Dia da Terra

Pode a moda ser (realmente) sustentável?

A Moda escreveu uma carta de amor ao planeta prometendo olhar por si como nunca o havia feito. Palavras como “sustentabilidade” brotam das marcas, ao lado de outras como “últimas tendências”. Será esta “vaga” um caso de amor puro, mas de puro interesse, ou trata-se de urgência inadiável? Resta conhecer a pureza das suas intenções. É que das boas já está o Inferno cheio.
Por Pureza Fleming, 22.04.2019

O que é que fazem Gigi Hadid e Halima Aden na capa da edição de setembro, deste ano, da revista CR Fashion Book, vestidas com T-shirts com o logótipo UNICEF bem destacado? A resposta surge em formato de coração que espreita entre as palavras bem-intencionadas da diretora do título, Carine Roitfeld, proferidas ao The Hollywood Reporter: "O estado do jornalismo de moda está em fluxo absoluto. Logo, para mim, o mais importante é usar a minha plataforma [a revista] para fazer o bem, para servir algo maior." Propondo-se fazer "o bem" e instituindo essa intenção como a tendência a adotar, a edição destinou-se a apelar à consciencialização para as questões da Síria e das crianças refugiadas. Também a escolha das modelos para darem rosto às capas não foi ocasional. Gigi Hadid é filha de Mohamed Hadid, um refugiado sírio nascido em Nazaré, na Palestina, e Halima Aden nasceu no campo de refugiados de Kakuma, no noroeste do Quénia, sendo hoje uma ex-refugiada. No seguimento da capa, ambas as modelos lançaram uma campanha de angariação de fundos que se encontra ativa no site crowdrise.com e que conta, à data, com um montante de 5.923 dólares (cerca de 5.100 euros). Mas as demonstrações de amor por um mundo melhor por parte do universo da moda não são propriamente novidade. Ainda há poucos meses, a Louis Vuitton renovou o contrato de compromisso com a UNICEF, assinado pela primeira vez em 2016, dando continuidade às pulseiras de cores fluorescentes Silver Lockit Fluo. A campanha continua comprometida em angariar fundos para apoiar crianças vulneráveis no mundo. Desde o lançamento da Silver Lockit naquele ano, a parceria angariou mais de 5 milhões de dólares em prol da UNICEF, para apoio humanitário a crianças em necessidade urgente e a famílias, como aquelas afetadas pela crise da Síria. Para ilustrar como esta contribuição fez a diferença, em 2017, um milhão e meio de crianças e as suas respetivas famílias, na Síria, foram abrangidas por um sistema de fornecimento de água. Também a inglesa Burberry anunciou que irá realizar uma campanha em parceria com a empresa de luxo sustentável Elvis & Kresse, a qual consiste em transformar 120 toneladas de sobras de pele em novos produtos, num prazo de cinco anos. É claro que a postura da marca surge no seguimento de um enxovalho de críticas de que foi alvo, o que faz questionar as (boas) intenções dessa Casa. É que antes destas decisões que funcionam em prol de um planeta melhor, a Burberry havia anunciado que, no último verão, tinha queimado dezenas de milhões de itens não vendidos, mas que o fez de um modo ambientalmente favorável. Na notícia avançada muito recentemente pelo The New York Times, aquela que é a maior marca de luxo britânica havia revelado no seu relatório e contas anual, que data de Julho passado, que "tinha sido queimado o equivalente a 28,6 milhões de libras em roupa e cosméticos", uma prática que defendia como sendo uma forma de "manter o valor da marca" para que essa esgotasse os produtos, de modo a evitar a venda em saldos, os roubos ou o contrabando que iriam "corroer" a imagem de prestígio da Burberry. Mas não é só o luxo que se mostra solidário, de vez em quando. A americana Kenneth Cole, por exemplo, vem demonstrando o seu lado humanitário, criando campanhas atrás de campanhas, cuja finalidade mais não é do que ajudar o próximo. Ou seja, auxiliar sem-abrigos, captar a atenção e diminuir o estigma dos problemas de saúde mental, a título de exemplo. No site da Kenneth Cole, no separador Look Good, For Good, poderão ser vistas as diversas campanhas realizadas pela marca. É correto afirmar que existe, de facto, um coração que bate dentro do universo da moda, tantas vezes descrito como frio e fútil. A questão é que todas estas campanhas nos levam a outra situação: para se participar e angariar fundos é preciso comprar. E comprar significa consumo. Quando o assunto é o bem-estar do planeta, continuaria a ser correto afirmar que wearing is caring?

