"O modo como estamos a criar os rapazes parece estar a gerar homens solitários", escrevia em novembro do ano passado a jornalista Helen Coffey num artigo publicado pelo jornal britânico The independent. A solidão no masculino tem vindo a aumentar nos últimos anos. De mãos dadas com este fenómeno proliferam ideias sobre uma masculinidade performativa que tinha vindo, a muito custo, a ser desmontada pelas gerações mais jovens. Ideias de que os homens não choram, não são lamechas, não partilham as suas emoções.
Que não se confunda este tema com os grupos de incels ou o com masculinismo promovido pelos Andrew Tates deste mundo. Trata-se, isso sim, de uma epidemia silenciosa que, ao que que tudo indica, está a afetar homens comuns. Em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a solidão como "uma ameaça global para a saúde". Mas foi Vivek Murthy, o mais alto responsável médico dos Estados Unidos, quem lhe chamou de "epidemia" num relatório que assinou em 2023, onde realçava que a solidão "é tão prejudicial para a saúde como fumar uma dúzia de cigarros por dia".
Os homens já não têm amigos?
Um estudo do Survey Center on American Life, citado pelo jornal universitário The Western Howl, da Universidade de Oregon, revelou que 15% dos homens dizem não ter amigos próximos, um aumento de 12% desde 1990. Um relatório da Equimundo em 2023 reforçou esta ideia: dois terços dos homens entre os 18 e os 23 anos dizem que “ninguém os conhece verdadeiramente”.
A questão não se limita à amizade, mas parece afetar também a vida romântica. Seis em cada dez homens com menos de 30 anos estão solteiros, quase o dobro das mulheres da mesma faixa etária, de acordo com um inquérito de 2022 do Pew Research Center, citado pelo mesmo jornal universitário. E a ausência de laços profundos, mesmo dentro da família, está diretamente ligada ao sofrimento psicológico. Segundo o mesmo estudo da Equimundo, 44% dos homens inquiridos relataram ter tido ideação suicida nas duas semanas anteriores à entrevista.
"Quando me tornei pai a tempo inteiro, percebi que o mais difícil não era a logística. Era a solidão. Não havia ninguém com quem pudesse conversar profundamente”, escreveu o jornalista Shannon Carpenter na CNN, num artigo que explora o modo como a "solidão masculina" está a afetar os homens que são pais.
A manosfera e a repressão das emoções
Desde cedo, muitos rapazes aprendem a conter as emoções e a esconder a vulnerabilidade. Isto, em boa verdade, não é novidade. Os rapazes aprendem pela primeira vez que devem reprimir as suas emoções quando entram para a escola primária, acredita a investigadora Judy Chu, autora do livro When Boys Become Boys. É nessa fase formadora que se confrontam pela primeira vez com a ideia de que mostrar os seus sentimentos pode ser interpretado como fraqueza. As consequências deste embate acompanham-nos pela vida fora, dificultando a construção de relações autênticas.
Já no jornal Los Angeles Times, a jornalista Jean Guerrero escreve que, mesmo em ambientes progressistas, os homens sentem que as suas fragilidades emocionais tendem a ser ignoradas ou ridicularizadas. Esta rejeição do sofrimento masculino pode levar jovens a procurar refúgio em comunidades tóxicas online, onde figuras como Andrew Tate lhes podem oferecer uma validação ilusória.
Richard Reeves, autor do livro Of Boys and Men, argumenta que a ausência de empatia para com os problemas dos homens contribui para que muitos se sintam excluídos: “Faltam mãos estendidas e há dedos a apontar a mais”, disse em entrevista ao Los Angeles Times.
As mulheres estão fartas de carregar o fardo emocional dos homens
O fardo da solidão masculina não é carregado apenas pelos próprios homens. Muitas mulheres acabam por assumir o papel de apoio emocional exclusivo dos seus companheiros, fenómeno que tem sido apelidado de “mankeeping” — uma espécie de trabalho invisível onde, nas relações heterossexuais, as mulheres funcionam como cuidadoras dos seus maridos e namorados.
“O desequilíbrio é tal que muitas mulheres preferem não estar numa relação a suportar sozinhas o peso emocional dos parceiros”, refere Caroline Hayes, da organização Equimundo, citada pelo jornal britânico The Independent.
Shannon Carpenter destaca que este problema é particularmente visível na paternidade. “Recebo mensagens de pais casados, com filhos pequenos, que me dizem não ter ninguém com quem falar”, revelou à CNN. Para muitos dos que o procuram, o problema não tem como base uma crise conjugal, mas uma ausência real de amizade e de espaço para a partilha.
A solidão masculina é um problema sustentado por relatos pessoais e dados recolhidos por estudos científicos. Está na origem de depressões, ideações suicidas, relações amorosas desequilibradas e de uma sensação generalizada de desconexão de alguns homens com o mundo exterior e a sociedade em geral. Repensar a forma como se educam os rapazes, como se fala com os homens e como se validam as emoções masculinas, não se vai traduzir apenas num mundo melhor para eles. Vai também libertar as mulheres do fardo que carregam como principais responsáveis pela regulação emocional dos seus companheiros, podendo, em última instância, contribuir para uma sociedade mais saudável, com papéis de género mais equilibrados. Porque, como refere Helen Coffey, ajudar os homens a criar laços é também uma das melhores formas de ajudar as mulheres.