Maro: “Já muitas vezes na vida fui, de alguma maneira, salva por música”
Senhora de uma voz rouca, sensual, quase murmurada, Maro acaba de lançar o seu novo álbum “So Much Has Changed”. Um disco que marca a sua chegada aos 30 e que reflete sobre tudo o que mudou na sua vida. A Máxima conversou com a artista no dia da apresentação.
Maro acaba de lançar o seu novo álbum So Much Has Changed. O nono de uma carreira ainda não muito longa, mas imensamente prolífica. A Máxima foi importuná-la escassas horas antes da apresentação ao mundo deste seu mais recente trabalho. À nossa volta decorriam testes de som, conversas agitadas e em tom urgente, ouviam-se copos a tilintar e o barulho abafado de um aspirador. Nas paredes, quatro enormes projeções de vídeos da infância de Maro davam prova de que, de facto, muito mudou.
É possível que a maioria dos portugueses conheça Maro, principalmente, pela sua ida ao Festival Eurovisão da Canção de 2022, onde participou com a música Saudade, Saudade, escrita em homenagem ao avô que morreu pouco antes, e onde, de resto, conquistou um muitíssimo respeitável 9.º lugar. Mas há muito mais para conhecer. Maro é senhora de uma voz rouca, sensual, quase sussurrada. A sua música foi elogiada por Billie Eilish. E já andou em digressão com Jacob Collier e Shawn Mendes. Mais para a frente na nossa conversa há-de dizer-nos que o momento mais incrível da sua carreira (até agora), o seu “pinch me moment” foi cantar com Milton Nascimento. As suas canções, difíceis de encaixar num único género, têm, por vezes, qualquer coisa de triste e melancólico, mas Maro garante que se diverte muito a gravá-las até porque fá-lo, muitas vezes, entre amigos.
Também em So Much Has Changed há uma dose de contemplação e nostalgia. Afinal, é impossível avaliar o que mudou sem parar, refletir e apreciar o caminho percorrido. O seu novo disco é um hino à transformação. Ao que muda para melhor e ao que muda em detrimento dos nossos melhores esforços para que permaneça. É também um hino à sua própria transformação, não tanto enquanto artista, mas de rapariga para jovem mulher. Maro confirma que foi o facto de ter feito 30 anos – o álbum foi gravado quando tinha 29 – que a fez olhar em volta e reavaliar a sua vida, não da mesma forma que o faz alguém que chega à meia-idade e conclui que conquistou muito pouco, mas da forma afortunada e pouco comum para alguém ainda muito jovem, que conquistou muito e ainda tem, em princípio, muito tempo pela frente para conquistar mais.
Maro tem um sorriso luminoso que transmite uma aura de tranquilidade, alegria e gratidão, e não parece deixar-se contagiar pelo burburinho dos preparativos em seu redor. Esta jornalista foi recebida com um abraço caloroso em vez dos típicos dois beijinhos portugueses, um hábito comum do outro lado do Atlântico – quem tem amigos brasileiros, sabe. A artista ainda parece surpreender-se com o facto de as pessoas quererem falar com ela sobre o seu trabalho – não que não lhe reconheça valor, mas porque o vê como algo natural – e parece mesmo grata e feliz pelo interesse, não necessariamente em si, enquanto pessoa, mas na sua música. Maro já disse em várias entrevistas que não faz o que faz para ser famosa, mas porque adora fazer música e adora perceber que outras pessoas também se entusiasmam com o que a entusiasma.
E o entusiasmo é mesmo algo central na forma como cria a sua música. Maro é uma artista eclética precisamente porque se deixa inspirar por aquilo que a entusiasma. Nota-se nela um certo maravilhamento por fazer parte de uma comunidade artística com a qual pode colaborar – e deixar-se influenciar, no melhor sentido possível – para criar músicas diferentes, músicas que nunca criaria sozinha. “Todos temos várias partes de nós, dá para ver com amizades e relações, mas há certas partes de nós que vêm ao de cima com determinadas pessoas e eu sinto que na música isso é muito evidente”, explica, acrescentando que quando se junta com um produtor “sai” uma Maro, mas quando o produtor muda, a Maro que aparece também é outra. “E isso é verdade também com outros cantores, outros instrumentistas, e eu adoro isso”, sublinha. “Adoro continuar a sentir-me desafiada e a sentir que cresço e que aprendo. E depois também há esta magia do entusiasmo de tocar com alguém pela primeira vez, ou de tocar com alguém que eu admiro. O facto de poder partilhar um momento com essa pessoa, que de repente não estou só a ouvir nas plataformas digitais, mas está à minha frente e podemos até ter uma troca de ideias. Acho que nunca me vou fartar. Aliás, mais que tudo, acho que isso é o que me move”, conclui.
Maro tem a sorte de ser uma artista musical porque a música tem este lado colaborativo que outras formas de arte não têm. Seria bizarro descobrir que Margaret Atwood, Salman Rushdie e Ian McEwan estavam a escrever um livro a três mãos – seis, se tivermos em conta que agora toda a gente escreve ao computador; cinco, se nos lembrarmos que Rushdie perdeu o movimento de uma das mãos, depois de ter sido esfaqueado. E, no entanto, no mundo da música é perfeitamente normal que um músico seja convidado para acompanhar outro numa tournée, ou para fazerem um disco em conjunto.
Em 2020, quando o mundo confinou e, em muitos casos, desesperou, esta jovem artista, então com 24 anos, viu nisso uma oportunidade. Estando toda a gente fechada em casa, sem concertos, tournées ou espetáculos a acontecer em lado nenhum, Maro decidiu convidar mais de 100 artistas para colaborar com ela, à distância, criando assim a série “Itsa Me, Maro!”, que pode ser vista no YouTube e que inclui artistas como Bárbara Bandeira, Mayra Andrade, Tiago Nacarato, Maria Gadú, Luísa Sobral, Marisa Liz, Rui Veloso, Ivan Lins e o incontornável Eric Clapton.
