Call Me: quatro miúdos cantam os problemas de uma geração que ninguém atende
Nascidos numa garagem em Oeiras, cresceram entre o punk, o pop e a sobrecarga cultural da Geração Z. Depois de vencerem o Oeiras Band Sessions, chegam ao palco do NOS Alive com canções sobre rendas altas e violência doméstica e a inquietação de quem está a tentar transformar frustração em voz.
Call Me atuam hoje no NOS Alive
Foto: Valerio Barbarossa10 de julho de 2026 às 15:24 Safiya Ayoob
Há qualquer coisa de muito contemporâneo numa banda que se descreve através de uma comparação improvável e, pouco tempo depois, decide desfazê-la. Hannah Montana encontra os Idles, mas com menos pressa, disseram os Call Me numa das primeiras entrevistas. A frase era suficientemente estranha para permanecer na memória: um encontro entre o brilho coreografado do Disney Channel e a tensão física do pós-punk britânico.
Agora, perante a possibilidade de a explicarem, admitem à Máxima que talvez nunca tenha sido uma definição musical particularmente rigorosa. “Acho que acabou por ser uma piada interna, porque, se forem ouvir as nossas músicas - ou as novas que estão por sair -, não têm nada de Hannah Montana”, esclarece a banda. A referência dizia menos sobre aquilo que tocavam e mais sobre quem eram fora das canções. “Tem mais a ver com as personalidades de cada um, especialmente com a da nossa vocalista, que tem um gosto musical mais pop do que os outros membros.”
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Os Call Me - também apresentados como Call Me Again Tomorrow - começaram na garagem do baixista André Nabais, em Oeiras. André e o guitarrista Francisco Alegrio conheciam-se desde o infantário, reencontraram-se no secundário e começaram a aprender a tocar durante o confinamento. Mais tarde, o baterista e produtor Vicente Ribeiro juntou-se ao projeto. A formação atual consolidou-se com a chegada de Ava, vocalista com um percurso e uma sensibilidade mais próximos da pop.
Não existe, portanto, Hannah Montana nas canções. Existe, talvez, na liberdade com que a banda aceita referências aparentemente incompatíveis - e na recusa em tratar os géneros musicais como territórios fechados.
Os Call Me procuram sempre um centro moral para as suas canções
Foto: Valerio Barbarossa
Os quatro cresceram numa época em que as referências já não chegam por uma única via. A rádio, os discos dos pais ou uma cena musical local deixaram de ser os únicos mapas possíveis. Uma canção pop pode surgir imediatamente antes de uma banda de punk numa playlist; um refrão antigo pode regressar através de um vídeo de poucos segundos; uma estética pode ser apropriada, desmontada e substituída antes de conseguir fixar-se.
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É uma forma de consumo cultural fragmentada e permeável. Para os Call Me, essa exposição constante acaba inevitavelmente por entrar na música. “Por estarmos sempre expostos a música tão contrastante, acabamos por ser influenciados por muitos géneros diferentes”, explicam. “Isso reflete-se na música que estamos a fazer ultimamente.”
Talvez seja aí que a banda revele a sua condição geracional: não numa sonoridade que possa ser classificada como “Geração Z”, mas na naturalidade com que aproxima universos que outras gerações aprenderam a manter separados. O pop da vocalista não precisa de disputar espaço com o punk dos restantes elementos. Pode contaminá-lo, aligeirá-lo ou torná-lo mais desconfortável.
A própria chegada de Ava foi descrita pelo grupo como a introdução de uma certa “leveza” no punk rock. Antes de atuarem juntos pela primeira vez, passaram cerca de seis meses concentrados sobretudo na produção e preparação das canções. O primeiro concerto da nova formação acabaria por acontecer num contexto improvável: a final do Oeiras Band Sessions, nos Nirvana Studios. Não era exatamente um palco discreto para testar uma formação recente.
