"Mãe, não faças isso": a difícil arte de ensinar os pais (sobretudo a ouvir-nos)

Passamos a infância inteira a aprender com eles, mas será que também podemos educá-los? Falámos com uma psicóloga sobre a inversão de papéis.

Será que os nossos pais também precisam de educação positiva? Foto: GettyImages
10 de julho de 2026 às 13:20 Margarida do Carmo / Com Patrícia Domingues

Há uma cena no filme Encanto (2021) em que Mirabel, a personagem principal, percebe que o problema nunca esteve nela. A verdadeira ferida estava na avó, que passou anos a reproduzir o medo e o trauma que carregava sem sequer se aperceber. No fim é a neta que acaba por lhe mostrar isso. Não porque se tenha tornado numa adulta experiente, mas porque, às vezes, os mais novos também podem ensinar os mais velhos. Afinal, nem mesmo os pais vêm com manual.

O conceito de parentalidade positiva tornou-se num dos mais falados no universo das famílias. Foi criada uma fórmula quase perfeita para educar crianças que vemos quase como obrigatória na sociedade atual. Há quem afirme que validar as emoções é o mais importante, para outros é sobre estabelecer limites e há ainda quem acredito que todos os "não" têm de vir com uma explicação. O certo é que se pode aprender de mil formas: livros, podcasts, contas de pessoas da área e até páginas de pessoas que pensam que são da área. Mas nem sempre foi assim.

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Se cresceu antes dos anos 2000, é provável que a sua infância tenha sido bastante diferente. As gerações anteriores educavam, muitas vezes, da única forma que conheciam - uma em tantas coisas inversa aquela que conhecemos hoje. E talvez sejam os pais que cresceram antes de todas estas regras que estejam a precisar mais da nossa (os filhos) ajuda.

Antes de chegarmos ao como e quando passamos a intervir, é importante percebermos todos (e desculpem desde já a quem está cansado de ouvir falar sobre isto) o que é realmente o conceito de parentalidade positiva.

define o conceito de parentalidade positiva como: "um espaço seguro em que a participação e a autonomia, a saúde e o bem estar social e emocional da criança são promovidos de acordo com as suas características e a sua idade”. Ou seja, a base é e será sempre o respeito mútuo, os objetivos são variados, mas todos convergem num ponto: criar crianças que um dia se tornarão adultos emocionalmente estáveis e seguros de si mesmos.

E é aqui que entram os filhos. Mesmo quem nunca presenciou uma educação “moderna” está completamente familiarizado com o tema, seja porque aprendeu na escola, porque tem familiares que a praticam ou porque, como eu, tem uma conta de TikTok com um algoritmo que ninguém percebe e que decidiu que eu devia aprender sobre isto.

É assim que chegamos à grande dúvida. Será que não chega a uma fase da vida em que este conceito se inverte e temos de ser nós, os filhos, a ensinar e educar os nossos pais? A resposta de Beatriz Pedro, psicóloga na clínica Sea Yourself, em conversa com a Máxima, é que “não é responsabilidade dos filhos ajudarem os pais neste sentido, mas pode ser benéfico”. Por isso construímos uma lista, com todos os conselhos dados para tornar tudo isto mais fácil.

1. Falar sobre aquilo que sentimos, não sobre aquilo que eles fizeram

Quantas vezes não queremos gritar um “vocês nunca me ouvem”, “a culpa é vossa” e outras mil frases que todos pensamos mas poucos dizem? A minha resposta é "MUITAS!" mas o problema é que, quando começamos a apontar o dedo, a outra pessoa tende a defender-se antes sequer de ouvir o que temos para dizer. Por isso, o conselho para este ponto é praticar uma comunicação assertiva. Em vez de acusar, o ideal é explicar o impacto que a atitude teve em nós. Beatriz Pedro recomenda dizer algo como: "Isto faz-me sentir assim, não é apontar-te o dedo a ti, é a forma como isto me impacta". Em princípio vai funcionar, mas não podemos prometer - mesmo que a diferença parece pouca muda completamente o rumo da conversa. 

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2. Não temos de dizer tudo de uma vez 

Quando começamos a aprender sobre algum tema, queremos falar imenso sobre o mesmo, mas neste caso não pode ser assim. Os pais podem não estar preparados para ouvir todas as ideias e mudanças ao mesmo tempo. A psicologia acredita que essas conversas devem acontecer sempre de forma confortável e sem pressão. O pensamento tem de ser este: "Não é a minha função ajudar os meus pais a fazer isto, mas eu tenho este interesse porque acredito que, se o fizer, a nossa relação poderá melhorar". É como se estivéssemos a falar com uma criança, com calma e uma coisa de cada vez. Um pouco irónico, não é?

3. Perceber quando é suposto insistir e quando o melhor é mesmo ficarmos calados

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Pais disponíveis para ouvir conversas estão onde? Se encontrou um, diga-nos onde, por favor. Pois, esta é a parte mais difícil porque nem todos os pais aprenderam a falar sobre emoções ou estão disponíveis para serem “criticados”. Então, como sabemos quando podemos continuar e quando temos de parar? Segundo a psicóloga, o importante é percebermos se existe abertura. Se a receção for negativa, o melhor é mesmo não dizer nada. Nem todas as relações podem ser transformadas apenas pela nossa vontade e aceitar isso é extremamente necessário para a nossa sanidade mental. 

4. Não somos só nós que temos feridas e traumas - eles também os têm

“Ninguém nasce ensinado”, uma frase que ouvimos muito em criança. Curiosamente, esquecemo-nos dela quando olhamos para os nossos pais. A tendência é sempre vermos os nossos pais apenas como isso: pais. Mas esquecemo-nos que eles também são filhos, que cresceram com outro tipo de educação e que também têm os seus traumas. Atenção, pais, nós sabemos que fazem o melhor que podem! Mas isso não significa que podemos desculpar tudo. Temos apenas de perceber que não estamos a falar com alguém indestrutível, mesmo que na maioria das vezes o pareça.

5. A melhor forma de influenciar é darmos o exemplo

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Sabendo que existem muitos pais como os meus, que mais depressa sobem o Everest do que dizem que tenho razão, a probabilidade de os convencer a aprender sobre o tema torna-se difícil. Por isso, o conselho aqui é introduzir aos poucos esta forma diferente de viver. Se dermos o exemplo do que é correto e se formos explicando as coisas, talvez eles se queiram juntar. Como acrescenta Beatriz Pedro, "à medida que os filhos crescem, é natural que passem também a influenciar os pais através dos seus comportamentos”. Mas atenção, uma coisa é influenciar - outra é assumirmos o papel de pais. Não é de todo isso que queremos.  

No fim de contas, a pergunta torna-se quase banal. Se toda a vida o mundo foi vivido por pessoas que ensinam coisas umas às outras, e se podemos ensinar coisas aos nossos amigos, filhos, namorados, porque é que não podemos ensinar também aos nossos pais?

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