Nunca houve bela sem senão

Há um paradoxo inevitável que surge quando se juntam os temas moda e sustentabilidade. Se moda é mudança e novidade, enquanto sustentabilidade implica a reutilização e continuidade, como podem estas conviver juntas em prol de um mundo melhor? De acordo com um relatório recente da Quantis, denominado Measuring Fashion, espera-se que haja, até 2030, um crescimento global da classe média de 3 mil milhões de pessoas, o que deve aumentar o consumo de moda em 65%. Ora, a moda representa 8,1% das emissões globais de gases de efeito de estufa, aproximadamente a mesma pegada da União Europeia. O que tais factos significam é que sem uma transformação da indústria da moda, o planeta terá sérias dificuldades. Não há água ou terra suficientes para cultivar essa quantidade de algodão e, mesmo se o fizesse, teria um impacto enorme no clima e nos ecossistemas. "São necessários 2.700 litros de água para se fazer uma T-shirt. Este valor equivale àquilo que uma pessoa bebe [em água potável] durante três anos." Converso com Ana Costa, fundadora da Baseville, uma marca sustentável, cujo conceito assenta na sustentabilidade e no apelo ao consumo consciente. Criada em 2017, a marca aposta nos básicos, como T-shirts, tank tops ou longsleeves, que surgem sempre em tons neutros. A ideia por detrás do conceito é contrariar o fast-fashion. Apostar em peças de qualidade que sejam também intemporais, combatendo o movimento do "mastiga e deita fora" que as marcas de grande consumo vêm fomentando. "Há demasiada informação, neste momento, que gera desinformação. São quatro os pilares em que deve assentar uma marca que se diga sustentável. São eles: o económico, que se relaciona com as margens de negócios e a partilha das mesmas margens; o social ou respeito social pelo ser humano e pelo seu trabalho; o pilar cultural que está intimamente ligado ao social e que deverá contrariar, a todo o custo, a chamada modern based slavery; e, por fim, o ecológico que tem a ver com o tipo de matérias-primas utilizadas e o processo levado a cabo", explica Ana Costa. E considera: "A realidade é que ser sustentável é diferente do que ter uma linha de algodão orgânica." Tocamos, assim, num dos pontos-chave da conversa: o problema que as marcas fast-fashion tentam resolver ao criar coleções-cápsula, ditas sustentáveis, porque são produzidas com uma base de matéria-prima orgânica, não resolve alguns dos principais problemas que o grande consumo de moda tem causado. Revendo os cinco pilares acima citados, que contribuem para que uma marca seja sustentável, o único que é respeitado é o ecológico. "Sustentabilidade é equilíbrio. É produzir em sítios éticos: países com legislação mais apertada sobre o assunto, como a Europa. Onde há fiscalização, onde é feita uma certificação da produção, onde se questiona se existem crianças a trabalhar, onde há lucro partilhado, mesmo que tal implique margens mais baixas para todos os lados. A Moda é algo universal, mas na parte criativa o mais provável é que quem esteja do lado da produção da peça seja uma mulher não caucasiana a trabalhar em condições miseráveis. Isto não é ético, nem universal", remata Ana Costa. Depois, há a questão do consumo, em si. Se as marcas fast-fashion criam desejos intermináveis no consumidor, inundando-o de novidades frescas a preços sedutores, então não está a fazer a sua parte na lição do consumo consciente. Em todo o caso, por respeito ao planeta ou simplesmente porque tem de ser assim, são algumas as empresas ou grupos de fast-fashion que têm demonstrado esforços no sentido de contribuir para um mundo melhor, enquanto mantêm os seus negócios vivos e aliciantes. No ano de 2015, a H&M Foundation, em colaboração com a Accenture e o KTH Royal Institute of Technology, de Estocolmo, criou o Global Change Award, um prémio com o objetivo de acelerar a mudança de um modelo linear em que o vestuário acaba, muitas vezes, em aterros, para um modelo circular em que os materiais podem ser reutilizados ou reciclados. Com mais de 8.000 inscrições de 151 países, desde 2015, esta competição já foi considerada o Prémio Nobel da Moda. Concede um financiamento substancial e um ano de coaching aos inovadores que criem soluções para instigar a mudança no sentido de uma indústria da moda circular, protegendo o planeta e as nossas condições de vida. Conforme afirmou Erik Bang, Innovation Lead da H&M Foundation, num artigo de opinião, "é necessário mais do que reciclar para se salvar o planeta". Acerca do programa levado a cabo pela gigante sueca, disse Karl-Johan Persson, membro do conselho de administração da H&M Foundation e CEO da H & M Hennes & Mauritz AB: "As ideias novas são os alicerces da mudança, mas dar-lhes escala é um desafio enorme para todos os inovadores. Em colaboração com os nossos parceiros Accenture e KTH Royal Institute of Technology, vimos vencedores anteriores retirarem anos ao calendário, graças ao nosso programa acelerador." É um esforço que vale a pena? Ana Costa acredita que sim e que todos os esforços valem a pena e mostra-se bastante positiva em relação ao cenário traçado: "Tenho a certeza que a sustentabilidade é uma coisa para ficar e que não se trata de uma moda. O consumidor está a mudar. Os millennials são mais alertas, atentos e informados. Eles não querem ter uma casa e um carro. Querem ter a experiência de se ter uma casa ou um carro. Por isso arrendam, dividem apartamentos e andam de Uber. Não querem ter uma carteira Chanel, mas, se calhar, querem ter uma Stella McCartney, que é reveladora das suas escolhas. Uma carteira assinada pela designer britânica é sempre uma peça sustentável, como é, aliás, tudo o que sai para a rua com etiqueta Stella McCartney. A experiência para os millennials está também associada à forma de como as peças chegaram até aos próprios." Mais do que amor interesseiro ou responsabilidade social, é a urgência da situação que grita pelos mais pequenos gestos por parte da Moda. Gestos que demonstrem que mais do que fútil, esta é uma indústria com um coração do tamanho daquilo que representa no mundo. E que Moda e planeta vivam felizes para sempre.
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