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Celebridades

Inês Pires Tavares: “Não é preciso teres um corpo impecável para conseguires ter sucesso”

Atriz e cantora, Inês constrói o seu percurso a partir da consciência e da presença. Entre palco e câmara, questiona estruturas, ocupa espaço e traz para o centro da criação um olhar feminino que não suaviza nem pede desculpa - observa, decide e transforma.

Inês Pires Tavares fala sobre sucesso e representatividade feminina.
Inês Pires Tavares fala sobre sucesso e representatividade feminina. Foto: Mariana Lokelani
04 de fevereiro de 2026 às 17:17 Inês Pires Tavares

Sempre achei que, enquanto artista, a curiosidade não é um extra, é uma necessidade. E não falo apenas de atores. Acho mesmo que qualquer pessoa que trabalhe em arte tem de estar constantemente à procura de novas perguntas, novas referências, novas formas de ver o mundo. Eu sinto-me muito nesse lugar: o de quem está a começar, mas já trabalha há algum tempo; o de quem observa muito, questiona muito, mas ainda sente que não tem todas as ferramentas para discutir certos temas com a profundidade que gostaria.

Tenho consciência de que a minha visão é simples, talvez até pequena em alguns aspetos. Mas é honesta. E, a partir dela, há coisas que para mim são claras: a desigualdade de género continua a existir. No teatro, no cinema, em qualquer área. A objetificação da mulher, a forma como o corpo feminino é constantemente sexualizado, ainda faz parte do sistema.

Não sei, honestamente, qual é a solução para isto. Porque, no fim do dia, há produtos e mercados que continuam a funcionar exatamente por causa dessa lógica. E o problema não está só nas produções ou nos argumentos, mas também no público, naquilo que escolhemos consumir, no que preferimos ver. Talvez tudo passe por educação. Por reformular o olhar. Mas sei que essa é uma missão difícil, não apenas neste tema, mas em muitos outros.


Acredito, no entanto, que a arte é um dos maiores veículos de transformação que temos. E que o teatro, em particular, nos ensina a pensar, a questionar, a sentir. Devíamos incentivar muito mais as pessoas a irem ao teatro.

Eu própria não cresci num ambiente particularmente cultural. Não vinha de uma família que discutisse política à mesa ou que tivesse o hábito de ir regularmente ao teatro ou ao cinema. Se não fosse a música, a minha primeira paixão, que depois me levou ao teatro, talvez nunca tivesse seguido este caminho. Fui um bocadinho a ovelha negra da família. E sei que esta falta de estímulo artístico é muito comum em muitas casas.

Foi já na escola de teatro que este lado curioso começou realmente a ganhar forma. Não só pelas aulas práticas, mas também pelos trabalhos teóricos, pela necessidade de pesquisar, de ver, de ler. E depois houve um projeto muito marcante para mim: LisboaWood, uma ópera rock no Teatro Meridional, encenada pelo João Cachola. É um espetáculo que guardo com muito carinho. É também aí que encontro pessoas que ainda hoje são os meus grandes amigos. Pessoas que me ensinaram muito e que despertaram em mim esse bichinho de querer saber sempre mais. Mesmo sabendo que quanto mais sabemos, mais sofremos.

Look total, Béhen. Foto: Mariana Lokelani

Sou muito mais ouvinte do que faladora. Não me sinto sempre à vontade para participar ativamente em discussões sobre temas complexos, especialmente num mundo com tantas causas e tantas urgências. Mas adoro ouvir, estar presente, absorver. Depois vou para casa e faço o meu próprio caminho. Foi assim que aprendi que não há apenas preto e branco, que tudo é muito mais complexo do que parece.

Quando escolho um trabalho, sempre que tenho esse privilégio, penso muito nas personagens. No que posso trazer de diferente. Durante muito tempo questionei-me sobre qual seria o método certo para ser atriz. Hoje percebo que não há um método universal. Cada pessoa constrói o seu. E eu ainda estou a descobrir o meu. Sei apenas que, para mim, não funciona despir-me completamente de quem sou. Em todas as personagens que fiz até hoje, há sempre alguma coisa minha, mesmo que invisível para o público. Isso ajuda-me a construir tudo o resto.

Claro que há projetos com linguagens muito específicas, onde não podemos fugir a determinados códigos, incluindo a sexualização da mulher. Nessas situações, faço o que posso dentro das regras do jogo. Penso muitas vezes que, quando fizer o meu próprio projeto, fá-lo-ei à minha maneira. Até lá, tento sempre encontrar espaço para a minha identidade.

Nunca senti que quisesse estar à frente de um projeto, escrever ou encenar. Pelo menos para já. Gosto de observar realizadores e encenadores, perceber como pensam, mas não sei se tenho esse perfil. O que eu gosto mesmo é de receber os papéis e fazer as viagens.


Em relação à moda, sou muito honesta: não percebo nada. Confio muito nas pessoas com quem trabalho, como o Sérgio Onze, que tem um olhar incrível e sabe vestir-te respeitando quem tu és. Para mim, o mais importante é sentir-me confortável e reconhecer-me naquilo que estou a vestir, mesmo sabendo que um look nunca define totalmente quem somos.

A imagem tem peso, claro. É a cara do meu trabalho. Preciso dela para trabalhar e tenho de cuidar dela. Mas isso não significa que não possa sair à rua de fato de treino. Com as redes sociais, é muito fácil sentires que não estás à altura, mas tento não me perder nisso.

Vejo mudanças positivas na indústria. Vejo mais diversidade, mais caras diferentes, mais histórias a serem contadas. Ainda há muito caminho a fazer, especialmente para as mulheres, mas quero acreditar que estamos no bom sentido. Projetos com equipas criativas femininas fazem diferença. Nota-se. Não por serem melhores ou piores, mas porque trazem outra sensibilidade, outro olhar. Nunca tive experiências diretamente negativas por ser mulher, mas aprendi muito a observar colegas mais experientes. A perceber até onde vão, o que aceitam, o que recusam. É aí que se aprende.

A competição existe, inevitavelmente. O mercado é pequeno, há muita gente talentosa, e a rejeição faz parte. A comparação é uma armadilha em que caio muitas vezes. Mas tenho aprendido que não ficar com um papel não me tira valor. Simplesmente não era para mim. O que for meu, chega. Às vezes demora, mas chega.

No fundo, é isso: continuar curiosa, continuar a aprender, continuar a questionar. É isso que me mantém em movimento.

Look total, Béhen. Foto: Mariana Lokelani
Vestido, Béhen. Joias, Portugal Jewels. Foto: Mariana Lokelani

Styling: Sérgio Onze

Maquilhagem: Daniela Inácio

Fotografia: Mariana Lokelani

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