O nosso website armazena cookies no seu equipamento que são utilizados para assegurar funcionalidades que lhe permitem uma melhor experiência de navegação e utilização. Ao prosseguir com a navegação está a consentir a sua utilização. Para saber mais sobre cookies ou para os desativar consulte a Politica de Cookies Medialivre

Máxima

Beleza / House of Beauty

“A próxima vez vem com cabelo de gente.” Quem ainda decide o que é belo - e quem lucra com isso?

No House of Beauty 2026, Soya Marega, Maria Gil e Maria João Cunha falaram sobre racismo estético, apropriação cultural e a forma como a beleza continua a reproduzir desigualdades sociais.

A carregar o vídeo ...
Desigualdades
26 de maio de 2026 às 19:18 Patrícia Domingues

“Viemos falar de beleza, não como um espelho, mas como um sistema.” Foi assim que começou a conversa sobre desigualdades no House of Beauty, a última do dia de sábado. E talvez não houvesse melhor forma de resumir um tema que continua a ser tratado como superficial, individual ou até fútil, quando na verdade revela muito da forma como a sociedade distribui poder, acesso, aceitação e humanidade.

Porque a beleza nunca foi apenas sobre beleza. É sobre quem pode existir sem se corrigir. Quem pode envelhecer sem desaparecer. Quem pode ocupar espaço sem justificar o próprio corpo. Quem pode ser tendência sem antes ter sido alvo de vergonha.

Ao longo da conversa com Maria João Cunha, diretora do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género (CIEG), Soya Marega, cabeleireira e booker, e Maria Gil, atriz e ativista cigana, ficou claro que os padrões de beleza não são neutros - são construídos, históricos e profundamente políticos.

Desigualdades
Maria João Cunha, diretora do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género Foto: Cláudia Teixeira / Máxima

A magreza tem sido muito sinónimo de beleza na nossa sociedade”, lembrou Maria João Cunha, explicando como os ideais estéticos mudam ao longo do tempo, mas continuam quase sempre a recair sobre o corpo feminino como espaço de controlo e regulação. “Temos muitas indústrias a lucrar com estas imposições, com estes padrões e com estas formas de regular como as mulheres devem ser e devem parecer.”

E talvez essa seja uma das grandes contradições da indústria da beleza: primeiro cria a insegurança, depois vende a solução. Enquanto as mulheres estão ocupadas a corrigir o corpo, a pele, o cabelo, a idade ou os traços, continuam também presas a uma cultura visual que transforma autoestima em consumo permanente. “A amplitude de aceitação, sobretudo para mulheres, é uma amplitude reduzida.”

Mas a desigualdade estética não se limita ao género. Cruza-se com classe, origem cultural e acesso económico. Soya Marega falou da forma como cresceu a tentar afastar-se da própria imagem: “Eu tentava ao máximo fugir de tudo o que gritasse eu ser uma mulher negra.” Contou como alisava o cabelo, usava extensões e consumia produtos para se aproximar de um ideal que nunca incluía pessoas como ela. “Era uma pessoa que gastava muito dinheiro em extensões para afastar-me o máximo possível da minha negritude.”

Desigualdades
Soya Marega, Hairstylist Foto: Cláudia Teixeira / Máxima

O mais violento nestes relatos é perceber que a exclusão estética começa cedo - na escola, no trabalho, nos comentários aparentemente pequenos que ensinam quem é considerado aceitável e quem não é. “A próxima vez vem com cabelo de gente”, contou Soya ter ouvido no trabalho, ao usar o cabelo natural.

A conversa trouxe também um tema cada vez mais presente: a apropriação cultural transformada em tendência. Elementos que durante anos foram associados a marginalização tornam-se desejáveis quando usados por corpos diferentes, geralmente mais próximos da norma branca e ocidental. “Quando eu queria usar as coisas, vocês faziam-me sentir mal. E de repente é fixe”, continuou Soya, falando de lenços, pulseiras, cabelos entrançados ou maquilhagens associadas às suas referências culturais.

Maria Gil foi ainda mais direta: “A moda é efetivamente um negócio e cresce com o extrativismo de culturas que têm as suas próprias narrativas.” O problema nunca foi o objeto em si. Nunca foram as argolas, os lenços, as tranças ou os traços. O problema sempre foi quem os usava. “Se uma mulher cigana utiliza uns brincos compridos, é algo de bairro ou de subcultura. Mas quando é utilizado por alguém de uma outra classe não racializada…” - e a frase quase nem precisou de terminar. Toda a plateia percebeu. Porque o mesmo elemento muda de valor consoante o corpo que o transporta.

Desigualdades
Maria Gil, atriz Foto: Cláudia Teixeira / Máxima

Ao mesmo tempo, as redes sociais aceleraram ainda mais esta lógica de comparação permanente. A beleza tornou-se hipereditada, hiperconsumida e profundamente ligada a privilégios económicos muitas vezes invisíveis. Tempo para ginásio. Dinheiro para procedimentos. Alimentação específica. Descanso. Saúde mental. Disponibilidade. A estética continua a ser vendida como disciplina individual, quando na verdade depende profundamente de contexto social. É uma das maiores ilusões contemporâneas: acreditar que a beleza é meritocrática.

No final da conversa, as três participantes deixaram uma reflexão sobre aquilo que as novas gerações precisam desaprender urgentemente. A necessidade de corresponder. A obsessão pela validação digital. A ideia de que existe apenas uma forma legítima de ser desejável. “O que eu vejo no Instagram ou no TikTok não é a vida real”, lembrou Soya.  Durante demasiado tempo, a beleza foi apresentada como uma meta estreita, uniforme e quase impossível de alcançar. O futuro passa por desaprender essa ideia, até porque como frisou Maria João Cunha, “esta heterogeneidade é que é a realidade”. Por fim, Maria Gil terminou com uma das frases mais bonitas da tarde: “Não há nada mais belo do que saber de onde vimos, saber quem somos e não o que somos.”

Desigualdades
Soya Marega, Maria Gil e Maria João Cunha debatem racismo estético e desigualdades sociais no House of Beauty Foto: Cláudia Teixeira / Máxima
Leia também
As Mais Lidas