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Por que é que estamos a ter cabelos brancos cada vez mais cedo?

E por que é que ainda vemos os cabelos brancos como algo a corrigir?

Cabelos brancos precoces: causas e possíveis reversões
Cabelos brancos precoces: causas e possíveis reversões Foto: Pexels
27 de março de 2026 às 14:03 Safiya Ayoob

Lembro-me perfeitamente do momento. Estava no secundário quando dei por mim a reparar nos primeiros fios brancos a surgir no meu cabelo. Primeiro um, depois dois - e, sem grande aviso, uma pequena faixa prateada instalou-se na parte de baixo do meu cabelo. Hoje tenho 24 anos e cabelos brancos. Com uma cor tão escura como a minha, não há como disfarçar - ao contrário do que acontece com quem é loiro. Ainda assim, nunca foi algo que me tirasse o sono.

O que sempre me intrigou mais não foram os fios em si, mas as reações à sua existência. “Porque é que não os pintas?”, “não te incomoda?” - perguntas que surgem com uma naturalidade desconcertante. Como se fosse obrigatório esconder algo que é, no fundo, absolutamente natural. Nunca senti essa urgência. É só cabelo. E talvez mude de ideias com o tempo, mas há algo nesta obsessão coletiva em apagar sinais visíveis do corpo que me deixa desconfortável. Afinal, qual é o problema?

Ainda assim, é impossível não questionar o “porquê” de tudo isto acontecer tão cedo. Crescemos com a ideia de que os cabelos brancos são um símbolo do tempo - da sabedoria, das histórias vividas, das décadas acumuladas. Mas a realidade tem vindo a contrariar essa narrativa. Cada vez mais pessoas, cada vez mais jovens, começam a notar os primeiros fios antes dos 30. A explicação mais imediata - e correta - é a genética. Se os pais começaram cedo, é bastante provável que também comecemos. Mas essa não é, de todo, a única razão.

Segundo David Saceda, tricologista, em declarações à Glamour Espanha, “os cabelos grisalhos aparecem como consequência da perda progressiva de melaninano folículo capilar, que é o pigmento responsável pela cor do cabelo. Com o tempo, os melanócitos […] diminuem a atividade, fazendo com que o cabelo cresça sem cor”. Ou seja, o cabelo não “muda” - ele cresce já sem pigmento. É um processo biológico natural, associado ao envelhecimento, mas que não segue o mesmo ritmo em todas as pessoas.

E aqui entra um dos maiores mitos contemporâneos: o stress. Quantas vezes já ouvimos dizer que “ficámos com cabelos brancos por causa do stress”? A resposta não é assim tão linear. Robert H. Shmerling, editor sénior da Harvard Health Publishing, esclarece: “Nos seres humanos, a maioria dos cabelos grisalhos não está relacionada com o stress. […] Assim que um fio de cabelo nasce, a cor fica definida.” Ou seja, aquele cabelo que já tens não vai perder cor de um dia para o outro.

No entanto, isso não significa que o stress esteja completamente fora da equação. Pelo contrário. A American Academy of Dermatology confirma que o stress pode acelerar o aparecimento de cabelos brancos ao interferir diretamente com os melanócitos - as células responsáveis pela pigmentação. Durante períodos prolongados de stress, o corpo entra em modo de “luta ou fuga” e liberta norepinefrina, uma hormona que pode levar à perda dessas células nos folículos capilares.

Castel Santana, diretor médico regional da 10X Health System, explica à Vogue Arabia que “o stress ativa o sistema nervoso simpático, o que esgota a reserva de células estaminais melanocíticas no folículo piloso, provocando, essencialmente, um envelhecimento prematuro do folículo”. Traduzindo: o stress pode não mudar a cor do cabelo que já existe, mas pode influenciar a forma como o próximo cresce.

Mas há mais fatores em jogo e alguns podem surpreender. Deficiências nutricionais, especialmente de vitamina B12 ou cobre, têm sido associadas ao aparecimento precoce de cabelos brancos. O mesmo acontece com o chamado stress oxidativo, um desequilíbrio no organismo que acelera o envelhecimento celular. Estilos de vida pouco equilibrados - desde noites mal dormidas a dietas pobres - também podem contribuir silenciosamente para este processo.

E a grande questão: é possível reverter? A resposta, mais uma vez, não é absoluta. Segundo Castel Santana, “a reversão é possível, mas depende de as células estaminais dos melanócitos estarem simplesmente dormentes ou permanentemente esgotadas”. Em alguns casos, especialmente em pessoas mais jovens, pode haver alguma repigmentação - entre 20% a 40%, podendo chegar a 50% quando as causas são tratadas precocemente. Mas quando essas células deixam de existir, o processo torna-se irreversível.

No meio de toda esta ciência, talvez a reflexão mais importante seja outra. Por que é que ainda vemos os cabelos brancos como algo a corrigir? Num mundo onde falamos tanto de autenticidade, aceitação e diversidade, continuamos a tratar os sinais naturais do corpo como falhas a esconder. Talvez esteja na altura de reescrever essa narrativa. Não como um sinal de envelhecimento precoce, mas como mais uma expressão do corpo em constante mudança. Afinal, se há algo verdadeiramente universal, é isto: nenhum de nós permanece igual para sempre.

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