Reflexão Máxima. A minha cultura não é a tua tendência
Com a crescente popularização de tendências indianas não pude deixar de me rever, com os meus 14 anos - afinal, já é cool ser asiática?
O meu primeiro pensamento quando me sentei para escrever este artigo foi: a minha cultura não é a tua tendência. E digo isto como alguém que cresceu num país ocidental e passou demasiados anos a tentar negar uma parte essencial de si mesma. Sou de ascendência indiana. Hoje, gostava que a minha versão mais nova tivesse chegado a essa aceitação muito mais cedo, mas talvez o que realmente importa seja o facto de, eventualmente, isso ter acontecido. Chegar a esse lugar - o de aceitar quem somos, sem pedir desculpa, sem tentar suavizar as nossas diferenças para cabermos melhor no olhar dos outros - muda tudo. Mudou-me a mim. E é talvez por isso que esta reflexão nasce agora, num momento em que o Ocidente parece cada vez mais fascinado por tudo o que é indiano. Essa atenção crescente trouxe-me de volta memórias de uma versão mais nova de mim que nem sempre se sentia confortável a viver nesta pele, nesta herança, nesta identidade.
Durante muito tempo, aquilo que hoje é celebrado foi, para muitos de nós, motivo de desconforto. O que agora aparece em editoriais, passadeiras vermelhas e campanhas de luxo era, antes, aquilo que nos fazia sentir "demasiado diferentes". A roupa, os nomes, a comida, os rituais, os tecidos, os acessórios, os cheiros, as línguas. Tudo aquilo que nos ligava à nossa cultura podia, em certos contextos, tornar-se precisamente aquilo que nos afastava da aceitação. E por isso pergunto: porque é que o Ocidente decidiu, de repente, olhar para o subcontinente? Claro que sempre olhou. A moda, em particular, sempre olhou. Retirou inspiração, referências, silhuetas, técnicas, bordados, tecidos e símbolos. A diferença é que agora parece existir uma tentativa, ainda que irregular, de dar crédito. Mas será que estamos realmente perante reconhecimento? Ou será apenas que, com o passar dos anos, se tornou mais difícil continuar a "inspirar" sem ser chamado à atenção? Sujata Assomull, jornalista, autora e moderadora, colocou esta questão de forma muito certeira numa conversa com a Vogue Arabia: “Os indianos já não estão dispostos a ser contribuintes silenciosos - vamos denunciar o empréstimo cultural sem crédito. Além disso, consumidores em todo o mundo perguntam agora: 'Quem fez a minha roupa?' Essa exigência de visibilidade está a obrigar as marcas a confrontarem-se com as suas dependências”.
Essa frase ficou comigo: contribuintes silenciosos. Porque durante demasiado tempo foi isso que tantas culturas foram para a indústria da moda: fontes de inspiração sem nome, sem rosto, sem contexto. Presentes no processo, ausentes no reconhecimento. Rahul Mishra, o primeiro designer indiano a integrar o calendário oficial da Paris Haute Couture Week, disse à mesma publicação: "A Índia nunca esteve ausente da história da moda - foi apenas pouco reconhecida”. E talvez seja precisamente esse o ponto. A Índia não chegou agora à moda. A Índia sempre esteve lá. Esteve nos tecidos, nos bordados, no trabalho manual, nos artesãos, nas cores, nas técnicas passadas de geração em geração. Esteve nos bastidores de uma indústria que tantas vezes se alimentou da sua riqueza visual e cultural, mas raramente a nomeou com a dignidade que merecia. Pouco reconhecida. Pouco creditada. E, demasiadas vezes, renomeada.
Relembramos a polémica em torno do chamado "lenço escandinavo" que envolveu críticas à reinterpretação da tradicional dupatta sul-asiática - um xaile longo e leve, usado há séculos - como se fosse um acessório europeu, minimalista e recém-descoberto. Sim, é assim tão profundo. Porque a moda não é apenas algo bonito que escolhemos vestir ou comprar. A moda carrega memória. Carrega geografia. Carrega religião, classe, género, trabalho, migração, pertença e resistência. As tendências não aparecem do nada. Aquilo que um dia é vendido como “novo” nasceu, muitas vezes, de práticas culturais antigas, de corpos reais, de comunidades específicas, de histórias que antecedem qualquer campanha publicitária, disse a Trend of Times numa publicação do Instagram.
É por isso que me incomoda quando se diz que "nem tudo tem de ser político" ou que "moda é só moda". Para algumas pessoas, talvez. Mas para outras, a moda nunca foi apenas moda. Foi a forma como fomos lidas antes sequer de falarmos. Foi aquilo que nos diferenciou numa sala. Foi aquilo que tentámos esconder para parecermos mais próximas da norma. Foi também aquilo que, mais tarde, aprendemos a reclamar.
