Histórias de Amor Moderno: “A única coisa que foi mudando neles foi a tristeza, que foi crescendo, tal como a ausência”

“Certa noite, a meio de um jantar a dois bem regado, o homem pregou uma chapada na mulher e começou a insultá-la. Eu e os meus colegas tivemos de segurá-lo, agarrá-lo e pô-lo na rua.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

Histórias de Amor Moderno Foto: IMDb
01 de agosto de 2026 às 10:00 Maria Olívia Sebastião

Vocês gostam de histórias de amor moderno? Conheço várias. Não sei se serão assim tão modernas, mas aconteceram todas nos últimos 34 anos. Há 34 anos que sirvo à mesa num restaurante de Lisboa. Ou servia. O restaurante fechou este ano. Reabriu entretanto, mas agora é outra coisa, outro conceito, como se diz. No meu tempo, durante todo aquele tempo, eu nem sabia que os restaurantes podiam ter conceitos, achei que o conceito era só um: atender clientes, saciá-los e matar-lhes a sede. Fazer com que, no fim da refeição, saíssem um bocadinho mais felizes do que haviam entrado.

Foi com esse espírito que tentei trazer alegria aos almoços e jantares que juntaram à mesa centenas, talvez milhares de casais, de todos os tipos e todas as idades, ao longo destes 34 anos. Assisti a muitas histórias bonitas, mas as que mais me marcaram foram as outras. As que não são bonitas. Ou, em alguns casos, talvez até fossem. Mas terão sido de uma beleza triste, melancólica, fatídica, com um destino por cumprir sobre as cabeças dos protagonistas.

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Lembro-me de um casal que começou a frequentar o restaurante, eram ambos ainda muito novos, e tinham vindo viver juntos para o bairro. Ela era muito bonita e ele era um rapaz charmoso. Foram meus clientes durante mais de dez anos. Ao início, chegavam, conversavam, riam, brindavam. Nesse tempo, ainda se podia fumar na sala 2. Era para lá que iam sempre. Ele não fumava, mas ela sim, e então ele fazia o sacrifício por ela: levava com o fumo de toda a sala só para que a sua namorada pudesse satisfazer o vício.

Quando trabalhamos na sala, vemos tudo e não vemos nada. Diante de nós, acontecem coisas que observamos em tempo real, mas às quais falta contexto, faltam passado e futuro. Assistimos a um excerto de um filme acerca do qual nada sabemos. Aos poucos, com alguma sorte, vamos descobrindo qualquer coisa sobre os protagonistas - o nome, o que fazem, de onde vêm (em Lisboa, toda a gente vem de outro lado qualquer) -, mas não lhes conhecemos nunca a vida.

Este casalinho de que eu falava, por exemplo, eles foram atravessando jantares, e semanas, e meses, e por fim anos, e nada neles mudou. Sempre apenas os dois. Nunca vinham com amigos, nem com família. Filhos, se os tiveram, nunca os trouxeram - mas não me lembro de alguma vez ter visto a moça com barriga de grávida. A única coisa que foi mudando neles foi a tristeza, que foi crescendo, tal como a ausência. Ao fim de algum tempo, vinham os dois, mas não estavam juntos.

Fechavam-se cada um no seu mundo, nos seus telefones. Já não falavam do vinho, nem do dia, nem da vida. Quando eu metia conversa com eles, respondiam-me com educação, mas já sem o brilho que em tempos os tornava ainda mais bonitos.

Entretanto, deixaram de aparecer no restaurante. Não sei o que lhes aconteceu. Talvez tenham mudado de vida, de casa, de cidade. Mas o que eu acho que é que acabaram tudo. E, como o nosso restaurante era o sítio onde vinham sempre juntos, deixou de fazer sentido virem sozinhos, ou com novas companhias. Penso neles com alguma tristeza, porque os vi descer do amor e da felicidade até à tristeza da solidão acompanhada.

Outro casal muito interessante: eram duas raparigas, ainda bastante novas quando começaram a frequentar o restaurante. Eram cheias de vida, muito simpáticas, muito efervescentes. Acho que gostavam verdadeiramente uma da outra. E estiveram juntas ainda durante alguns anos.

Nunca soube ao certo o que lhes aconteceu - lá está, daqui, só vemos um excerto de um filme que é muito mais longo e muito mais complexo; esta nossa janela é muito estreita, não nos permite ver a vida dos outros, apenas passagens brutas e breves dessas vidas.

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Certo dia, começaram a discutir por causa de um detalhe muito insignificante. Uma delas, pediu o café sem açúcar. E a outra perguntou-lhe “desde quando é que bebes café sem açúcar?” A primeira encolheu os ombros. “Agora, temos novidades e tu não me contas?” A primeira rapariga pareceu bastante fria em relação às perguntas da outra. Saíram muito zangadas. Durante várias semanas, não apareceram cá.

