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Histórias de Amor Moderno: “A minha vida foram os 20 anos que se seguiram a ti e àquele fim de tarde”

“A minha vida, Mauro, foi recordar, vezes sem conta, tudo o que aconteceu antes de entrarmos na piscina e, depois, molhados e enregelados, subirmos à penthouse.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

After (2019)
After (2019) Foto: IMDB
16 de maio de 2026 às 10:00 Maria Olívia Sebastião

Recebi uma mensagem no Instagram. Era sexta-feira à noite, eu tinha acabado de deitar os miúdos. O Mário, meu marido, estava perdido no telefone e no seu scroll interminável, acompanhado de um copo de whisky, o seu “Friday treat”, como ele gosta de lhe chamar. Era o momento do meu exercício de encerramento da semana, preparava-me para me desligar da vida quotidiana, das contas, dos compromissos e dos horários, e entregar-me à distração com uma série cómica na televisão, ou a qualquer coisa que encontrássemos num dos canais pagos. Ou, com sorte, para sentir o meu marido aproximar-se, já meio sensibilizado pela bebida, tocar-me e eu deixar que tudo acontecesse, na nossa interação física sazonal para matar saudades dos tempos em que fazíamos amor com vontade e desejo.

Não digo isto com espírito crítico nem com desdém. A vida é o que é. Também eu deixei que o desejo se fosse apagando. Dois filhos pequenos, uma vida em conjunto com mais de 18 anos, entre namoro e casamento. Uma empresa que temos de gerir e sustentar, responsabilidades, compromissos, receio que tudo possa correr mal um dia, mesmo quando tudo parece correr bem. Entre a rotina, a responsabilidade e a incerteza, uma pessoa perde a tesão.

O Mário não tirava os olhos do pequeno ecrã e a monotonia da casa era entrecortada pelos ruídos dos miúdos deitados no quarto ao lado, que dormiam profundamente. E, nisto, a notificação: plim. Chegou uma mensagem, Gabriela. Abrir? Sim, Instagram, abre lá a mensagem. Que mais posso fazer? É o ponto alto do meu dia, quiçá da minha semana. Refiro-me à antecipação da mensagem, aqueles dois segundos em que o pequeno aparelho processa a informação, e em que, mesmo prevendo que seja só um meme idiota ou uma frase inspiracional enviada por uma amiga tão desocupada quanto eu, deposito um bocadinho de fé e esperança em que seja outra coisa qualquer, que me surpreenda, que me acorde, que me agite.

Era mesmo. “Tens de ter cuidado com o que desejas”, pensei. Mas sorri. O nome, Mauro, dizia-me qualquer coisa, mas demorei alguns momentos a chegar ao rosto por detrás do nome. Contudo, uma vez chegada ao rosto, todo o Mauro se desenrolou diante de mim: o sitio onde nos conhecemos, o tempo longínquo em que tudo aconteceu, a minha juventude e a dele, os cheiros do pinhal e do areal, a recepção do hotel onde ambos estagiámos durante o verão mais feliz da minha vida.

“Olá, Gabriela. Cruzei-me com o teu perfil, temos pelo menos um amigo em comum. Decidi cumprimentar-te. Espero que não leves a mal.” Mauro, um tipo educado. Já não se fazem homens assim. Hoje em dia, entre abreviaturas e uma total incapacidade para fugir ao que é literal, o melhor que me aconteceu receber foi, em tempos, um “és gira” e um “uau MILF”. Repito: o melhor. Não vou comentar nem expor o pior, mas é certamente fácil imaginar o nível de que estamos a falar.

