Soya Marega: "Ser filho de imigrantes não é fácil. Somos muitas vezes 'os diferentes' e alvo de preconceito"
Há formas de beleza que não começam no espelho, mas na memória. Nos gestos repetidos ao longo de gerações, nos rituais que nos são ensinados antes de sabermos o seu significado, nas mãos que nos cuidam quando ainda não aprendemos a cuidar de nós. A estética torna-se, assim, um lugar de continuidade, onde a cultura, a identidade e a história pessoal não só se encontram, permanecem.
Sou cabeleireira especializada em cabelos naturais e ajudo muitas mulheres na transição, mas, ironicamente, eu própria cresci a não gostar do meu cabelo. Alisava, desfrisava, usava cabelo liso, extensões longas e perucas. Não era apenas uma escolha estética, era rejeição. Era gozada na escola e alvo de comentários e comparações desagradáveis.
Ser imigrante ou filho de imigrantes não é fácil. Muitas vezes somos “o diferente” e isso torna-nos um alvo. Para sermos aceites, tentamos moldar-nos ao máximo. Isso vai muito além da estética: estende-se à música que ouvia e à forma de falar. É curioso como muitos dos hábitos que hoje tenho – e sempre tive – são atualmente trends no TikTok. Comida que tinha vergonha de levar para a escola hoje faz com que as pessoas façam filas para entrar nesses restaurantes. Aprecio e fico feliz que os tempos tenham mudado, mas isso não deixa de nos fazer pensar.
Para mim, rituais de beleza representam momentos de autocuidado. E o facto de conseguir incorporar tradições dos meus pais e avós completa-me, enriquece-me e faz-me sentir eu. Venho de um mundo em que “vaidade” é ser belo e apresentar-se bem, cheirar bem, e isso é essencial, mas não passa apenas por se vestir bem, maquilhar, pentear ou usar fragrâncias. Passa muito pela higiene. Venho de países muçulmanos em que ser limpo é um dos pontos fundamentais por questões religiosas. Para além de pelo menos dois banhos diários e das abluções entre as rezas, frequentamos o hammam uma ou de duas em duas semanas. O hammam é um ritual de purificação física através de banho a vapor, onde se faz uma esfoliação profunda com uma luva específica chamada kessa. Desde muito nova que prezo muito este tipo de cuidado: manter a pele esfoliada, limpa e bem hidratada.
Cresci com os meus pais, sendo a minha mãe marroquina e o meu pai da Mauritânia, ambos muito amantes de fragrâncias, óleos e cremes perfumados, ambos muito vaidosos. A minha mãe, as minhas tias e primas sempre lindíssimas, com bastante kohl nos olhos e muito ouro dos pés à cabeça. Mesmo em Portugal, a minha mãe sempre manteve a sua estética, ainda que de forma mais europeizada. Do lado do meu pai, apesar de culturas diferentes, há uma grande semelhança nesse aspeto. Sou amazigh e soninké e, mesmo tendo nascido em Portugal, sempre estive muito em contacto com as culturas dos meus pais.
A minha mãe é a minha maior referência de beleza, estética e rituais. Para além dela, também as minhas tias e primas na Mauritânia, e ainda as cantoras, filmes e séries da Costa do Marfim, Senegal e Nigéria, moldaram profundamente a minha visão de beleza. Sinto que a minha imagem está em constante evolução, mas sempre soube quem era: quando vejo fotos minhas muito nova, já andava com inúmeras pulseiras nos braços e anéis. Gosto de incorporar a minha cultura na minha estética através da roupa, penteados, fragrâncias ou maquilhagem – recrio as minhas referências e sei que a Soya criança acharia isso o máximo. Só isso importa.
A não existência de pessoas iguais a mim ou à minha mãe na televisão portuguesa e o facto de ser gozada pela textura do meu cabelo fizeram-me acreditar que era feio. Até que um certo dia me olhei ao espelho e decidi que já não queria mais ter o cabelo liso e usar extensões. Aos meus 22/23 anos, recorri a uma amiga para me ajudar nesse processo e, no dia seguinte, apareci com o cabelo natural. Voltei às tranças e nunca mais olhei para trás. Quando abracei o meu cabelo natural, comecei a experimentar diferentes penteados e isso também se tornou num dos meus rituais de autocuidado. Também percebi que a exotização é real – muitas vezes as pessoas sentem liberdade para invadir o espaço pessoal e tocar no meu cabelo.
O processo de me trançar não é simples, requer muita atenção e exige foco no resultado final – e fé! Sinto orgulho no meu cabelo todos os dias, mas o sentimento de liberdade de me desprender de todos os meus complexos, dos estereótipos que me foram inculcados e de finalmente assumir o meu afro foi dos momentos mais marcantes da minha vida e, sem dúvida, mudou-a.
Créditos:
Fotografia: Cristiana Morais
Realização: Cláudia Barros
Maquilhagem: Duarte de Assunção
Lozalização: Centro Comercial Babilónia
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