"Os homens estão a ficar um confiantes demais no que toca a quem é que manda na relação"
Atriz, criadora de conteúdos e coautora de um podcast onde quase nenhum tema fica à porta, Mia Fernandes fala sem filtros sobre amor, desejo, pornografia e liberdade.
Falar de sexualidade é falar da forma como nos relacionamos com o corpo, com o desejo, com os outros e connosco próprios. Para uma geração que cresceu entre ecrãs, redes sociais, exposição constante e novas linguagens de identidade e de afeto, essa conversa tornou-se mais aberta - mas não necessariamente mais simples. Atriz, criadora de conteúdos e uma das vozes de Más Influências, o podcast que apresenta ao lado de Bruna Magalhães e onde fala, sem grandes filtros, sobre tudo e mais alguma coisa, Mia Fernandes fez da espontaneidade uma forma de comunicar. Habituada a transformar experiências, inquietações, relações e episódios do quotidiano em conversas nas quais tantas outras pessoas se reconhecem, move-se entre a representação e o universo digital com uma presença tão frontal quanto vulnerável.
À conversa com a Máxima, traz o olhar de uma geração que procura novas formas de amar, desejar e existir, enquanto tenta distinguir a liberdade da exposição e a intimidade daquilo que se tornou conteúdo. Mia reflete sobre o amor nos dias de hoje, o impacto da pornografia, as expectativas que continuam a pesar sobre as mulheres e os sinais de um retrocesso que ameaça conquistas que julgávamos seguras. Um olhar jovem, inquieto e longe de ser ingénuo sobre um tema que continua a exigir mais espaço, mais escuta e muito menos silêncio.
És a representante da geração Z aqui e o que se diz, na verdade, é que têm muito pouco sexo ou menos sexo do que as outras gerações anteriores. Estás ativamente a tentar contrariar esta tendência?
Não, pelo contrário, eu acho que a intimidade é uma coisa muito pessoal e que cada pessoa está pronta quando está e faz o sexo que quer fazer. Acho que devíamos sim ter mais liberdade para não ser uma coisa tão tabu e também para ser um assunto que seja mais falado até por questões de segurança. Acho estranho a nossa geração ser a que tem menos relações íntimas, pelo que estão a dizer.
Também as pessoas têm mais inseguranças atualmente do que tinham antes. Porque antigamente não havia tantos exemplos como há hoje. Hoje é tudo perfeito. As pessoas são perfeitas na televisão, são perfeitas na pornografia, são perfeitas no Instagram, são perfeitas em todo o lado. Depois uma pessoa olha-se ao espelho [e pensa]: “Eu não sou suficiente”. Obviamente que és, obviamente que és suficiente. Só que estas coisas ficam na nossa cabeça porque é tudo tão perfeito, tão editado e tudo tão polido. Depois ficamos inseguros e não nos sentimos confortáveis em estar à frente de outra pessoa, em expor-nos à frente de outra pessoa.
Olhando para o tema da masculinidade tóxica, desse regresso ao conservadorismo, tu sentes esses tipos de comportamentos? Porque na geração mais nova, a violência no namoro, os comportamentos de controle através do telemóvel, etc., parecem estar a aumentar.
Cada vez mais observo isso. [Existem] mais relacionamentos tóxicos na minha geração.
Em que sentido?
Não necessariamente do masculino para o feminino, dos homens para as mulheres, mas acho que é uma geração em que nos relacionamentos - devido a tudo que nós temos acesso, por exemplo a partilha da localização e querer saber onde é que está a outra pessoa - acabamos por ficar obcecados: “onde é que está esta pessoa”, “o que é que ela está a fazer”. Depois, como há tanta opção e tanta variedade de pessoas por onde escolher, temos mais desconfiança uns com os outros.
Sinto sim que a toxicidade está a aumentar e também sinto que estamos a retroceder bastante e que os homens estão a ficar um bocadinho confiantes demais no que toca a quem é que manda na relação.
Mas é que parece que isto não está a mudar com as novas gerações, não é? Está a ficar na mesma ou a piorar?
Acho que está a mudar. Eu vejo muito mais em casais jovens amigos meus que já são casados - ou até que estão a viver juntos mas não são casados - há mais divisão de tarefas em casa. Porque há mulheres que realmente gostam de ser donas de casa e que fazem questões e dizem ao marido: “eu quero que isto seja o que eu quero fazer nesta relação”, “eu quero tomar conta da casa”, “eu quero cozinhar” e não há problema nenhum em fazer isso.
Só para dizer que obviamente que tem de haver uma divisão de tarefas, se for esse o caso na relação, mas há mulheres que têm mesmo prazer em fazer isso e acho que também não podemos julgá-las porque acho que é perfeitamente normal também.