O Mauro, 20 anos depois, continuava um cavalheiro, ou, pelo menos, continuava a ser um rapaz educado. Passou só para me cumprimentar. Mas a mensagem continuava. Havia perguntas. Coisas simples e breves. Eram só duas. “Então, como estás?” Esta era fácil. Estou bem. Estou no sofá a olhar para o telemóvel enquanto os meus filhos ressonam de mansinho aqui ao lado e o meu marido, no mesmo sofá que eu, à distância de um braço, quase cabeceia o ecrã dele e troca os olhos a tentar ler uma alarvidade qualquer que alguém lhe mandou por mensagem privada. Às vezes esboça um sorriso. Estou sozinha. Não fisicamente, porque há um espaço que partilho com os outros à minha volta e o volume que os seres humanos, que são meus familiares, ocupam deixa-os efetivamente próximos de mim, o que invalida a ideia de solidão absoluta. Mas, sim, estou sozinha, porque estou apenas comigo. Os outros são só proximidade, não são presença. Espera, Mauro, já vou ler a segunda pergunta. Preciso de um copo de vinho.

Mário, fechaste a garrafa do jantar, amor? Apetece-me servir um copo. Mário levanta lentamente os olhos e a cabeça do ecrã, tem um sorriso apalermado no rosto, diz “hum?”. Não ouviu uma palavra. “Deixa, querido, eu sirvo-me.” “Ahn”, anui, e baixa a cabeça de regresso à função - está tudo bem, ainda não se baba.

De volta ao sofá, já molhei os lábios e a garganta. Vamos à segunda pergunta. “Como é que foi a tua vida?” Caramba, Mauro. Quase me engasgava. Caramba mesmo! Que raio de pergunta. A minha vida foi tudo o que inevitavelmente me aconteceu, que eu fiz acontecer e que eu permiti que me acontecesse desde que saí de ao pé de ti. A minha vida foram os 20 anos que se seguiram a ti e àquele fim de tarde que começou na piscina, com a água gelada, e terminou na penthouse do hotel, sem ninguém saber - até alguém descobrir e sermos os dois postos na rua, fim do estágio, bye-bye, neste hotel nunca mais entram, na nossa cadeia não toleramos este tipo de comportamentos, escusam de enviar currículos no futuro, obrigado pelo vosso trabalho, mas infelizmente temos de vos deixar ir.

A diretora de recursos humanos, que se chamava Bárbara mas que na minha cabeça sempre se chamou Débora, tinha um fraquinho pelo Mauro, engraçava com ele. Não a censuro. Disse-me, na reunião em privado antes de “nos deixarem ir”, “sabe, Gabriela, não podemos permitir que a reputação da nossa unidade seja afetada por situações destas, muito menos pelos seus desvarios de galdéria”. Fiquei boquiaberta. Dei-lhe uma chapada na cara. Ficou ela boquiaberta. “Bateste-me!” “Sim, é um facto”, foi a minha resposta. Apresentou queixa de mim - felizmente, o diretor, com quem todos sabíamos que a Débora, ou Bárbara ou o raio que a parta, andava enrolada, demoveu-a de avançar com a queixa.

Ficou a memória. A minha vida, Mauro, foi recordar, vezes sem conta, tudo o que aconteceu antes de entrarmos na piscina e, depois, molhados e enregelados, subirmos à penthouse. O namoriscar por trás do balcão, as insinuações ligeiras e subtis, as cumplicidades criadas, as nossas piadas privadas, os toques pouco acidentais entre os nossos dedos, os nossos braços, as carícias disfarçadas de gestos de gentileza, o meu coração deslumbrado com o teu encanto, o meu desejo contido todas as manhãs durante quase três meses, até tu me desafiares, “o hotel está quase vazio… e se fizéssemos uma loucura?” Que loucura.

Mauro, a vinha vida é responder à tua mensagem sem saber o que dizer. É querer pedir-te que me salves, que me animes, que me repitas, e saber que isso é errado e que não pode acontecer. Mas desejá-lo imensamente, ainda assim. A minha vida é detestar que me tenhas enviado semelhante mensagem e adorar que o tenhas feito, é saber que este foi o melhor momento dos meus últimos meses, talvez anos. Gostava de te ver de novo, Mauro. Gostava que me contasses, com a tua voz meiga e os teus modos cuidadosos, como foi a tua vida. Gostava de te olhar nos olhos com curiosidade e com atenção e sentir de volta o teu olhar explorador e entusiasta.

Pouso o copo só para responder à mensagem. “Oi, Mauro. Há quanto tempo! Está tudo bem. E contigo? Manda novidades. Beijinho.”

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