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Padrões de Beleza

Guia para educar um rapaz decente. "Se queremos homens que enalteçam mulheres, eles precisam de crescer a ver mulheres respeitadas"

Onde estão os homens que elevam as mulheres e contribuem para a sua auto-estima? Da perspetiva de uma mãe de um bebé, menino, de 10 meses, de um pediatra e de uma criadora de conteúdos sobre parentalidade, reconstruimos um caminho que parece sem volta, à luz da masculinidade tóxica do agora.

Foto: Getty Images
06 de abril de 2026 às 19:16 Rita Silva Avelar

Descobri que estava grávida num dia de sol em agosto. Era um bebé planeado e desejado. Um dos primeiros pensamentos que corre na cabeça de uma mãe é, naturalmente, se será um bebé saudável. Depois, se será rapaz ou rapariga. Depois, que nome terá. A seguir, a lista de “se’s” nunca mais termina, entre consultas de rotina, novas restrições alimentares, enxoval do bebé, cursos de preparação para o parto e de tudo e mais alguma coisa. A questão “menino ou menina?” encerra-se ao fim de 4 meses ou ao fim de 9. Na minha cabeça, ao longo das semanas, repetia-se a frase, em loop: “Que seja um menino”. O pai assentia: o mundo é um privilégio para os homens. Ao quarto mês, lá estava o Xavier, no monitor, sem dúvidas para o médico.  

Sempre imaginei que seria mãe de um rapaz: o mundo como ele está continua mais fácil para os homens, sem surpresas. Podemos ouvir vezes sem conta que o que interessa é a saúde - é! - mas isso pouco importa quando temos nítidas preferências baseadas em estatísticas que não deixam dúvidas sobre esse galopante desequilíbrio: elas estão mais em apuros que eles. Elas continuam a ser assediadas de todas as formas (o assédio sexual e moral no trabalho triplicou entre 2020 e 2024), recebem pior (as mulheres continuam a ganhar significativamente menos que os homens, com estimativas a apontar para uma disparidade de 14% a 20% ou até 24%) e trabalham mais (2,5 vezes mais horas por dia ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerado do que os homens). 

A par destas estatísticas, ocorre um fenómeno pior. Além das disparidades, os jovens adolescentes de hoje parecem ainda mais retrógrados e obsoletos que os do início do milénio. Há dias, no algoritmo do Instagram, corria um artigo de opinião no The Guardian no qual se lia: “Sou uma miúda de 15 anos. Deixem-me que vos mostre a misoginia vil que enfrento todos os dias nas redes sociais.” Termos como “thots” (putas) ou “bops” (“a que passou por vários”), “body count” (com quantas pessoas dormiu) ou “community pussy” (vagina de todos) são frequentemente usados em aplicações como o Telegram ou outros fóruns sombrios da internet, nos quais prevalece a masculinidade tóxica. Nunca ouvimos tanto falar em como estes sítios se tornaram uma espécie de mercado negro de fotografias de mulheres tiradas sem o seu consentimento, onde há, também, colectâneas de nudes partilhadas sem autorização dos companheiros. A mercantilização do corpo feminino está ao acesso de todos. Nunca os homens adolescentes nos pareceram tão patifes, nem tão antiquados. As mães dos anos 70 podem não ter criado homens capazes de partilhar tarefas domésticas, mas as mães de rapazes do início dos 2000 parecem ter conseguido falhar em tudo. Parece rude, assim escrito, mas é a realidade.  

Quão sexy é um homem que cresce admirando as mulheres que o rodeiam? Que as elogia, enaltece e valoriza, contribuindo para a sua autoestima? Muitíssimo. Esse espécimen, raríssimo, está em vias de extinção e uma possível esperança da sua reconstrução caminha para um abismo. Por isso, sim, o mundo está mais fácil para os homens, e mais difícil para as mães deles, as primeiras machistas da história. “Falo sempre destes aspetos, desde muito cedo; aliás, desde a consulta pré-natal, não para assustar os pais que vão ter ou têm um filho do sexo masculino, mas para alertar para certas determinantes para lá do temperamento pessoal de cada um, que podem ser fatores de risco, bem como para a necessidade de uma educação que se baseie na ética, nos valores do respeito e da liberdade e no direito, também”, conta Mário Cordeiro, pediatra, quando o abordo sobre o tema. “A família tem o seu papel, mas também o têm as redes sociais, os meios de comunicação, os filmes e séries, as atitudes que observamos na escola ou na sociedade.” 

