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Histórias de Amor Moderno: “Uma coisa que a traição não faz é apagar o desejo. No meu caso, parecia tê-lo reacendido”

“Esses dez dias de um verão distante, parando em cada cidade ou aldeia, foram o pináculo não apenas do nosso romance, mas também da minha existência.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

A melodia do adeus (2010)
A melodia do adeus (2010) Foto: IMDB
04 de julho de 2026 às 10:00 Maria Olívia Sebastião Adicione como fonte preferencial no Google

Tínhamos um Fiat Punto azul escuro e uma tenda de campismo em forma de iglo na bagageira e, acredite-se ou não, éramos felizes com este tanto, que parecia pouco. O Luís escolheu três discos para levar para a viagem, todos dos Pixies: Doolittle, Surfer Rosa e Bossanova. “O Trompe le Monde está fora destas contas”, declarou com uma propriedade que só o seu conhecimento musical permitia.

A proposta do Luís era que fôssemos ouvindo os discos ao longo da viagem, ora um, ora outra, ora aqueloutro, e no fim, de regresso a casa, ditássemos um veredito, elegendo o melhor. Para o Luís, os Pixies eram o que para o melómano comum são os Beatles: “Uma banda maior do que o rock”, com uma discografia original “tão brilhante que é impossível escolher qual o melhor dos álbuns” (exceto, está visto, o Trompe le Monde).

O Luís nunca foi uma pessoa a direito, digamos. Não tenho melhor forma de o definir do que a seguinte: o tédio, com o Luís, tornava-se uma coisa interessante - ou, mais do que interessante, desafiante. Isto resultava da maneira tão apaixonada quando organizada e estudiosa como olhava para o mundo, para os objetos e para os eventos.

Uma banda não era só uma banda, tal como os seus discos não eram apenas discos. Isto valia para a música como valia para a gastronomia, ou para os vinhos, ou para os automóveis, para as sapatilhas, para os óculos de sol. Enfim, para tudo. Porque o Luís tinha para tudo uma tese, uma perspetiva, uma indagação por realizar.

Entrámos em Espanha por Badajoz. Não foi especialmente criativo da nossa parte. E talvez fosse de esperar do Luís uma rota mais ambiciosa e espetacular. “É o mais próximo que temos de uma linha reta, saindo de Lisboa em direção a Espanha.” A intenção era, segundo ele, atingir um posto de combustível o mais rapidamente possível, uma vez que o do lado espanhol a gasolina era muito mais barata. Como eu já disse, naquela cabeça havia sempre uma tese, uma justificação, uma lógica.

Recordo essa nossa viagem como o evento mais feliz da minha vida. Esses dez dias de um verão distante, parando em cada cidade ou aldeia, explorando praias e montanhas, comendo, bebendo e rindo, fazendo amor constantemente, foram o pináculo não apenas do nosso romance - que viria a ser muito mais curto do que eu desejava e esperava -, mas também da minha existência, até então muito acostumada a dias organizados e previsíveis e, de então para cá, submetida a regras que as circunstâncias acabaram por ditar. Abreviando, descobri que estava grávida no último dia do nosso maravilhoso e sinuoso percurso pelo Sul da Península Ibérica, quando a pele começava a dar de si pelo excesso de sol, e os corpos denotavam o cansaço natural de quem anda na estrada, de poiso em poiso, em constante improviso, dormindo em tendas ou até ao relento.

Entre os vários ingredientes que faziam com que eu e o Luís tenhamos vivido esta pequena, mas intensa aventura pela estrada fora, cheios de paixão e deslumbramento, estava obviamente o facto de nos termos conhecido recentemente. Tínhamos feito amor pela primeira vez seis semanas mais cedo. As coisas tornaram-se um pouco mais sérias três semanas antes de enfiarmos os sacos-cama na bagageira do Fiat Punto. A ideia do Luís era, como sempre, tão lógica como simples: “Vamos desfrutar do amor no seu pleno vigor, ao mesmo tempo que nos vamos conhecendo melhor, em situações em que só nos teremos um ao outro”. Era um plano perfeito, ao qual ele acrescentou os inesquecíveis discos dos Pixies.

Antes de começarmos a viagem, a minha única preocupação não chegava a ser preocupação - era como um receio leve a que não dei especial atenção, porque provavelmente não era nada: a minha menstruação estava atrasada uma semana. Eu sempre fui muito certinha, muito regulada, e por isso achei estranho. Por outro lado, as alterações que eu estava a viver e o facto de não tomar a pílula podiam facilmente justificar aquele atraso.

Entre essas mudanças, destacavam-se o fim de uma longa relação com o meu ex-namorado, o Raul, com quem tinha estado desde os tempos de liceu. Foram quase dez anos de namoro que acabaram não pela extinção da chama - embora não houvesse já muita chama para extinguir -, mas de forma abrupta, quando descobri que me traía (mas essa é uma outra história).

Os sentimentos provocados pela traição são devastadores. Insegurança, humilhação, incompreensão, ciúme, dúvida, raiva, tudo se mistura num turbilhão acelerado que nos deixa num caos por dentro. Mas uma coisa que a traição não faz é apagar o desejo. Pelo contrário, no meu caso, parecia tê-lo reacendido, como se eu precisasse de provar a mim mesma, ao mundo e ao Raul que, se ele me traiu, não foi por falta minha, mas por exclusiva culpa dele.

