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Biblioterapia: quando os livros nos salvam

Rabugice, tristeza, insónias ou desencanto, há livros para todos – ou quase todos – os males. E há também quem os prescreva, como se de médicos se tratasse. A esta arte de juntar as pessoas aos livros que as fazem sentir melhor chama-se biblioterapia.

29 de junho de 2020 | Carla Marina Mendes

"Um livro pode ser um estimulante, um tranquilizante, um irritante ou um soporífero." A definição surge em 1916, num artigo da revista The Atlantic Monthly, onde se escrevia pela primeira vez sobre a biblioterapia. O conceito era então novo, da autoria de um tal de Dr. Bangster, que receitava livros a quem deles precisava. Mas ainda que do seu sucesso não reze a história, esta atesta que a prescrição literária não se ficou por aqui. E, depois da I Guerra Mundial, foi nos Estados Unidos que mais gente serviu, sobretudo soldados regressados da batalha, a quem eram recomendados livros destinados a ajudar na sua convalescença.

A prática manteve-se. E, hoje, é a britânica Escola da Vida, do filósofo Alain de Botton, que a torna popular. E não se trata aqui apenas de ‘receitar’ livros de autoajuda para ajudar a levar de vencida a depressão ou os transtornos de ansiedade, mas o recurso à ficção, que serve para tratar males tão diferentes como o coração partido, a exaustão, a perda da fé ou o medo de jantares sociais.

As britânicas Susan Elderkin e Ella Berthoud são as ‘doutoras’ de serviço. E é com os livros que prometem tratar de tudo um pouco. Um trabalho que começou há vários anos, numa altura em que eram elas a precisar de tratamento. "Eu e a Susan andámos juntas na universidade e quando uma de nós tinha um problema, fosse um desgosto amoroso, a preocupação com o futuro ou dúvidas com um qualquer trabalho, dávamos sempre uma à outra um romance para ajudar", conta Ella Berthoud à Máxima. E com resultados. "Líamos o livro e sentíamo-nos bem."

Foi assim que tudo começou. E que continuou, ao longo dos anos, com cada vez mais ‘clientes’. "Percebemos que funcionava e tentámos fazer o mesmo com os nossos amigos e família", recorda. Daí até se terem tornado ‘médicas’ de livros foi apenas um passo. Do encontro com Alain de Botton surgiu o convite para criarem o seu próprio ‘consultório’ de biblioterapia na Escola da Vida e há quatro anos que recebem clientes e os tratam através dos livros.

Casar a vida com a leitura

Tudo começa com um questionário. Nele, as especialistas perguntam ao ‘paciente’ sobre o que gosta de ler, como é a sua vida, se é casado, solteiro ou divorciado, se tem filhos, quais as suas preocupações, as situações que tem para resolver e quais os autores de que não gosta. "Depois, casamos as duas coisas: a vida e a leitura e tendo percebido o que se passa com as pessoas, por exemplo, se estão a mudar de carreira, se vão ter um filho, se querem ir viajar à volta do mundo ou se alguém que amavam morreu, damos-lhes uma receita de livros, que é uma lista com seis livros que os vão ajudar naquele momento das suas vidas."

Se é de claustrofobia que se queixam, a receita pode bem ser Uma Casa na Imensa Pradaria, de Laura Ingalls Wilder, livro que, aconselha a dupla de especialistas, deve estar sempre presente quando se entrar num espaço fechado; se o problema é tédio, então O Quarto de Jack, de Emma Donoghue, vai surpreender com "a quantidade de coisas que há nele para fazer"; se é o pessimismo que atrapalha, Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, "a primeira demonstração na literatura do poder do otimismo para dar a volta à vida", talvez resolva o problema.

Por vezes, as situações às quais são convidadas a dar uma resposta são mais difíceis; noutras não há problema nenhum, sendo apenas o desejo de alargar os horizontes da leitura o que motiva as consultas. A maioria é de origem emocional, sendo os problemas relacionados com o amor e as relações sentimentais os mais prevalentes. "Mas atendemos também muitas pessoas que estão numa encruzilhada nas suas carreiras, pessoas que vão ser pais ou que acabaram de ter um filho, que têm a sua vida de pernas para o ar, muita gente que se está a reformar e não sabe o que fazer com o resto das suas vidas…"

Quanto aos problemas físicos, as respostas são mais limitadas. Afinal, reforça, não são médicas no sentido literal da palavra. Nestes casos, a ajuda tende a ser "mais numa perspetiva lúdica, de uma forma metafórica. Por exemplo, para curar os soluços sugerimos uma lista de livros capazes de nos assustar. De certa forma, aquilo que somos é bibliotecárias que recomendam livros", resume Ella Berthoud.