Maria Inês Mano não é especialista em parentalidade, mas, além de ser mãe de um rapaz e de uma rapariga, todos os dias inspira mães e pais nas suas partilhas das redes sociais (só no Instagram tem 170 mil seguidores) - por exemplo, numa das suas publicações mais recentes foi à escola dos filhos cantar com as crianças sobre permissão e limites físicos. “Não precisamos de beijar toda a gente”, “ninguém deve tocar-nos sem permissão”, são algumas frases que cantam juntos. “Vivemos numa era digital onde os nossos filhos têm acesso a tudo. Onde há fóruns, discursos e ideias que reforçam ressentimento, machismo e uma visão distorcida do que é ser homem. E isso assusta, assusta muito. Não pelo medo de criarmos maus rapazes, mas porque sabemos que, se não estivermos presentes, alguém estará”, começa por dizer a bancária de profissão. “Eu quero educar um homem decente, que respeite mulheres e homens, que saiba que carinho não é fraqueza, que saiba que um “não” é um não, que entenda que uma relação é partilha emocional, doméstica e mental e que não cresça a achar que assumir tarefas em casa é dar uma ajuda, mas sim fazer a sua parte.” 

Como educar, então, um homem decente? “Desde as idades mais precoces até à idade adulta e duramente toda a vida, há que censurar os comportamentos tóxicos, machistas, marialvas, de superioridade ou supremacia de género, por um lado, e por outro, educar na igualdade de direitos e mostrar que ninguém é menos por respeitar o outro, pelo contrário, só saímos dignificados e mais livres, também”, afirma o pediatra Mário Cordeiro. “Um rapaz/homem não pode sentir-se menorizado por respeitar as raparigas/mulheres, por ser sensível, por se emocionar e chorar, ou por gostar da arte, do Belo, da calma e da tranquilidade, de momentos endorfínico, em contraponto com momentos de atividade, adrenalínicos e de combate, expressos e canalizados para, por exemplo, o desporto. Em consulta, o assunto é abordado. Todas [as consultas] são momentos bons para debater comportamentos e, no caso concreto dos rapazes pergunto sempre sobre pormenores relacionais com as pessoas do sexo feminino da família ou da escola.” 

Maria Inês Mano sabe que tudo começa em casa. “Acho que a principal estratégia é mostrar-lhes, todos os dias, o que é respeito na prática. Começa sempre em casa. Até na forma como vêem o pai tratar a mãe. Acho, genuinamente, que isso tem um impacto fortíssimo. Eu sou mãe mas também sou mulher, sei como gosto de ser tratada, sei o que quero que o meu filho aprenda ao observar-me, a mim e à irmã. A forma como fala connosco, como reage quando é contrariado, como lida com a frustração… tudo isso é construção. Sempre que percebo um comportamento que não está correto, ajusto. Esse é o ponto de partida. Não é romantizar. Não é pensar que ele é rapaz, e é assim mesmo. É orientar, fazê-lo pensar, explicar as vezes que forem precisas (...). Se queremos homens que admirem e enalteçam mulheres, eles precisam de crescer a ver mulheres respeitadas.” Da sua perspetiva, pensa que, para que os futuros homens consigam sobreviver à pressão dos padrões sociais, “eles precisam de saber quem são, precisam de sentir que não têm de provar a sua masculinidade a ninguém, e precisam de aprender que podem ser fortes mas também podem ser sensíveis. Que podem admirar mulheres sem se sentirem diminuídos, que podem chorar sem vergonha”, como também dizia Mário Cordeiro. “Eu não quero criar um homem à prova do mundo. Quero criar um homem capaz de pensar pela própria cabeça e que escolha ser melhor, mesmo quando ninguém está a ver.” Não escreveria melhor definição para o ideal que gostaria de ver o meu filho seguir. E se 10 meses parece um exagero, os estudos recentes dos neurocirurgiões confirmam que o cérebro de um bebé desenvolve cada vez mais cedo. Não há tempo a perder. 

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