Blaya: "Tudo o que passei fez com que chegasse ao palco sem ficar intimidada por abanar a raba"
Entre o funk e o afro, Blaya transformou o palco do Coala Festival simultaneamente numa pista de dança e numa declaração de independência. E que "volte sempre".
Blaya atua e canta "Eu não preciso da vossa aceitação" no palco
Foto: @apenasgosto / Máxima02 de junho de 2026 às 23:53 Patrícia Domingues
No backstage do Coala Festival 2026, entre o calor do festival e a expectativa de mais uma atuação, o mood de Blaya era exatamente aquilo que se espera dela: "sempre funk, sempre entre o funk e o afro". Mas por detrás da energia contagiante e da artista que transformou o movimento da anca numa afirmação política, há hoje uma narrativa mais ampla. Uma narrativa que continua a celebrar o corpo, a sensualidade e o prazer feminino, mas que agora incorpora também memória, migração e identidade. O erro foi sempre assumir que uma mulher que abana a raba não tem nada para dizer.
A propósito de Biri Bam Bam, o seu novo tema feating Maria João, Blaya reconhece que há quem estranhe a mudança. Afinal, durante anos tornou-se um dos rostos mais visíveis de uma feminilidade descomplexada em Portugal, associada a refrões feitos para dançar e a uma presença em palco que recusava qualquer forma de contenção. Mas a artista não vê contradição entre as duas fases. "Eu continuo a abanar a raba", diz, entre risos. A diferença é que as novas canções carregam histórias mais pessoais, como "autobiografias cantadas", A dança continua lá, mas agora funciona também como veículo para falar de temas como a imigração, a deslocação e as dificuldades de quem procura construir uma vida longe do seu lugar de origem.
É uma evolução natural para uma artista cuja carreira sempre esteve ligada à experiência vivida. Porque, como faz questão de sublinhar, nunca se tratou apenas de dançar. O gesto de ocupar espaço, de mostrar o corpo e de falar sem filtros foi sempre uma resposta a estruturas que procuram limitar as mulheres. "As mulheres são incríveis e são demais, mas para o sermos, infelizmente, temos que passar por algumas dificuldades e temos que ultrapassar algumas barreiras que são impostas desde sempre."
Blaya fala das pequenas proibições que moldam a vida das mulheres desde cedo: vestir-se como querem, falar alto, existir sem pedir autorização. E aponta para uma realidade que continua particularmente presente em Portugal: a dificuldade de se viver de forma livre. "Existem muitas mulheres que são retraídas em relação ao seu corpo e à sua sexualidade."
O que torna o seu discurso relevante é precisamente a forma como transforma a reivindicação em festa. Leva os temas para cima da mesa através da música, da dança e do humor. Não para suavizar os problemas, mas para garantir que chegam a mais pessoas. "Eu acho que é trazer esses temas para cima da mesa, mas de uma maneira mais divertida e que o pessoal consiga ouvir e também chamar a atenção. Estes problemas existem, mas se não falares sobre isto vão continuar a existir."
A sensualidade, no universo de Blaya, é uma ferramenta de emancipação. Uma forma de reclamar a posse do próprio corpo numa cultura que, durante décadas, olhou para a sexualidade feminina quase exclusivamente através do desejo masculino. Quando lhe pergunto se, ao longo do percurso, reclamou para si mesma essa sexualidade, a resposta conduz inevitavelmente à adolescência. À rejeição. À sensação de não ser escolhida, particularmente pelos rapazes. Foi aí que começou a construir uma identidade assente na autossuficiência emocional. "Eu não preciso da vossa aceitação. Tenho que me aceitar como eu sou", diz, sobre as lições da vida. "Foi isso que me construiu e que me fez ser a Blaya de hoje."
É uma frase que resume grande parte do percurso de Blaya. A artista que hoje sobe ao palco sem receios de "abanar a raba" não nasceu da provocação gratuita, mas de uma decisão consciente: deixar de moldar a sua existência em função do olhar dos outros. Numa época em que cada vez mais artistas mulheres - de Portugal ao Brasil - reclamam a narrativa sobre os seus corpos e os seus desejos, Blaya permanece uma figura singular. Não porque fale de sexualidade, mas porque o faz sem mediação, sem culpa e sem necessidade de validação externa.
No domingo, no Coala Festival, ficou claro que a proposta de Blaya continua a ser radical precisamente por parecer simples: ocupar espaço. Fazer barulho. Dançar. Contar a própria história. E fazê-lo com ou sem abanar a raba. Se a liberdade tivesse uma placa à entrada, talvez dissesse apenas: "Volte sempre."
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