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Fim da cultura dos copos? A Gen Z pode estar a mudar tudo

Apesar das críticas frequentes a que a geração Z é sujeita todos os dias, os jovens nascidos entre 1997 e 2012 estão a beber significativamente menos do que as gerações anteriores: mas o que significa esta mudança?

Os jovens de hoje bebem menos que as gerações anteriores, mas há uma explicação para isso
Os jovens de hoje bebem menos que as gerações anteriores, mas há uma explicação para isso Foto: getty images
17 de junho de 2026 às 10:00 Rita Pinto da Silva / com Patrícia Domingues Adicione como fonte preferencial no Google

Uma coisa é certa, são peritos em criar hábitos e. Tudo aquilo em que tocam vira moda e parece ser automaticamente aceite pela sociedade, podem nem sempre ter as prioridades alinhadas, mas desta vez acertaram em cheio: beber já não é cool.

Em declaração à Time, George F. Koob, professor e ex-presidente do Comitê de Neurobiologia de Transtornos de Adição do Instituto de Pesquisa Scripps, e segundo estudos do National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism, refere que “está a tornar-se evidente que, por quaisquer que sejam as razões, as gerações mais jovens de hoje estão simplesmente menos interessadas em álcool e são mais propensas, do que as gerações mais velhas, a considerá-lo um risco para a saúde (...)”.

Temos assistido ao aparecimento crescente de convívios, festas e até raves, (e não, não é um after, tem mesmo que acordar às oito horas da manhã e ir), onde só existe uma proibição: o álcool. Nesse mesmo artigo, Sybil Marsh, médica especialista em medicina familiar e dependência química, acrescenta que “houve uma altura em que beber álcool era um sinal de maturidade e sofisticação. Mas hoje em dia, é apenas uma entre tantas outras formas que as pessoas têm para relaxar ou demonstrar essa mesma sofisticação”.

O consumo de álcool é muitas vezes visto como um comportamento social e a mudança nos padrões de socialização das novas gerações pode estar a contribuir para a diminuição do seu consumo. Como explica Koob, “o álcool tende a ser uma droga social, mesmo para os jovens, pelo que parte do declínio do seu consumo por menores poderá estar relacionada com a redução das interações sociais presenciais”.

Para este fenómeno, os culpados são lógicos: a tecnologia e a pandemia. Claro que as interações sociais eram muito mais frequentes, e até mais humanas, antes de termos o mundo na ponta dos nossos dedos (afinal, se queriamos falar com alguém tinhamos que, efetivamente, estar com a pessoa). As conversas eram em cafés (ou bares) e normalmente acompanhadas de algo para comer (e beber). Séries como O Sexo e a Cidade e Foi Assim que Aconteceu, representam muito bem o tipo de convivência que existia nos anos 1990 e até no início dos anos 2000. Era real, caótico e humano.

Depois de dois anos de muito pouca interação social e de conversas por ecrãs, tivemos que reaprender a socializar. Mas, a verdade é que nunca voltámos ao que éramos antes da pandemia. O regresso à normalidade foi desgastante, a ansiedade social e a pouca vontade de nos voltarmos a conectar fez-se sentir nos anos seguintes.

Claro que não é preciso beber para ter uma noite divertida, mas a verdade é que ajuda. A Roe Magazine descreveu na perfeição aquilo que muitos pensam sobre o álcool: “Não é propriamente a razão pela qual algo acontece, mas muitas vezes é a razão pela qual é possível acontecer”. A confiança e a necessidade de se encaixarem são dois dos fatores mais referidos pelos jovens, quando questionados sobre o porquê de beberem. Os testemunhos mostram um padrão e um culpado: a vida social.

Mariana Costa, em entrevista à Máxima, explica que, “depois de anos de festas e jantares, percebi que o meu corpo não suportava o álcool. Desisti, já estava cansada, exausta. Percebi que o meu bem-estar era mais valioso do que aquilo que as pessoas pensavam sobre mim”. Para além disso, confessa que “no início não foi fácil, por mais ridículo que pareça, a grande preocupação durante uma noite de copos era o que fazer com as mãos: mexia no cabelo, apertava o casaco, punha as mãos nos bolsos, voltava a mexer no cabelo. Sentia-me uma pessoa awkward que não sabia conviver com pessoas”.

Mas as novas gerações não têm medo do FOMO (fear of missing out)  que podem sentir por não beberem, aliás, aprenderam a dominá-lo como ninguém. De acordo com a Teen Vogue, existem três novos espectros, segundo a Gen Z, no mundo da abstinência: o sober curious, que incentiva a experimentar um estilo de vida em que se bebe menos ou não se bebe de todo; o mindful drinking, que consiste em tornar a relação com o álcool mais consciente e intencional; e a sobriedade, claro, que dispensa apresentações.

Mesmo dentro da mesma geração, podemos encontrar diferenças. Pessoas nascidas entre 1997 e 2000, não veem o álcool da mesma forma do que quem nasceu de 2002 para a frente. Com a entrada, ou a proximidade, dos tão assustadores trintas, o padrão de comportamento é ligeiramente diferente. O objetivo quando saem deixou de ser o consumo de álcool e passa a ser a festa em si.  São vistas quase como eventos sociais, de conexão e algum networking. Mais uma vez a Roe Magazine, descreve o conceito na perfeição: “As pessoas vão às festas para se deixarem levar. Aquela deliciosa desinibição que dissolve o ego e permite que nos expressemos sem pensar. As festas sempre tiveram a ver com proximidade, barulho, atrito e contacto físico." Continuam, "um encontro imprevisível, ou talvez previsível. Trata-se de nos deixarmos levar numa pista de dança cheia de calor, de beijarmos aquela pessoa que esperávamos encontrar. Uma decisão consciente de alargar os nossos horizontes em termos de corpos e ideias. Não é preciso nenhum estimulante quando a música é tão boa que parece que estás em diálogo direto com o divino. A frequência começa a elevar-se. É um ritual espiritual para muita gente.

Para eles, que nasceram no início da Gen Z,  a premissa de go hard or go home podia ser normal quando tinham 18 anos, mas foram capazes de encontrar um equilíbrio entre aquilo que foram e aquilo que querem ser, sem perder a identidade e assente naquilo que realmente lhes traz prazer. A idade trouxe alguma maturidade e discernimento, mas o olhar sobre o consumo de álcool não é tão negativo como os que nasceram no final desta geração.

Acima de tudo, quem tem que entender o que se passa nos comportamentos e padrões de uma sociedade que se reinventa todos os dias são as marcas, principalmente aquelas que querem vender aquilo que já ninguém quer comprar. A diferença entre o comportamento da geração X e da geração Z é óbvia, e o marketing das principais marcas de álcool teve também que se ajustar às mudanças.

Marsh reforça a ideia afirmando, "se olharmos para o marketing do álcool, eles evitam dizer que beber é saudável, mas dão a entender que pode fazer parte de um estilo de vida saudável”. Diz ainda, “ao contrário do tipo de marketing da geração X, que era mais do tipo party hard".

Temos que admitir, a ressaca perdeu o glamour. As novas gerações pedem clareza, produtividade e menos arrependimentos. Mas sejamos honestos não há nada de sexy em dançar com um matcha na mão. A verdade é dura, há sensações que só a noite nos consegue transmitir.

A mensagem principal não é sobre excluir algo da nossa vida, é sobre saber encontrar o equilíbrio: saber dizer não ao álcool e sim às festas (e permitirmo-nos o caos de ser humano de vez em quando).

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