Este espírito de partilha vem talvez do facto de ter dois irmãos – Manuel e Matilde – e foi, certamente, aprimorado na Berklee College of Music, a escola de música (uma das melhores do mundo), localizada em Boston, para onde foi estudar e onde fez parte de uma bolha de cerca de 5000 estudantes e amantes de música de todas as partes do mundo, e onde, de facto, a colaboração e o experimentalismo eram moeda de troca diária.
A história da sua entrada em Berklee merece ser contada. Maro começou a estudar música muito pequena e aos 11 já fazia as suas composições ao piano, mas durante a adolescência foi perdendo o entusiasmo, não necessariamente com a música, mas com o trabalho de aprendizagem. Aos 19, porém, decide que o que quer mesmo é seguir uma carreira musical e começa a pesquisar boas escolas pelo mundo fora. Certa noite, subitamente e sem dizer nada a ninguém, decide candidatar-se a Berklee. Para quê contar, criando expectativas e preocupações, afinal, o mais provável era nem receber resposta. Só que em 48 horas Berklee respondeu-lhe dizendo que tinha uma audição marcada. Foi. Entrou. Conseguiu uma bolsa para as despesas da faculdade, mas era preciso ainda arranjar dinheiro para acomodação e subsistência. Teve na mãe uma forte aliada. Afinal, sendo professora de Formação Musical e de Pedagogia Musical da Escola Superior de Música de Lisboa, não tinha dúvidas – ao contrário de muitos pais – de que a música pode ser um trabalho “a sério”. Juntas bateram a muitas portas até conseguirem apoio de mecenas para que Maro conseguisse rumar a Berklee.
Mas voltemos a So Much Has Changed. Este álbum foi gravado no Brasil, no interior de São Paulo, na fazenda do músico Rafael Altério, a quem Maro se refere como o seu “pai brasileiro” e que conheceu por intermédio dos filhos deste, também eles músicos. Em 2024, estava a fazer tournée o ano inteiro, mas tinha junho livre. Uma paragem muito bem-vinda, como a própria recorda: “Resolvi falar com quatro dos meus melhores amigos, que são também músicos que eu admiro e desafiei-os para irmos para estúdio e usarmos esse mês para criar.” Maro levava já 10 canções prontas a gravar, mas em 48 horas escreveu outras oito. Oito novas músicas em dois dias? Como? “Fiquei nesta bolha criativa e de gratidão, de poder estar ali três semanas e, de repente, eles iam a algum lado e eu pegava na guitarra e saía uma música. Uma noite, já estava quase a dormir e comecei a ter umas ideias e acabei por ligar a luz, ir para a guitarra e saiu o Kiss Me, que é uma das canções do disco. Sinto que foi essencial poder sentar e ouvir o que estava na minha cabeça, que acaba por ser isto tudo”, diz, referindo-se às 10 músicas do novo álbum.
Maro diz ainda que até a forma como foi feito o álbum representa esse conceito de mudança: “Ia com um plano que acabou por ir por água abaixo porque acabou por fazer mais sentido seguir o momento, mas hei-de gravar também as outras oito músicas que ficaram de fora”, acrescenta, para sossegar os fãs.
So Much Has Changed ganhou corpo num momento de descanso e liberdade. A música, afinal, consegue ser um farol de paz, tranquilidade e cura nas situações mais difíceis. Sobre esse poder, Maro, já em jeito de conclusão – até porque os testes de som têm de continuar e a equipa está a ficar ansiosa –, diz o seguinte: “Nunca sei muito bem falar da minha música nessa perspetiva, mas sei falar como ouvinte da música de outros artistas e, realmente, já muitas, muitas vezes na vida fui, de alguma maneira, salva por música, por coisas que ia ouvindo e descobrindo e artistas que acabaram por dar coisas ao mundo e que impactaram a minha vida. E só posso esperar que a minha música possa, de alguma forma, trazer algumas das coisas boas que eu já senti com a música de outros artistas.”
Para quem quiser fazer parte de um momento especial de união e partilha, a sua tournée para apresentação do novo álbum arranca já no próximo mês, com passagem pela Europa, Estados Unidos e Canadá, e, claro, paragem obrigatória no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 26 de março, e no Coliseu do Porto dois dias depois.
Paula de Magalhães: "Achava impossível furar o mercado da representação. Lisboa parecia-me muito grande e distante"
De Vizela para a capital com um sonho na bagagem, Paula formou-se em Enfermagem Veterinária, profissão que exerceu durante dois anos até que um namoro breve com um ator acordou uma vontade que guardava desde a infância: queria ser atriz. Despediu-se, largou tudo, e rumou à capital. Com 32 anos, vimo-la pisar o palco dos Globos de Ouro.
Mulheres que deram o máximo. Graça Lobo: "Os homens são tão infantis, tão inúteis. Nós não dependemos deles!"
Antes de hashtags e manifestos virais, houve mulheres que abriram caminho com palavras firmes - esta rubrica recupera as suas entrevistas para a Máxima. Afinal, voltar ao passado é, também, um gesto de futuro.
Entrevista José Condessa: "O artista tem de ser o primeiro a levantar a voz."
No jardim onde o ator brincava em criança, o tempo parece ter parado. Com que sensibilidade é preciso avançar agora? Este ator mediático não quer deixar de lado a comunhão artística. Uma entrevista feita a andar a pé por Lisboa, a contrariar o ritmo das conferências de imprensa múltiplas.