Reflexão Máxima. "Peso 55 kg e já pensei em tomar Mounjaro"

Quando a magreza nunca chega, algo está errado. E não é só connosco.

Peso e saúde mental são temas da reflexão sobre Mounjaro Foto: Getty Images
10 de fevereiro de 2026 às 17:01 Patrícia Domingues

Olá, sou a nova editora da Máxima. Adorava dizer que cheguei cheia de certezas, pronta para melhorar a vida de qualquer pessoa que leia este site, que anos de terapia me deram todas as respostas, que entrevistar centenas de mulheres e ouvir especialistas me transformou na solução para todos os problemas do universo feminino. Mas bastou subir as escadas do mesmo edifício onde trabalhei há uma pouco mais de uma década para perceber que pouco ou nada mudou - pelo menos no que diz respeito à forma como vejo o meu corpo no reflexo do elevador. Afinal, foi aqui que, trabalhando para uma publicação de moda, submeti-me a uma lipoaspiração a meio dos meus 20 anos.

A bem da verdade, muita coisa mudou no mundo na última década - uma onda política de extrema-direita, o regresso de , os - mas a principal diferença talvez esteja para lá do espelho do elevador da Medialivre. Está também no que os meus olhos encontram antes e depois dele: os meus feeds de Instagram e Tiktok, atualizado ao segundo com pessoas magras obcecadas com a própria magreza. O corpo ideal tornou-se ainda mais inatingível, ou, se quisermos, agora alcançável com um shot de Ozempic ou Mounjaro. O que antes era segredo de estado, hoje é símbolo de status, com a caneta repousando ao lado de um iogurte light no frigorifico.

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Há uns dias, na minha primeira consulta de psicologia com uma médica nova - aquela em que contamos toda a nossa história como um trailer de um filme - revelei-lhe a minha tagline: quero ser magra. “Mas você é… magra?!”, perguntou a psicóloga. Ri-me. É que há magreza e há outra magreza: estilo Kate Moss, com clavículas à mostra e zero esforço, que admirava nos anos 90; a magreza da Daniela, a miúda cool do 12º ano; e a magreza atual, promovida por canetas injetáveis, onde não há nada entre pele e osso e cada “menos 3 kgs até ao verão” se torna objetivo de vida. Enquanto farmácias enfrentam falta de medicamentos essenciais para diabetes e obesidade grave, mulheres conseguem comprar essas canetas de maneiras alternativas (só nos últimos meses conseguiria fazê-lo de 3 maneiras diferentes). Há 10 anos, submeti-me a uma lipo aos 27 anos, para "escrever um artigo". Hoje, a cobrança é outra (amém, terapia) e a honestidade sobre as motivações também, mas a sensação de insuficiência continua a mesma.

Mesmo com mais informação, representatividade e discursos sobre aceitação, a pressão sobre o corpo persiste. Mantras como “aceita-te como és” funcionam lindamente como slogans de marcas, mas na prática têm pouco efeito. Claro que sinto vergonha em admitir que já ponderei comprar uma solução mágica - com tanto conhecimento, tantas dietas, tantas horas pagas de psicologia, não deveria defender-me melhor dos efeitos de um story do Instagram?! Mas crescer com esses padrões, ver as nossas mães a viverem-nos, grava no ADN um desconforto constante com o próprio corpo, anterior a "nós". Como me responde a psicóloga Helena Morais Cardoso: “Os ideais de beleza da infância ficaram profundamente enraizados e moldam o nosso autoconceito. É preciso tempo e trabalho interno para alterar, mas é possível. Nada no nosso funcionamento psíquico é fixo; podemos questionar, rejeitar e libertar-nos desses padrões, individualmente e socialmente”. Só que quando dominamos um, surpresa, surge outro - e nos dias de hoje a magreza não é o único perigo.

Sem perceber, acabei por me tornar exatamente no tipo de mulher que a cultura moderna mais valoriza: disciplinada, focada na aparência, obcecada por autoaperfeiçoamento. Chega a ser irónico. Durante anos criticámos - critiquei - os padrões de beleza, e ainda assim eles continuam, apenas com nova linguagem. Em vez de apenas falar em ser bonita, fala-se em ser a melhor versão de si mesma: cuidar do corpo, da saúde, da mente. À primeira vista, parece libertador, mas no dia-a-dia mantém-nos presas à sensação de que estamos sempre a falhar em relação a um ideal impossível. Como disse Kristen Stewart numa entrevista recente à Dazed: “As mulheres muitas vezes operam de um lugar de vergonha.

Este novo ideal sobrevive porque, como as baratas, adaptou-se aos tempos. Parece moderno, progressista, mas exige constante autoaperfeiçoamento (e, logo, é impossível). Para Audre Lorde - poeta, ensaísta e ativista feminista negra - o autocuidado não era vaidade: era autopreservação e resistência política (coincidentemente o termo também foi popularizado no ano em que nasci, 1988). Cuidar de si era um ato de sobrevivência num mundo opressor. Hoje, tornou-se rotina de produtos, dietas, exercícios e hábitos de bem-estar, mantendo-nos concentradas em pequenas melhorias, em vez de reflexão profunda sobre quem somos, sobre o mundo à nossa volta e sobre se realmente precisamos de Ozempic.

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Sempre pensei que, quando tudo fugia ao meu controlo, o meu corpo era algo que podia controlar. Quanto mais magra, mais feliz. Mas quando 1 kg se transforma em 5 e a tristeza permanece, a obsessão muda de lugar, e nada parece suficiente. Enquanto me diminuía, diminuía, sem me aperceber, também os meus sonhos, limites e ambições. Não consegues pensar grande quando tens a barriga a roncar de fome. E observemos: num mundo em que tantas mulheres gastam tempo, energia e dinheiro tentando literalmente diminuir-se, os homens ocupam o mundo sem precisar de caber em nada. Como escreveu Naomi Wolf: “Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão sobre a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada”. 

Na primeira carta editorial da Máxima, em outubro de 1988, Madalena Fragoso comparava o nascimento da revista ao ‘Big Bang’. O objetivo era “fazer a mulher portuguesa sentir-se bem na sua pele” com moda, beleza, saúde e bem-estar. As intenções eram nobres, mas as páginas continuavam carregadas de estereótipos: dietas rápidas, publicidade anti-envelhecimento e a ideia de que beleza é sinónimo de magreza. O princípio desta Máxima de 2026 mantém-se o mesmo anunciado pela diretora nos anos 80: é dever dos media, especialmente aqueles que falam para mulheres, questionar, desafiar e criar novos padrões. Mas é também nosso dever fazê-lo de uma forma consciente e gentil, reconhecendo que ainda correm em nós os medos, punições e vozes do passado. Afinal, deste lado está a mesma miúda que fez aquela lipo há 10 anos e que, mesmo com pensamentos intrusivos sobre Mounjaro, agora escolhe cuidar de si sem se encolher.  

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