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A mistura de referências não impede os Call Me de procurarem um centro moral para as suas canções. As letras abordam política, violência doméstica e dependência das tecnologias - temas que facilmente poderiam transformar-se num exercício vago de consciência social. A banda tenta começar noutro lugar: naquilo que a afeta diretamente. “Nós começamos muito pelos temas que mais nos tocam, como banda e como indivíduos”, dizem-nos. “Uma coisa positiva é termos valores bastante parecidos, o que torna mais fácil escolher os tópicos que queremos abordar.”
Não existe uma fórmula para decidir o que se transforma numa canção. Há, antes, um conjunto de desconfortos partilhados: aquilo que os frustra, aquilo que lhes acontece ou que atravessa a vida de alguém próximo. A intenção é pessoal, mas não exclusivamente autobiográfica. “No final do dia, queremos muito dar voz a quem não a tem e falar de coisas importantes.”
A frase poderia soar demasiado ampla se a banda não parecesse consciente da responsabilidade envolvida. Há uma diferença entre usar um tema sério como cenário e construir uma canção capaz de respeitar o peso desse tema. Os Call Me dizem que a abordagem muda consoante a matéria que têm entre mãos. “As temáticas das nossas novas músicas têm um peso grande e são bastante sensíveis. Temos de encontrar a melhor maneira de falar sobre cada uma.”
Numa das canções, dedicada à violência doméstica, decidiram não narrar um episódio ou uma história concreta. Procuraram antes criar algo mais abrangente, no qual diferentes pessoas pudessem reconhecer sinais, sentimentos ou experiências. “Não contamos nenhuma história específica. Falamos da situação de uma forma mais geral, para que as pessoas se possam identificar e perceber a sua gravidade.”
Noutras músicas, a contenção dá lugar ao confronto. Ao escreverem sobre a dependência dos telemóveis e das tecnologias, adotaram a perspetiva de alguém que se sente atacado quando é chamado à atenção. A música torna-se, nas palavras da banda, um “grito de frustração”.
Essa distinção é importante. Os Call Me não querem que todas as canções sociais tenham o mesmo tom nem que cada assunto produza automaticamente um manifesto. Algumas pedem distância; outras, uma história; outras ainda precisam apenas de ruído suficiente para tornar audível um incómodo.
André e Francisco inscreveram a banda no Oeiras Band Sessions sem avisarem os restantes membros. Já tentavam entrar na competição há vários anos e não estavam propriamente à espera de serem selecionados entre dezenas de candidatos. Na final, apresentaram cinco canções durante uma atuação de cerca de 20 minutos - o primeiro concerto da formação com Ava. Antes de entrarem em palco, os nervos levaram-nos a adotar um ritual pouco sofisticado: deram uma chapada uns aos outros. Depois, venceram tanto a votação do público como a decisão do júri.
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A 17.ª edição do Oeiras Band Sessions decorreu nos Nirvana Studios e garantiu aos vencedores a oportunidade de atuar no NOS Alive, além de outras condições de apoio ao desenvolvimento do projeto. A Câmara Municipal de Oeiras identificou oficialmente a banda vencedora como Call Me Again Tomorrow.
De repente, uma banda que ainda estava a descobrir a sua química em palco viu-se projetada para uma dimensão inteiramente diferente. Os Call Me foram confirmados no palco Heineken do NOS Alive, a 10 de julho de 2026, às 16h30 - no mesmo dia de artistas como Foo Fighters, Wolf Alice, The War on Drugs, Jehnny Beth e Palaye Royale.
Parece o tipo de história que costuma ser resumido com expressões como “sonho tornado realidade” ou “ascensão meteórica”. Mas a banda apresenta uma leitura menos triunfalista. O entusiasmo existe; o medo também. “Há mais possibilidade de cairmos mais rápido”
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É uma admissão lúcida para uma banda no início. Em vez de tratarem a oportunidade como confirmação de uma chegada definitiva, reconhecem a sua precariedade. Um grande palco pode funcionar como rampa de lançamento, mas não substitui uma carreira, um repertório ou uma comunidade construída ao longo do tempo. Querem, dizem, “que o público nos encontre e sinta que tem uma voz maior”.
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