Ler mexe com o cérebro

Não há um estudo científico que confirme os benefícios da biblioterapia. "É muito difícil, quase impossível, estudar este tema porque cada livro que receitamos é diferente. E as pessoas que os leem também. Para uma determinada pessoa, pode ser fantástico ler o Jardim Secreto para combater a tristeza, mas para outra pode ser outro livro completamente diferente. Há livros que são universalmente brilhantes e quase sempre vão conseguir uma resposta positiva, mas há outros que não e há sempre um espaço aqui para o gosto pessoal."

Ainda assim, são vários os trabalhos que atestam os benefícios da leitura, sendo o principal beneficiado o cérebro. De facto, a magia dos livros, aquela que permite que nos tornemos mais do que espectadores, que nos empurra para dentro da história que estamos a ler, há muito que desperta a curiosidade da ciência. E, em 2006, um grupo de cientistas espanhóis da Universidade Jaume I decidiu perceber o que se passa quando lemos com recurso a imagens cerebrais. Para isso, deu a ler várias palavras a um grupo de voluntários, algumas neutras, outras a remeter para cheiros intensos (alho, canela, jasmim), enquanto os submetiam a uma ressonância cerebral. E aquilo que os investigadores verificaram é que todas as palavras lidas ativavam as áreas cerebrais responsáveis pela linguagem, mas as segundas punham também em marcha as áreas olfativas. O que significa que, ao ler, reproduzimos o que as palavras evocam do mundo real e isto vai além do olfato. Por exemplo, quando lemos palavras como agarrar ou dar um pontapé, são as áreas do córtex pré-motor relacionadas com os braços e as pernas que entram em ação.

A este juntam-se outros trabalhos que confirmam que ler ajuda ao desenvolvimento da empatia e da inteligência emocional. Foi o que confirmou um grupo de investigadores da New School For Social Research, de Nova Iorque, que demonstrou que ler grandes romances melhora de forma ligeira, mas evidente, a pontuação dos leitores quando submetidos a testes de empatia.

Os melhores livros para tudo e mais alguma coisa

Seja quais forem os problemas a enfrentar, Ella Berthoud e Susan Elderkin reuniram-nos, e às respetivas ajudas, no livro Portugal: Remédios Literários: Livros para salvar a sua vida – de A a Z. Nele, são várias as listas de títulos sugeridas. E para diferentes fins. Por exemplo, os melhores romances para fazer rir, dos quais fazem parte O Diário de Bridget Jones, de Helen Fielding, ou Os Homens Preferem as Louras, de Anita Loos; os melhores livros para uma separação, como Alta Fidelidade, de Nick Hornby, ou Anna Karénina, de Lev Tolstoi; ou ainda os melhores romances para quando ficamos trancados na rua. Este é um momento que, segundo as biblioterapeutas, pede romances policiais, como Um Espião Perfeito, de John Le Carré, ou Viva e Deixe Morrer, de Ian Fleming.

E para quem não gosta de ler?

Ajudar através dos livros quem não gosta de ler é um desafio maior e pode, confirma Ella Berthoud, "não funcionar tão bem". Mas há aqui formas de contornar a preguiça. "Ler alto para os amigos, ter alguém que lhe leia, ouvir livros gravados" são possíveis soluções. E estando a falar "de uma cura que gira à volta da leitura, até pode ser bom para quem odeia ler, porque pode assim descobrir o prazer da leitura". A oferta é variada, com géneros para todos os gostos. É que a biblioterapia não se socorre apenas dos romances. "Usamos ficção científica, livros para mulheres, romances históricos, dos mais leves aos mais pesados, novelas gráficas, livros infantis..." E autores portugueses, de Saramago a Eça de Queirós.

*Artigo originalmente publicado na edição 336 da Máxima (setembro 2016)

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