Eu e o Raul não nos vimos durante, sei lá, talvez dois meses depois de acabarmos tudo. No dia em que me apareceu à porta, a dizer que “gostava de falar, de se explicar”, já eu tinha conhecido o Luís e já existia entre nós alguma coisa. Segura de mim, aceitei conversar, mandei-o entrar. E esse foi o meu erro. Conversámos, sim, explicou o que pôde, ficaram por explicar nuances, recortes e decisões, mas pouco disso importava. “Andas a ver alguém?”, perguntou-me, a certo ponto. E eu disse-lhe que sim, com um gozo especial por saber que o ia magoar. “E não sentes nem um bocadinho de saudades minhas? Como é que os sentimentos se apagam todos e desaparecem assim, de repente?”

As perguntas eram retóricas, mas tinham respostas concretas. Sim, sentia umas estranhas e perversas saudades da pessoa que mais me magoara na vida. E não, os sentimentos não se apagam assim. Estavam enterrados, sim, atirei-lhes para cima umas pás de terra sentimental, mas ficaram junto à superfície. Tinha acrescentado sentimentos por outra pessoa, claro, mas esses não aniquilaram os outros. Só uma pessoa que nunca passou pelo amor pode achar que um coração é órgão para pulsar por um só amor.

Nesse fim de tarde, eu e o Raul fizemos amor. Foi como matar saudades e foi também como uma despedida concreta. Foi o ponto final definitivo que tinha ficado por pôr no fim da nossa história, acabando com as reticências e as interrogações que, até então, pairavam sobre a minha cabeça: agora, sim, tinha sido a nossa última vez. Na altura, nem sequer senti propriamente que estivesse a trair o Luís.

Na minha cabeça, aquele era uma espécie de assunto privado meu, que só a mim e ao Raul dizia respeito e que só a nós cabia resolver. O Luís, por quem, sim, estava apaixonada, era assunto que teria de aguardar pela resolução prévia deste para que pudesse, então sim, materializar-se, concretizar-se e, acima de tudo, acontecer com abertura e livre de quaisquer ónus.

Não me passava pela cabeça, enquanto visitávamos a Alhambra, em Granada, que dentro de mim germinasse uma semente. Mas a verdade é que me senti muito mal, muito nauseada, um pouco desorientada, fraca. Atribuímos a culpa ao óbvio calor e nem por um segundo hesitámos em fazê-lo, “bolas, que calorão, uma pessoa até arfa só de dar dez passos a direito”. Na minha mente, lá ao fundo, num cantinho apertado e escuro, acendeu-se uma pergunta inconveniente, que não aceitei nem assumi: “E se?”

As náuseas e enjoos repetiram-se durante os dias restantes da viagem. Não eram permanentes, nem sequer constantes, mas foram frequentes. O calor, com as suas costas largas, arcou com a parte mais substancial das culpas, que partilhou pontualmente com os excessos das cervejas da véspera ou com as puntillitas demasiado fritas de um almoço inesperado num qualquer chiringuito de praia, entre o sol, a sombra e o areal.

O “e se?”, entretanto, ia ganhando substância e força. O tamanho ia aumentando. A presença ia-se impondo. Já tinha peso e relevância. Quando parámos em Sevilha para a nossa última pernoita antes de regressarmos, quando o Luís decidiu descansar um pouco no pequeno quarto da pensão de quinta categoria, eu disse-lhe que ia dar uma volta. E fui. E parei numa farmácia, pedi um teste. Depois, entrei numa taberna, pedi qualquer coisa apenas para justificar o uso da casa de banho e fui lá dentro. Deu positivo. E agora?

“Estás muito calada”, disse-me o Luís enquanto jantávamos. Foi a nossa refeição mais requintada, paga com os vapores do orçamento que cada um tinha levado - mas que era o último dinheiro de que precisávamos, pelo que podíamos esbanjá-lo. E então esbanjámo-lo. Ele só estranhou que eu não tivesse tocado nas ostras que pedira para entrada porque sabia que eu adorava, eu própria lho tinha dito. Respondi que o calor e o cansaço me tiraram o apetite, não me apetecia, preferia aplicar a pouca fome no prato principal.

Eu não sabia se o pai era o Luís ou o Raul. Era provável que fosse o Luís, claro, mas não era impossível que fosse o outro. E, nesta situação, não me restava alternativa senão ser honesta com o Luís, contar-lhe, primeiro, que estava grávida e, depois, revelar a minha incerteza ao mesmo tempo que confessava o meu deslize, a minha fraqueza. “Compreendo caso queiras acabar tudo”, disse-lhe eu, muito forte e magnânima. “Ainda bem que compreendes.” Foi tudo o que me disse. Foi a última coisa que me disse.

E é por isso que esta nossa viagem é a minha memória mais bela e carinhosa. Porque é também o fim do maior amor da minha vida, que, apesar de breve, foi o que mais me marcou, sem dúvida. Quanto ao meu filho João, cresceu e tornou-se bonito, tal qual o pai. (Nunca chegámos a escolher o disco dos Pixies, mas o preferido do João é o Doolittle.)

 

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