Associação Portuguesa de Apoio Vítima (APAV) lançada em outubro com o objetivo de alertar para temas como o cyberbullying e crimes de ódio, mas também data breaches, phishing, burlas online, grooming, sextortion, promovendo a divulgação dos serviços de apoio da Linha Internet Segura (800 219 090). Entre janeiro e dezembro de 2020, a APAV contabilizou 1.164 casos de atendimento e apoio nessa mesma linha, revela um novo relatório com as estatísticas da associação. Ao longo do último ano, 7 dos casos denunciados foram de cyberbullying.

A pandemia intensificou um fenómeno que já existia. "Tem vindo a ser uma realidade cada vez mais presente. Há estudos que demonstram", diz Teresa Paula Marques, psicóloga e autora do livro Odiolândia – Como nos podemos proteger do ódio nas redes sociais.

Sobre o caso exposto esta terça-feira pelo ator português, a psicóloga admite que "tendo [o Manuel Moreira] essa situação mais ‘resolvida’, digamos assim, obviamente tem mais ferramentas psicológicas e resiliência para ultrapassar essa situação sem ficar com sequelas emocionais tão intensas. Outras pessoas ficarão com sequelas emocionais. Porque ser alvo de ódio nas redes sociais não é nada fácil (...) A perseguição e o ataque são virtuais, mas o sofrimento é real", refere.

O ator optou por divulgar a mensagem na íntegra, bem como o autor. "A minha ideia não é destruir a vida dos miúdos até porque daqui a umas semanas já ninguém se lembra do que eles fizeram, e a vida deles há de continuar, têm uma vida pela frente, e espero que se tornem adultos responsáveis e com mais empatia", diz à Máxima, garantindo que procurou apenas abrir o espaço para o debate. "Gosto de partilhar as coisas porque põe as pessoas a falar umas com as outras (...) A grande utilidade das redes sociais também é essa", afirma. A verdade é que o pedido de desculpas do responsável da conta de onde foram enviadas as mensagens chegou umas horas depois da partilha do post com a denúncia.

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Na opinião da psicóloga, o ideal em situações desta natureza é ignorar o agressor, mas não a mensagem. "Habitualmente, o que os estudos demonstram é que o que mais resulta é ignorar o hater, ou seja, não se dirigir a ele. Colocar uma mensagem expondo a situação, dizer de sua justiça que se está a ser alvo de uma situação para sensibilizar as pessoas, mas não expondo a própria mensagem. Embora perceba que é extremamente difícil e que apeteça não só expor a mensagem como responder agressivamente à pessoa, isso eu compreendo perfeitamente porque é o nosso primeiro impulso. Mas o que o hater quer é a resposta. Ele está ali para provocar. E por isso acaba por lhe dar mais lenha para a fogueira que ele quer acender", explica.

Apesar disso, as partilhas podem ajudar a demover futuros agressores: "As denúncias são extremamente importantes para sensibilizar as pessoas porque há pessoas que consideram que estas coisas são um exercício de liberdade de expressão, que não são sequer cyberbullying ou discurso de ódio. É liberdade de expressão. E tem de se perceber que isto não é liberdade de expressão, é insulto. É fazer mal a alguém de uma maneira intencional".

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