Na verdade, nunca mais vieram juntas. Acabaram tudo, separaram-se. A do café sem açúcar foi a primeira a regressar, talvez um mês mais tarde, ou nem tanto. Vinha com uma namorada nova. Vinha feliz. E eu sorri-lhe com alegria por vê-la de novo e por vê-la feliz. É para isso que cá estamos, para tornar a vida das pessoas um bocadinho mais feliz.

Sei de casos mais feios, que nada têm que ver com amor, certamente. Certa noite, a meio de um jantar a dois bem regado, o homem pregou uma chapada na mulher e começou a insultá-la. Eu e os meus colegas tivemos de segurá-lo, agarrá-lo e pô-lo na rua. Preso por um braço, esperou que chegasse a polícia, que entretanto tínhamos chamado. A mulher, lá dentro, um pouco embriagada, fartou-se de chorar, e estava muito desorientada. Só me dizia “mas porquê, porque é que ele me faz isto, eu gosto tanto dele”. Não soube o que dizer-lhe. Lá fora, a polícia levou o homem para a esquadra - penso eu que para o acalmar, não creio que o tenham prendido. Quando o levaram, ainda conseguiu virar-se para trás e gritar para a mulher, “Amélia, não penses que isto fica assim!” Nunca mais soube deles.

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Entre as histórias mais bonitas, e também mais tristes, mas por outros motivos, lembro esta de um casal já muito velhinho que vinha ao restaurante desde sempre. Eram muito amáveis com todo o staff, tinham mesa preferida que tentávamos sempre manter livre, para o caso de eles entretanto chegarem. Até que um dia a senhora entrou sozinha pelo restaurante, amparada apenas na sua bengala. Percebemos de imediato o que se passava, mas fiz questão de perguntar pelo senhor Artur. “Lá partiu, o meu Artur”, respondeu a senhora.

A mesa deles estava livre, e a Dona Noémia dirigiu-se ao seu lugar de sempre, mesmo sem perguntar se podia. Efetivamente, podia, era a mesa dela, deles. Fez o seu pedido, comeu em silêncio, bebeu um copo de vinho, no fim veio a sobremesa, um doce da casa. Depois, ficou a contemplar, em silêncio. Momentos mais tarde, pediu a conta e enxugou as lágrimas, com discrição e dignidade. Deixou uma gorjeta de 100 euros, uma das maiores que alguém alguma vez deixou. Chamou-me, “Joaquim, gostaria que agradecesse a todos da equipa em meu nome e do meu Artur”. “Este sítio foi o nosso grande abrigo e vocês os nossos companheiros, mesmo sem saberem. Até sempre. Felicidades para todos.” Saiu devagarinho, e amparada na velha bengala. Para sempre.

O caso mais curioso de todos, no entanto, foi o de um casal que frequentou o restaurante até ao encerramento. Religiosamente, sem adiamentos nem atrasos, almoçavam juntos todas as segundas sextas-feiras de cada mês. Era um ritual muito interessante.

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Quando chegavam, cumprimentavam-se com uma certa reserva, uma certa distância, como se não fossem íntimos, embora claramente se conhecessem muito bem: davam dois beijos, mal se tocavam. Perguntavam “como estás” um ao outro.

As conversas entre eles eram sempre serenas, os tons de voz tranquilos. Com o avançar da refeição, iam-se soltando. Ele fazia-a rir e ela ria-se com gosto, com um brilho nos olhos. Por vezes, no fim do almoço, ele pegava-lhe na mão e ela deixava, como se estivessem a jogar algum jogo e aquela fosse uma pequena recompensa.

Demorei algum tempo até decifrar o enigma desse casal de meia-idade de muito boas maneiras. Ao fim de alguns meses, notei que ela usava aliança, mas ele não. Marido e mulher não seriam, portanto. Primeiro, pensei que fossem amantes, a viver uma relação proibida. Mas alguma coisa não batia certo. Eram pessoas que se amavam com doçura, em calmaria, sem contas por ajustar. Não, não podiam ser amantes.

Um pouco mais de observação atenta e algum pensamento fora de horas - um empregado de mesa também leva trabalho para casa: os clientes do dia que lhe ficam na cabeça - levaram-me a concluir que não se tratava de um casal, mas de um ex-casal. Eram ex-marido e ex-mulher que, uma vez por mês, se encontravam para manterem o contacto. É curioso como o afeto transbordava daquela mesa depois de apenas dois copos de vinho. O amor é assim, é preciso cuidar dele.

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