Renomear uma peça de roupa com séculos de história, usada por mulheres indianas e sul-asiáticas, como uma tendência europeia não é inocente. É ofensivo. Não porque agora vejamos apropriação cultural em tudo, como tantas vezes nos acusam, mas porque agora temos as ferramentas para reconhecer padrões antigos. Estamos mais ligados do que nunca. O que acontece numa passerelle em Paris, numa loja em Londres ou numa campanha digital em Nova Iorque pode ser visto por uma rapariga sentada num café em Mumbai, que reconhece imediatamente a sua cultura a ser esvaziada, embranquecida e revendida.
A pergunta permanece: porque é que algo só se torna elegante quando é usado por uma rapariga branca europeia? Porque é que aquilo que em nós foi visto como exagerado, étnico, antiquado ou "demasiado" se torna sofisticado quando passa pelo filtro certo? Não digo isto para negar a beleza da partilha cultural. A cultura vive também da troca, do movimento, da influência. Nenhuma cultura existe num vácuo. Mas existe uma diferença profunda entre inspiração e apropriação. Entre homenagem e apagamento. O problema não está no facto de uma marca ocidental olhar para a Índia; o problema está em olhar para a Índia como se fosse apenas uma estética disponível, sem história, sem pessoas, sem autoria.
É bonito ver, finalmente, mais representação sul-asiática em espaços que durante tanto tempo nos mantiveram à margem. Desde a segunda temporada de Bridgerton, com Simone Ashley a ocupar um lugar de desejo, elegância e centralidade, até Lara Raj, dos Katseye, ou Bhavitha Mandava, apontada como nova embaixadora da Chanel. Estes momentos importam. Não resolvem tudo, claro. Mas importam. Porque a representação não é apenas sobre aparecer; é sobre aquilo que se torna possível imaginar quando nos vemos refletidos com complexidade, beleza e poder.
As marés estão a mudar, gradualmente. Um dos momentos que mais me marcou foi ver Alia Bhatt no encerramento do Festival de Cannes, em maio de 2025, vestida com o primeiro saree feito à medida pela Gucci. Aquela imagem ficou comigo. Não apenas por ser visualmente deslumbrante, mas pelo peso simbólico que carregava. Uma casa de luxo italiana, com o estatuto histórico da Gucci, a criar uma peça profundamente enraizada na cultura indiana não é um gesto pequeno. Pode ser lido de várias formas, claro, e deve ser lido com sentido crítico. Mas também foi, para mim, um momento de reconhecimento. Um momento em que algo que pertence à nossa herança ocupou uma das maiores montras globais da moda sem precisar de ser disfarçado de outra coisa.
Talvez seja isso que eu procure: não a aprovação do Ocidente, mas a possibilidade de ver a minha cultura tratada com a profundidade que merece. Não como fantasia. Não como tendência passageira. Não como acessório exótico. Mas como uma linguagem viva, sofisticada, antiga e em constante evolução.
E é aqui que as gerações mais novas entram com tanta força. A minha geração - a Z - parece ter menos paciência para o apagamento. Crescemos entre mundos, muitas vezes entre línguas, entre códigos culturais, entre aquilo que nos ensinaram a esconder e aquilo que agora queremos mostrar. Há uma fome visível de reconexão. Uma vontade de tocar na herança sem a tratar como algo preso ao passado. Penso em Diya Joukani, a designer autodidata de 25 anos, baseada em Mumbai, que se tornou viral ao transformar as ruas da cidade na sua própria passerelle. Os seus vídeos são simples, mas dizem muito: ela caminha, veste as suas próprias peças, mistura técnicas tradicionais indianas com streetwear contemporâneo, ocupa espaço. Há algo de poderoso nessa imagem. Porque não é uma cultura a pedir licença para entrar na conversa global da moda; é uma cultura a lembrar que sempre fez parte dela.
Os jovens estão a usar a internet como arquivo, palco e manifesto. Estão a mostrar que tradição não significa imobilidade. Que herança não é o oposto de modernidade - de cool. Que podemos usar bordados, joias, tecidos, cortes e símbolos antigos sem parecer presos ao passado. Podemos reinventá-los. Podemos levá-los para a rua, para a passerelle, para o feed, para Cannes, para onde quisermos.
Talvez a minha versão mais nova precisasse de ver isto. Talvez precisasse de saber que aquilo que a fazia sentir-se diferente um dia seria exatamente aquilo que a faria sentir-se inteira. Que a cultura que tentou esconder não era um peso, mas uma linguagem. Uma herança. Uma casa.
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