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Padrões de Beleza

Parece mentira, mas não é: houve apenas 0,3% de modelos "plus-size" nas últimas passerelles internacionais

Mais do que uma tendência, a inclusão exige continuidade.

Ashley Graham no desfile da Victoria's Secret em 2024
Ashley Graham no desfile da Victoria's Secret em 2024 Foto: Getty Images
01 de abril de 2026 às 09:35 Joana Grilo / Com Patrícia Domingues

Depois do reaparecimento das e a afirmação de que a beleza não tem idade, surge o desaparecimento gradual das modelos plus-size dos desfiles de moda. Estaremos nós a evoluir ou a regredir no mundo da moda e dos considerados padrões de beleza? 

Durante anos, a indústria da moda parecia estar a caminhar - ainda que lentamente - em direção a uma maior diversidade de corpos de modelos, promovendo a inclusão. A presença de modelos plus-size em passerelles, em campanhas e até em capas de revista foi sendo vista como sinal de mudança (para melhor). Mas dados mais recentes sugerem que esse progresso pode não ser tão sólido quanto se pensava.

De acordo com o Vogue Business Size Inclusivity Report 2026 a representação de corpos plus-size nas passerelles internacionais está a cair de forma significativa. Depois de analisados 182 desfiles das coleções de outono/inverno de 2026, que reuniram 7.817 looks, o relatório apresenta um cenário pouco diverso no que diz respeito aos tamanhos utilizados pelas modelos: 97,6% das modelos utilizaram peças com tamanhos considerados straight-size (entre o 34 e o 40 EU), enquanto apenas 0,3% desfilaram com looks pertencentes à categoria plus-size. Estes números tornam-se ainda mais relevantes quando colocados em perspetiva com outros contextos. Por exemplo, na África do Sul, o tamanho médio das mulheres situa-se entre o 18 e o 20 (50 e 52 EU), precisamente aquilo que a indústria da moda classifica como plus-size. Então, nesse caso, aquilo que é normal fora das passerelles continua a ser uma exceção dentro delas.

Mas o problema não se resume a estatísticas e a percentagens de modelos com corpos XS ou L. O problema começa em quem decide quem desfila. A responsabilidade está, em grande parte, nas mãos das próprias marcas, sugerem os especialistas na área. Chloe Rosolek, diretora de casting, afirma à mesma publicação que "há muitas mulheres com curvas prontas para desfilar”. Também o designer Michael Ludwig manifesta a sua preocupação nesta mudança gradual que se tem vindo a manifestar na indústria da moda: se, no passado, havia maior liberdade para trabalhar com diferentes tipos de corpo, hoje essa diversidade tem vindo a desaparecer  e muitas vezes em função da necessidade de acomodar vários designers num mesmo desfile.

Um aspeto interessante e que, se calhar explica uma grande parte deste problema, é o momento temporal em que este recuo se manifesta. A estética dos anos 90 e 00 está a viver um hype - desde a maneira de arranjar o cabelo, a magreza extrema como sinónimo de ideal beleza até ao padrão polka dots em tudo o que é peça de roupa. A crescente visibilidade dereforça ainda mais esta pressão silenciosa e é claro que as passerelles se alinham com os "ideais do momento".

Esta tensão faz-se sentir. No mesmo relatório, 48% dos consumidores admite sentir pressão para perder peso para 'estar na moda'. Essa sensação nasce de vários lados: da dificuldade em encontrar tamanhos nas lojas, das imagens vistas nas passerelles e das campanhas das próprias marcas. Um impacto diário que não é apenas físico, mas também psicológico e emocional. E não é apenas sobre o tamanho da roupa: mulheres mais velhas, por norma as que consomem mais peças de roupa vistas em desfiles de moda, acabam por sentir que 'a idade que têm' já não lhes permite confiar na sua beleza natural e quanto mais jovens parecerem 'mais na moda' estão.

Face a todas estas evidências, surge uma questão: até que ponto a inclusão apresentada pela indústria da moda é genuína? É certo que muitas marcas continuam a apostar em diversidade visual (tanto nos desfiles como em campanhas), no entanto, não disponibilizam essas peças em tamanhos maiores. De que serve "mostrar" que existe inclusão quando, mais tarde, não é dada a possibilidade de compra dessas peças para mulheres plus-size?  É lógico que existe uma resposta padrão - "não há procura suficiente" - mas o report da Vogue Business mostra uma realidade mais complexa: a oferta de tamanhos maiores é bastante limitada, o investimento em marketing é reduzido e, durante alguns anos, os consumidores plus-size foram excluídos do universo do luxo. O que é que isto gerou? Hábitos de consumo fora desse circuito. Ou seja, a falta de procura pode ser, em grande parte, uma consequência direta da própria exclusão.

Chegar a um público não é imediato e o plus-size não é exceção. E esse é, talvez, o ponto-chave: construir relações com um público requer consistência, estratégia e tempo de espera, testar coleções, investir em modelagem, em tecidos e em comunicação... No entanto, muitas marcas desistem cedo demais por quererem resultados imediatos. Mais do que uma tendência, a inclusão exige continuidade. E, pelos dados, essa ainda está longe de ser garantida.

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