Não responder, não demonstrar interesse, não querer saber: como nasceu a "cultura do desinteresse"?
Nos dias de hoje não há nada mais cringe do que querer saber.
Chris Noth e Sarah Jessica Parker contracenam num momento romântico
Foto: IMDB15 de junho de 2026 às 10:00 Rita Pinto da Silva / com Patrícia Domingues
Não queremos atirar sempre as culpas para a Gen Z, mas a verdade é que todos os termos criados para descrever aquilo que se está a passar na cultura dos relacionamentos modernos foram da sua autoria. Situationships, ghosting, hookup culture, avoidant, orbiting e love bombing são só alguns exemplos de códigos para descrever comportamentos que, na maioria dos casos, nos irritam e estão relacionados com uma certa coolness em "não querer saber" (resumidamente uma unbothered queen com zero f*cks given). A verdade é, com tantos termos novos e assustadores, quem é que tem vontade de namorar?
A sexóloga e terapeuta de casal Sandra Neto nota a importância de "contextualizar esta geração antes de a definirmos" e relembra que, "a Gen Z foi a primeira geração a crescer completamente imersa na internet de alta velocidade e nas redes sociais. É uma geração que cresceu com acesso constante ao mundo, às opiniões dos outros, às experiências dos outros e, sobretudo, a possibilidades infinitas. E isso muda profundamente a forma como nos relacionamos".
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Sandra Neto - Séxologa e Terapeuta de casal
Foto: DR
Em entrevista à Máxima, Sandra explica que a chamada "cultura do desinteresse" não se trata, apenas, de um mecanismo de defesa mas sim de uma questão de sobrevivência emocional: "Talvez seja sobretudo o reflexo de uma geração que está a tentar aprender a relacionar-se num mundo onde tudo é rápido, acessível e substituível, incluindo, muitas vezes, as próprias relações."
Por outro lado admite que há quem evite investir emocionalmente para não sofrer, quem se torne excessivamente vigilante a sinais de abandono, ou quem entre numa lógica constante de autoproteção onde já não se relaciona de forma espontânea, mas defensiva.
"Esta geração vive num contexto de enorme acessibilidade relacional: conhece pessoas mais rapidamente, contacta mais facilmente, está constantemente exposta a novas possibilidades e também às histórias, opiniões e experiências emocionais de milhares de outras pessoas. Isso cria uma sensação permanente de comparação e de questionamento".
Vivemos numa sociedade que está presa num paradoxo: 'Deus nos livre' a vergonha de nos importarmos ou mostrarmos algum tipo de sentimento por alguém, mas quem nos dera um romance de tirar a respiração, como aqueles que vemos nos filmes.
A Roe Magazine descreve este fenómeno como “ressaca de vulnerabilidade”, e explica que “quando convidamos alguém para sair e essa pessoa demora doze horas a responder, ou quando vamos a um encontro e não nos enviam nenhuma mensagem depois, sentimos sempre uma espécie de ressaca. Uma mistura de dopamina esgotada, humilhação e ansiedade”. Mas será que nos esquecemos, coletivamente, de que antigamente se esperavam horas por uma resposta? Que se queríamos ver alguém aparecíamos-lhe à porta? Se ligar para alguém só porque sim é embaraçoso, o que é que as novas gerações pensam sobre os gestos românticos (ou cringe) dos anos 90?
Tudo se resume a dois sentimentos: vergonha e medo da rejeição (mas aquilo de que devíamos ter vergonha é de todas as vezes que publicámos um story com a música favorita dele só para ver se dava like). Fazemos o esforço, vamos ao encontro, enviamos a mensagem e, no fim, não temos qualquer tipo de reciprocidade emocional imediata e isto destrói-nos.
Aliás, é um pouco com base neste sofrimento que Sandra Neto explica a necessidade da criação de todas estas novas palavras: "Muitos destes termos, nomeadamente situationship, ghosting ou orbiting, acabam por surgir porque dar nome aos fenómenos que estamos a viver também nos traz uma certa sensação de orientação e segurança emocional".
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Surpresa: ser vulnerável é o preço que pagamos pela intimidade que queremos. E a verdade, e esta pode doer, é que quem não se permite ser vulnerável perde todas as hipóteses de ter qualquer tipo de intimidade (principalmente emocional). A rejeição é ambígua: por um lado, é vista, como um ato feito por alguém superior emocionalmente. Como se o desinteresse e a indisponibilidade fossem merecedores de um prémio de valorização social qualquer. Por outro, é vivida por quem é rejeitado ou substituído como se do fim do mundo se tratasse.
Para a Gen Z, o medo e a pressão de parecer emocionalmente independente, desejável, confiante e “desapegada” é culpa das redes sociais: " A confrontação diária já não é com a fragilidade humana real. É com pessoas que parecem sempre seguras, produtivas, felizes, desejadas e absolutamente certas do caminho que estão a seguir. E isso altera profundamente a forma como os jovens olham para si próprios", explica a terapeuta, acrescentando que a vulnerabilidade torna-se assustadora porque expõe precisamente aquilo que esta cultura nos ensinou a esconder. Em bom português, "a dúvida, a insegurança, a necessidade de sermos escolhidos, correspondidos e importantes para alguém".
Ao mesmo tempo que observamos um crescimento e admiração por "não querer saber" e participamos ativamente neste desinteresse coletivo, temos também um aumento exponencial de relações e comportamentos tóxicos que, graças à Internet, são todos os dias expostos (e muitas vezes normalizados). Parece que existe aqui um conflito mas na verdade está tudo ligado e resume-se a uma coisa: performance. "Acho que um dos preços mais caros que pagamos hoje pela dúvida constante e pela acessibilidade infinita é o facto de deixarmos, muitas vezes, de ser genuínos dentro das relações para começarmos a performar. Performamos interesse, performamos desapego, performamos felicidade, performamos segurança", expõe Sandra Neto.
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Com tudo aquilo a estamos expostos, a comparação torna-se inevitável: “Porque é que não fazemos o que vejo outros casais fazer?”, “Porque é que não me dás aquilo que vejo na Internet?”, “Porque começaste a seguir esta pessoa?”
Mas de acordo com a terapeuta, nem tudo está perdido: "Acredito genuinamente que esta geração tem potencial para construir relações mais conscientes, mais igualitárias, mais alinhadas emocionalmente e até mais felizes". Para a especialista, a Gen Z está, de certa forma, a funcionar quase como uma geração-piloto daquilo que é amar num mundo hiperconectado. "É a primeira geração filha de pais que, em muitos casos, nem cresceram com telemóveis (...)", conclui.
Um lembrete importante de que estamos todos a experienciar a vida pela primeira vez e a descobrir como viver numa era em que temos tudo na ponta dos nossos dedos. Ou talvez não.
Dizem que as mulheres têm um sexto sentido capaz de descobrir tudo aquilo que queremos e há quem lhe chame de magia. Plot twist: não é. Trata-se de um fenómeno neurológico que tem origem em diferenças estruturais e funcionais no cérebro, tão simples quanto isto.
Não é, necessariamente, uma relação tóxica e ainda tem memória de se ter divertido muito com aquela pessoa. Mas algo mudou. Ou será que está tudo na sua cabeça? Uma psicóloga esclarece.