Festa do Cinema Italiano propõe uma reflexão sobre o papel do corpo feminino

Nesta 19.ª edição, que começa hoje, o protagonismo é feminino, mas está longe dos clichés. Há tensão, há escolha e há histórias que deixam marca.

Festival destaca protagonismo feminino e debate o papel do corpo da mulher Foto: Getty Images
09 de abril de 2026 às 17:39 Joana Grilo / Com Patrícia Domingues

Chegou o momento em que o cinema deixa de ser apenas um espelho e passa a ser também um lugar de confronto. É precisamente aí que a Festa do Cinema Italiano se insere este ano. Onde o universo feminino não pede licença para existir e ocupa o centro da narrativa com a intensidade de quem já não aceita ser figurante.

Criada com o objetivo de aproximar o público português da diversidade e vitalidade do cinema italiano contemporâneo e clássico, a Festa apresenta uma programação que cruza estreias nacionais, antestreias, retrospetivas e encontros com realizadores e atores.

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A partir de hoje, dia 9 de abril, são quatro os filmes que desenham esta expressividade por parte das mulheres: As Provadoras de Hitler, Fuori, GEN_ e Un anno di scuola. Quatro histórias diferentes e outras formas de olhar para o corpo feminino. Um corpo que é, muitas vezes, mal interpretado.

"As Provadoras de Hitler" Foto: Luca Zontini

No filme As Provadoras de Hitler somos transportados para a época da Alemanha nazi, onde um grupo de mulheres vivia na linha ténue entre a sobrevivência e a morte, obrigadas a provar a comida que era destinada a Hitler. É através de Rosa, a protagonista, que se revela um tipo de violência que pouco ou nada falado: a instrumentalização do corpo feminino como escudo. Não há heroísmo aqui, só escolhas impossíveis, medo quotidiano e uma intimidade marcada pela tensão. O filme pode ser visto em Lisboa, no Cinema São Jorge, a 13 de abril, às 21h30, e a 19 de abril, às 20h00.

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"Fuori" Foto: Mario Spada

 Em Fuori, de Mario Martone, a vida da escritora Goliarda Sapienza é retratada em forma de drama biográfico, mas é bem mais do que isso - interpretada por Valeria Golino, esta mulher atravessa a experiência da prisão e encontra nela uma forma de liberdade inesperada. Entre muros e relações improváveis, o filme constrói uma reflexão crua sobre identidade e pertença. Como se o verdadeiro exterior (fuori) fosse, afinal, um estado de espírito e não um espaço. Pode ser visto a 11 de abril, às 21h30, no Cinema São Jorge.

"GEN_" Foto: DR

Mas o feminino não se esgota na memória nem na ficção. No filme GEN_ o presente impõe-se com urgência. O documentário de Gianluca Matarrese acompanha histórias reais num hospital público em Milão, onde a fertilidade e a transição de género são protagonistas. Aqui, o corpo da mulher é território político, íntimo e profundamente humano. O realizador, Gianluca Matarrese, vai estar em Portugal para apresentar o filme, que pode ser visto em Lisboa a 12 de abril, às 15h00, no Cinema São Jorge.

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"Un anno di scuola" Foto: DR

Por fim, em Un anno di scuola, de Laura Samani, a adolescência feminina é retratada com um rigor quase poético. Fred, uma jovem sueca, entra num universo dominado por rapazes e entre desejos, compromissos e amizades tenta de tudo para conseguir free pass no mundo deles e ser aceite sem perder a sua personalidade. Esta obra, inspirada no romance de Giani Stuparich, explora a diferença entre corpos masculinos e femininos, o peso dos desejos e as pressões invisíveis da sociedade. Para assistir dia 10 de abril, às 21h30, ou no dia 14 de abril, às 19h00, no Cinema São Jorge.

Quatro filmes, quatro formas diferentes do feminino. Todas necessárias. Há histórias que não se limitam a ser contadas e nesta edição da Festa do Cinema Italiano, o que se propõe não é apenas ver os filmes - é sentir a história, questionar a mensagem e, talvez, sair da sala de cinema com um pensamento diferente. 

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