H&M x Stella McCartney. Duas décadas depois, uma nova coleção
As novas peças, incluindo a icónica T-shirt "Rock Royalty" ficam disponíveis dia 5 de maio.
Modelo veste vestido branco assimétrico da coleção H&M x Stella McCartney
Foto: H&M16 de abril de 2026 às 18:58 Safiya Ayoob
A nova colaboração entre Stella McCartney e a H&M assume-se como um exercício de memória, de continuidade e, sobretudo, de reposicionamento. Duas décadas depois da primeira parceria entre ambas - lançada em 2005, pouco depois da coleção de Karl Lagerfeld, quando a lógica das colaborações de luxo com o retalho de massas ainda conservava algum efeito de choque - esta nova coleção prefere revisitar o vocabulário da marca em vez de o reinventar à força. E nisso há uma forma de maturidade.
O que a H&M apresenta não é apenas uma cápsula comemorativa, mas uma espécie de retrospetiva editada da linguagem de McCartney: as camisas oversized, os trench coats amplos, a alfaiataria firme, os vestidos de malha canelada, os brilhos de festa, os estampados de arquivo, as referências a uma feminilidade descontraída, mas nunca passiva. A coleção cruza presente e passado com relativa destreza, recuperando peças e códigos que ajudaram a consolidar a assinatura da designer, sem os tratar como relíquias. Há aqui nostalgia, sim - por vezes até de forma muito direta, como na T-shirt branca com a inscrição "Rock Royalty”, uma referência visual que convoca o imaginário mais reconhecível do início da carreira de McCartney, incluindo a célebre aparição no Met Gala de 1999.
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Liv Tyler e Stella McCartney celebram Rock Royalty
Foto: Getty Images
Isso é particularmente interessante num momento em que tantas colaborações vivem da aceleração do desejo e do ruído digital, mais preocupadas em gerar urgência do que em construir discurso. Neste caso, o argumento parece ser outro: mostrar como Stella McCartney, hoje já instalada no estatuto de autora com arquivo, linguagem e legado, pode condensar 25 anos de carreira numa coleção acessível sem perder a nitidez do seu ponto de vista. Um ponto de vista que a afirmou como uma das vozes mais consistentes da moda contemporânea. Não se trata apenas de vender peças; trata-se de vender coerência. E, na moda contemporânea, a coerência continua a ser um bem mais raro do que a novidade.
Há também um gesto simbólico importante na forma como a coleção insiste em materiais com conteúdo reciclado, algodão orgânico, lã certificada e alternativas de base vegetal para materiais revestidos. No caso de Stella McCartney, esta dimensão não surge como adereço moral acrescentado à última hora. Faz parte da narrativa há muito tempo. Isso não elimina as contradições inerentes a uma operação desta escala, nem dissolve a tensão entre sustentabilidade e produção massificada. Mas dá à coleção uma espessura conceptual que muitas iniciativas semelhantes não conseguem atingir.
Modelo veste conjunto de pijama às riscas H&M x Stella McCartney e segura mala da colaboração
Foto: H&M
Talvez seja precisamente aí que surja a crítica mais previsível a esta colaboração. Como pode uma designer que construiu parte do seu estatuto a defender que é possível produzir luxo com outra consciência alinhar-se com uma gigante como a H&M, há muito associada à lógica do mercado massificado? A resposta da marca tenta enfrentar essa tensão de frente. “A H&M é realmente grande”, disse Ann-Sofie Johansson à Elle. “Com essa grande responsabilidade vem a capacidade de fazer parte da solução. Trabalhar juntos novamente coloca a sustentabilidade de volta na agenda, como também serve para inspirar as pessoas, despertar a sua curiosidade e encorajá-las a continuar a fazer perguntas.”
A própria McCartney, quando a parceria foi anunciada em dezembro, enquadrou a colaboração nesses termos: “Estou entusiasmada por voltar a colaborar com a H&M 20 anos após a nossa primeira parceria. Reinterpretar peças do meu arquivo trouxe-me tanta energia e alegria. Esta segunda parceria parece-me uma oportunidade para refletir sobre o caminho que percorremos em matéria de sustentabilidade, práticas livres de crueldade e designs conscientes - e para sermos honestos quanto ao caminho que ainda temos de percorrer, juntos.” E acrescentou: “Estou entusiasmada por ter a H&M a acompanhar-me neste caminho; a verdadeira mudança só acontece quando pressionamos tanto a partir do exterior como do interior, e sempre acreditei na importância de agir a partir de dentro para fazer avançar a indústria.”
Modelo veste Stella McCartney para H&M com calças cinzentas e top com o logótipo da marca
Foto: H&M
Esteticamente, a proposta move-se entre o polido e o lúdico. Há rigor na alfaiataria, como também leveza; há peças de impacto, mas sem excesso de teatralidade. Mesmo os elementos mais declaradamente nostálgicos - como os slogans, os brilhos ou os detalhes de cadeia Falabella - são enquadrados como parte de uma assinatura reconhecível, não como truques para captar atenção instantânea. O mesmo acontece com os acessórios, que reforçam uma ideia de desejabilidade pragmática: não apenas objetos de styling, mas peças pensadas para circular.
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No fundo, o mérito desta coleção está em perceber que a relevância não se fabrica apenas através da surpresa. Por vezes, constrói-se através da revisão: voltar ao que se fez, perceber o que resistiu ao tempo e reapresentá-lo com clareza. A nova Stella McCartney x H&M parece partir exatamente dessa premissa. Em vez de encenar uma reinvenção, prefere afirmar uma continuidade. E talvez seja isso que a torna convincente: não a promessa de algo radicalmente novo, mas a prova de que uma identidade forte continua a ser, ainda hoje, uma das formas mais eficazes de modernidade.
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