Que nos estamos todos a afogar em tralha, não é segredo para ninguém. Roupa, papelada, fios e aparelhómetros elétricos que ninguém sabe se funcionam, tupperwares que nunca são usados, sacos reutilizáveis, produtos de beleza meio vazios que ninguém termina, pequenas porcariazinhas que vamos juntando sem qualquer propósito. Por que razão não vai tudo para o lixo? Porque custou dinheiro. Porque é um desperdício. Porque um dia pode fazer falta. E é melhor nem pensarmos no valor sentimental. Sabem aquela pergunta sobre o que diríamos ao nosso eu mais novo, se pudéssemos andar para trás no tempo? Posta perante essa oportunidade, esta jornalista diria: “Não juntes tralha, deita tudo fora, a tralha é o inferno na Terra”. Exagero? Nem por isso. A verdade é que, a determinada altura, não somos nós que somos donas das coisas – as coisas é que são donas de nós. Do nosso tempo, da nossa paciência, do nosso espaço físico e mental. Quantas vezes nos sentimos derrotadas e assoberbadas só por abrirmos uma gaveta ou um armário? Quantas vezes deixamos de ler um livro ou de dar um passeio porque temos coisas para arrumar, limpar, dobrar, guardar…?
Aqui há uns anos, a solução para o nosso mal primeiro-mundista chegou pelas mãos de uma japonesa muito querida e sorridente, chamada Marie Kondo, e que já saiu do ventre da mãe com ânsias organizativas. Diz quem viu que o tabuleiro dos instrumentos cirúrgicos nunca esteve tão arrumado como no dia em que ela veio ao mundo. O método de Kondo consistia, na prática, em duas etapas: juntar numa grande pilha aquilo de que estamos a tentar livrar-nos – roupa, imaginemos – mesmo para vermos com olhos de ver a enormidade da nossa desgraça, e depois pegar num lança-chamas e, perdão, e depois pegar nas peças uma a uma e perguntar se suscitam alegria – “Does this spark joy?”.
Tudo muito poético e bucólico, perfeito para coisas com as quais criamos ligações emocionais. Mas quem é que sente alegria ao pegar num conjunto de talheres, ou numa extensão eléctrica, ou num tapete de casa de banho? Ora, sucede que nos últimos anos a perspetiva de Marie Kondo também mudou. Porquê? Porque teve filhos e, presumivelmente, viu a sua casa inundada de coisas funcionais, mas que não geram alegria: babetes, rocas, aquelas coisas de borracha que os bebés roem quando os dentes estão para nascer. Que fez ela? Sentou-se e pensou em perguntas melhores e mais realistas.
Agora, de acordo com Kondo, em vez de “será que alguma vez vou usar isto?” ou “será que isto traz alegria à minha vida?” devemos fazer estas cinco perguntas:
1. Este objeto está em consonância com a minha vida de sonho e com a forma como quero viver agora?
2. Este item facilita a minha vida ou está a pedir-me que faça alguma coisa?
3. Estou a guardar isto para a minha vida atual ou para uma versão passada de mim própria?
4. Se este objeto desaparecesse amanhã eu saía do meu caminho para o substituir?
5. Esta coisa faz a minha casa parecer mais calma ou mais confusa?
De facto, a vida já é caótica quanto baste para estarmos a convidar o caos também para dentro de portas. E é suposto que as coisas que temos em casa sirvam para nos ajudar a viver de forma mais tranquila, mais simples e com mais ligeireza. Não é um pavor passar 15 minutos à procura da camisola que queremos vestir e que está soterrada debaixo de outras 20 que não usamos há anos? Ou fazer um esforço hercúleo para arrancar um casaco comprido de um armário onde a roupa está tão comprimida que ameaça explodir a qualquer momento? Ou ter peças de decoração que adoramos, mas que não brilham nada no meio da confusão de contas para pagar, chaves, canetas, cadernos de notas que, não tendo sítio para estar, estão em todo o lado?
Sabem aquele adágio muito britânico: “Um sítio para cada coisa e cada coisa no seu sítio”? Quando era criança e adolescente, parecia-me análogo a uma vida de miséria e renúncia. Agora, parece-me o paraíso. O único problema é que desconfio que, tal como com o paraíso bíblico, só lá chegarei depois de morta. A Marie Kondo é a salvadora dos tempos modernos? Talvez.