2026 ou o ano em que voltámos a 2016

Snapchat, VSCO, chokers, space buns. Queremos mesmo tudo isto de volta ou só a forma como nos fazia sentir?

Kendall Jenner e Bella Hadid juntas num evento Foto: Getty Images
20 de janeiro de 2026 às 15:29 Safiya Ayoob

Há uma década, ninguém diria que 2016 viria a ser tratado como um tempo dourado. Não era ainda passado suficiente para ser vintage, nem presente o bastante para ser tendência. E, no entanto, aqui estamos nós, em 2026, a olhar para trás com saudade, como quem reencontra uma fotografia esquecida no fundo do rolo da câmara: desfocada, espontânea e, estranhamente, perfeita. Nas redes sociais multiplicam-se as publicações que o afirmam sem ironia: 2026 is the new 2016

Em 2016, o digital ainda tinha uma leveza que hoje parece quase exótica. O Snapchat não era um acessório: era o centro da conversa. Os filtros (sim, o icónico cão), os vídeos tremidos, as legendas desenhadas à pressa, a lógica do "publica e desaparece" tornavam tudo mais espontâneo. A beleza e a moda acompanhavam essa energia: menos polimento, mais brincadeira. Havia uma liberdade particular em não ter de parecer perfeita o tempo todo - e talvez seja precisamente isso que procuramos agora. Em 2026, com os algoritmos a exigir consistência, estética e performance, voltar a 2016 é uma espécie de exalação coletiva. Uma vontade de recuperar um tempo em que a imagem era vivida com menos peso.

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Há também um paralelismo bonito - e inevitável - com a própria Máxima. Em 2016, a Máxima era ainda um objeto físico, folheado com tempo, dobrado nas malas, guardado nas mesas de cabeceira. Hoje, é uma presença anual (e online), quase simbólica, mas ainda carregada de autoridade editorial. Há qualquer coisa de quase cinematográfico em pensar que, enquanto as redes sociais de 2026 romantizam 2016, as páginas da revista já guardavam, intactas, as pistas do que viria a regressar.

Na edição de abril de 2016, por exemplo, nas páginas de shopping (aquelas que nos faziam querer sair de casa com um plano e um orçamento emocional), as riscas surgiam como uma grande tendência - gráficas, verticais, descontraídas, com aquela elegância prática que tanto funciona no escritório como num fim de tarde. Dez anos depois, as riscas voltam a ocupar passerelles, montras e feeds com a mesma naturalidade com que voltamos a uma música que nunca deixámos realmente de ouvir.

A moda arrisca com linhas marítimas em todas as direções Foto: MÁXIMA

O mesmo acontece no universo da beleza, onde a memória é ainda mais rápida do que a moda. Numa outra edição da Máxima em 2016, havia um artigo sobre máscara de pestanas colorida e sobre como um simples gesto - trocar o preto por azul, verde, roxo, borgonha - podia transformar por completo uma maquilhagem. Hoje, em 2026, essa ideia está novamente “in”, reaparece em tutoriais, editoriais e looks de passadeira (com a mesma promessa de transformação instantânea), como se fosse uma novidade acabada de descobrir. Mas não é: é um clássico reativado.

Há ainda um outro espelho interessante nesse arquivo de 2016 que tem tudo a ver com o momento que vivemos agora. Numa edição desse ano, a Máxima questionava: prevenção ou intervenção? Falava-se de botox, de preenchimentos, de cirurgias, mas sobretudo falava-se de dúvida. Da hesitação feminina entre aceitar o tempo ou tentar antecipá-lo. Dez anos depois, apesar de toda a normalização estética e do discurso aparentemente mais aberto sobre procedimentos, as perguntas continuam surpreendentemente semelhantes. Mudaram as técnicas, sofisticaram-se os nomes, suavizou-se a linguagem, mas a decisão continua a ser profundamente pessoal, carregada de expectativas, julgamentos e contradições. Talvez porque, tal como em 2016, continuamos a viver num lugar intermédio: entre o desejo de envelhecer em paz e a pressão constante para parecer sempre "bem", "fresca", "descansada".

Prevenção ou intervenção: opções para atenuar rugas e sinais de envelhecimento Foto: MAXIMA

E se em 2016 a revista também olhava para o poder silencioso das mulheres à margem do protagonismo masculino, esse tema ganha hoje uma nova leitura inevitável. (mulheres e namoradas de atletas) discutia-se até que ponto estas figuras influenciavam carreiras, decisões e narrativas públicas. Em 2026, com as redes sociais a amplificarem tudo, essa conversa tornou-se ainda mais complexa. As WAGs deixaram de ser apenas "acompanhantes" para se tornarem marcas, criadoras de conteúdo, empresárias, muitas vezes com mais visibilidade do que os próprios atletas. Basta olhar para o universo da Fórmula 1, onde algumas destas mulheres acumulam milhões de seguidores, contratos de moda e impacto mediático global.

Se o arquivo da Máxima nos mostra como a estética se repete, também nos lembra como 2016 foi um ano em que a moda começou a mudar de pele. Um dos textos mais reveladores da época tinha um título que hoje soa quase irónico de tão certeiro: "O Futuro da Moda". Nesse artigo, a revista apontava para um momento que, na altura, parecia disruptivo: a Burberry anunciava o modelo See Now, Buy Now - a ideia de ver uma coleção e poder comprá-la de imediato, sem esperar meses pela chegada às lojas. Em 2016, isto era descrito como uma viragem, uma espécie de aceleração oficial do desejo. Em 2026, vivemos dentro desse mecanismo: a urgência tornou-se estrutura, e a moda, muitas vezes, parece acontecer à velocidade de um scroll. Voltar a 2016, neste sentido, é também voltar ao instante em que percebemos que o tempo iria encurtar.

As mulheres dos jogadores de futebol têm um papel importante nos clubes Foto: MÁXIMA

É por isso que esta tendência não se limita a "usar chokers outra vez"ou a ressuscitar a estética Tumblr/VSCO com ar de fotografia lavada e nostalgia controlada. (Sim, também é isso: os chokers, os slip dresses, os bombers, os ténis com tudo, os ombros à mostra, a ganga rasgada, os looks que pareciam montados em cinco minutos e, por isso mesmo, tinham personalidade.) Mas o coração do regresso é maior: é o desejo de recuperar uma relação mais leve com a imagem e com a moda, de voltar a um tempo em que experimentar não era uma estratégia de marca pessoal - era apenas diversão.

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Há, claro, um romantismo inevitável nesta ideia de 2016 como "era mais simples". E talvez seja parcialmente verdade. Mas o que torna o fenómeno tão interessante é que ele não é uma cópia exata do passado; é uma edição, uma seleção. Em 2026, pegamos em 2016 e ficamos com o melhor: a espontaneidade do Snapchat, a liberdade de errar, a estética menos higienizada, a moda mais divertida. E, ao mesmo tempo, trazemos a consciência de agora - sabemos mais sobre consumo, sobre sustentabilidade, sobre como a velocidade tem custos. Talvez seja por isso que a frase "2026 é o novo 2016" tem tanta força: não significa "quero voltar para trás e ficar lá". Significa "quero recuperar aquilo que perdi pelo caminho".

Porque, no fim, é isso que a moda faz quando é verdadeiramente boa: dá-nos um passado para revisitar - e uma forma bonita de o trazer para o presente.

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