Antigamente era comum muitas mulheres ficarem presas a casamentos muito insatisfatórias por causa do dinheiro. Acreditas que isso ainda acontece?
Hoje em dia, curiosamente, ainda acontece. Não só em relações de casados, mas em relações de namoro. Por exemplo, há muitas relações em que a mulher diz, “eu não sou uma pessoa muito sexual, não sou uma pessoa que quer ter relações íntimas tão ativamente quanto tu, portanto, olha, podes estar com quem quiseres, desde que não te apaixones”.
Sentem que o sexo passou a fazer uma parte muito importante do que é o amor e do que é o casamento?
Muito dividido honestamente. Há uma grande parte das pessoas atualmente que nunca imaginariam casar com uma pessoa antes de ir para a cama com ela, que é uma coisa que antigamente não acontecia. As pessoas casavam antes de ter relações. No entanto, também existem pessoas que estão tão desinteressados em sexo, que são capazes de namorar com uma pessoa e nem sequer ter ido para a cama com ela.
Ou seja, existe mais abertura para aceitar diferentes formas de viver o sexo, mas calhar menos abertura no ato sexual em si?
Mais liberdade não significa mais atividade. O facto de sermos mais livres não significa que sejamos tão abertos, por exemplo, no meu caso eu sinto que há muito mais liberdade para reconhecer que um homem cisgénero pode estar com uma mulher trans. As pessoas aceitam cada vez mais, no entanto, continuam a fazê-lo muito à escondidas, ou seja, há muito mais esta liberdade, mas não há tanta. Ainda há um certo julgamento.
Em relação ao sexo em si, falávamos há pouco do facto de a pornografia ter um impacto na forma como os jovens depois percecionam as relações sexuais na vida real, o que é que achas disso?
[A pornografia] fetichiza muito não só mulheres trans como mulheres cis. Depois as mulheres começam a ser uma categoria pornográfica em vez de serem uma mulher. São vistas como objetos. A pornografia objetifica imenso as mulheres e acho que é uma indústria, na minha opinião, terrível. Para mim, nem sequer devia existir.
Por isso é que há tanto medo da educação sexual, porque isso vai tornar-nos mais livres?
Acho que a educação sexual nas escolas precisa de ser, primeiramente, muito mais extensa, obviamente, e depois também precisa de abrangir não só pessoas normativas, como também pessoas da comunidade LGBTQIA+, porque o que se ensina muito é a proteção, o homem e a mulher, e acho que se devia abranger tudo.
O que é que eu mudava [em relação ao sexo] é o ser expectável ser uma coisa que acontece logo e ser uma coisa que é muito casual, muito descartável. As pessoas são descartáveis, ou seja, quando estamos a conhecer uma pessoa já temos a dúvida de “será que esta pessoa me quer conhecer ou se é que só quer ir para a cama comigo?”. Atualmente acontece muito isso, já não temos o romance que havia antigamente porque as pessoas agora só querem sexo ou não querem de todo. Para quem está à procura de romance numa relação às vezes é complicado. Há pessoas que não são assim. Eu não sou assim, demoro algum tempo a sentir-me confortável com a pessoa e só aí é que consigo ter relações sexuais com ela.
Créditos:
Fotografia: Ricardo Santos
Styling: Cláudia Barros
Maquilhagem: Alex Origuella
Cabelos: Madalena Costa para Griffehairstyle
Set Design: Joaquim Szkutnik da Rocha
Vídeo: GCI Media e Cris Andrade
Capa Digital: Sebastião Vences
Assistente de fotografia: Ricardo Gomes
Assistente de Styling: Tita Mendes
Lídia Franco, Mia Fernandes e Tânia Graça: no dia internacional do orgasmo, três gerações de mulheres conversam sobre sexualidade
Dos novos códigos do desejo ao impacto da pornografia, passando pelos tabus que persistem e pelas liberdades que julgávamos conquistadas, três formas distintas de pensar o sexo, o amor e a intimidade.
Marta Crawford: "Às vezes digo na brincadeira: se é para ser mau sexo, mais vale ir comer um gelado."
“Os homens focam-se na performance, sentem que têm de ser ótimos enquanto amantes e têm que dar prazer, e elas têm de ser sexy e sensuais” Marta Crawford, sexóloga, desmistifica as questões das “deusas” e “deuses” do amor.
A primeira vez, outra vez: o sexo após uma separação
Que medos, inseguranças e preconceitos podem surgir quando se volta a ter sexo após uma separação, um divórcio ou uma viuvez? A situação é mais difícil para as mulheres por estarem mais forçadas a ditames culturais sobre a juventude, a idade madura e o corpo.