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Crónica Isabel Stilwell. A cozinha é um símbolo de opressão

Uma dona de casa a cozinhar em1964
Uma dona de casa a cozinhar em1964 Foto: Getty Images
20 de abril de 2022 Isabel Stilwell

Odeio cozinhas. Acho que as cozinhas são um símbolo da opressão sobre as mulheres, e que no mês de abril, mês de revolução, devíamos dar-lhes um outro fim. Transformá-las em estufa de plantas ou em salas de estar, tapando o fogão com floreiras de cravos e transformando o lava-loiça num aquário. Cá para mim, quem vendesse casas construída de raiz sem cozinha descobria um filão. Um nicho de mercado. Há de haver por aí mais mulheres que, como eu, também as abominam. Não o revelam, talvez por vergonha de não ter amor ao avental, mas desconfio que existem. Ou, pelo menos espero que sim, porque não quero sofrer de uma fobia que mais ninguém tem.

As que detestam cozinhas com uma fúria igual à minha, sabem bem que não é fácil escapar aos sentimentos contraditórios que provocam. Contraditórios, mas todos maus. Quando estamos dentro dela, atadas ao fogão a cozinhar para a família inteira, olhamos para o mundo lá fora e pensamos em todas as coisas que podíamos estar a fazer com aquele tempo, e que nos deixariam infinitamente mais felizes. Temos raiva a filhos e maridos esfomeados, que insistem em comer todos os dias, três vezes ao dia, 365 dias por ano. Sonhamos com um futuro, há tantos anos anunciado, mas que nunca chega, em que as pessoas se alimentarão de comprimidos, drageias e ampolas, ‘glup’, é só engolir com um golo de água e já está. Melhor do que os grunhidos porque a sopa está demasiado aguada, a massa não é al dente ou o arroz cozeu demais. E ainda sobram os pratos para lavar, e as panelas e as travessas, enquanto os ponteiros do relógio avançam, como cancelas que não nos deixam escapar dali.

Mas se nos revoltarmos e nos recusarmos a voltar a lá entrar, ou se simplesmente evitarmos o lugar, somos inundadas por uma sensação de incompetência, como se houvesse uma lacuna gigante no nosso currículo de supermulheres. A nossa mãe, daqui ou do lugar para onde as mães vão e de onde, para o bem e para o mal, nos espreitam, atentas, abana a cabeça contristada, certa de que, em breve, seremos abandonadas pelo esposo, naturalmente cansado de comer pizzas descongeladas. E assim como assim, o que se responde a uma neta que nos pede para lhe fazermos um bolo? Dizemos-lhe abertamente que somos alérgicas à farinha e que não fazemos ideia — nem queremos fazer — de como é que se batem claras em castelo ou se atinge o ponto estrada ou de açúcar? E se fica traumatizada, escondendo das amigas da escola a avó que lhe calhou em sorte? 

A coisa não fica por aqui. O mais estúpido, o mais incrivelmente estúpido, é que tudo se torna ainda mais difícil de suportar quando o homem da casa se oferece para nos substituir na cozinha não uma, nem duas, mas em todas as refeições, e ainda para mais cozinha na perfeição. Aparentemente é a divisão de tarefas. A cada um segundo o seu talento e, em contrapartida, ninguém arranja melhor jarras de flores do que nós. Pois. Devia ser assim, mas não é. E, como em tantas situações da vida, em lugar de aceitarmos a dádiva, ficamos a remoer. Estamos formatados para as listas de Deve e Haver, que acabam na porta do frigorífico. Quando é o homem que ocupa a cozinha, sentimo-nos obrigados a vir para a mesa a horas, sem refilar. A comer, mesmo quando não temos fome. A procurar adjetivos para descrever as delícias do que nos põem no prato quando, na realidade, passávamos bem com um iogurte e granolas. E a gratidão começa a pesar, porque ninguém fica genuinamente grato por aquilo que na realidade não deseja, e a gratidão dá lugar à ingratidão que pesa no estômago e é tão difícil de digerir.

Nada disto acontecia se não houvesse cozinha. A alternativa é uma lobotomia, e a esperança de que esta patologia já não venha inscrita no ADN de uma nova geração.

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