Cem anos de Marilyn Monroe, a mulher que estava (muito) à frente do seu tempo
Um século depois do nascimento de Norma Jeane Baker, o mundo volta a fixar-se na maior estrela de cinema de sempre, numa tentativa de conciliar tudo o que julga saber com aquilo que ficou por contar sobre o ícone cujo maior pecado foi não conseguir lidar com a sua complexidade.
Era uma loura burra. Para muitos, ainda é. O seu corpo era um milagre que desestabilizava a honra da sociedade conservadora de meados do século XX, que entendia os prazeres carnais como uma ofensa à moral e aos bons costumes. No auge da sua popularidade, era a personificação da ideia por detrás do filme O Pecado Mora ao Lado (1955). Tudo nela era excessivo: a beleza, a sensualidade, a forma de andar (depois da estreia de Niagara, em 1953, onde tem uma cena demasiado focada nos seus atributos físicos, ficou conhecida como “the girl with the horizontal walk”, ou “a rapariga com o andar horizontal”), o sussurro provocador com que falava, o olhar desarmante que lançava a qualquer intermediário, as roupas demasiado justas que “insistia” em usar.
Era uma loura burra que nem sequer era loura (o seu tom original de cabelo era castanho claro), uma pin up que arranjou o nariz para parecer “sofisticada”, uma modelo barata que mudou de nome para agradar aos executivos dos estúdios, uma eterna aspirante a “atriz séria” que fabricou o seu passado de forma a ser aceite pelo público. Nascida a 1 de junho de 1926 em Los Angeles, Norma Jeane Mortenson, depois batizada Norma Jeane Baker, foi o princípio de um terramoto chamado Marilyn Monroe, um mito avassalador que transcende tempo e espaço. Não há, nunca houve, alguém tão intrinsecamente cravado no imaginário popular como ela.
Décadas depois da sua morte, o fascínio pela sua figura mantém-se inalterado. Não há um “antes” e um “agora” - ela é inspiração, constante e atemporal, para artistas, curiosos, filósofos, designers, pensadores, músicos. Contudo, tal como escreve Gail Crowther, autora do recém-lançado Marilyn Monroe and Her Books: The Literary Life of Marilyn Monroe, “as reações ao legado de Monroe são complexas. É adorada, é ridicularizada, é o alvo de piadas, é venerada, é um estereótipo que resume a misoginia. O seu corpo (tanto em vida como após a morte) é examinado e julgado. É demasiado gorda. É demasiado magra. É bonita. É estúpida. Era desleixada. Era imaculada. Deixava migalhas na cama. Usava vaselina no rosto. Durante os anos em que Marilyn esteve viva, praticamente todas as características do seu físico foram analisadas minuciosamente.”
Os ataques surgiam, ainda surgem, de todos os lados, até de onde se esperava alguma empatia. Em 2000, a atriz e modelo Elizabeth Hurley disse à revista Allure: “Sempre achei que a Marylin Monroe era fabulosa, mas se eu fosse assim tão gorda, matava-me. Fui ver as roupas dela na exposição [referente ao leilão da Christie’s, realizado em Nova Iorque, em 1999, para vender o seu acervo] e apeteceu-me pegar numa fita métrica e medir as suas ancas. Ela era muito grande”. As suas declarações são, além de escandalosas, uma vergonha para tudo o que foi feito pelo movimento de emancipação das mulheres. Para memória futura e gáudio dos mais curiosos, note-se que, de acordo com o relatório do médico legista que realizou a autópsia, a atriz pesava 53 quilos.
Mais do que dissecar a sua biografia, amplamente difundida, importa relembrar os factos menos palpáveis. Marilyn Monroe, a celebridade, foi um poço de contradições. Era luminosa e insegura. Entre os seus papéis encontra-se a seguinte reflexão: “Pergunto a mim mesma do que tenho medo. Sei que tenho talento. Sei que sei representar. Bem, vai em frente, Marilyn. Sinto que ainda tento integrar-me nas pessoas, tento dizer-lhes o que querem ouvir. Isso também é medo. Todos devíamos começar a viver antes de ficarmos demasiado velhos. O medo é estúpido. E os arrependimentos também”. Não sabia quem era o pai, e isso fez com que a sua tristeza e nostalgia, por vezes, se confundissem com alienação. Só depois do seu desaparecimento é que muitas pessoas, nomeadamente mulheres, assumiram rever-se na sua fragilidade.
Como relembrou a jornalista e ativista Gloria Steinem, “até então, na verdade, ela tinha sido uma criação dos espectadores masculinos, principalmente fotógrafos e cineastas homens. […] As suas escolhas foram limitadas. Ela era uma sobrevivente, diria, e não uma pessoa fraca.” Era rica e bem sucedida - mas a única casa que comprou, e onde viria a falecer, era tudo menos um lugar de ostentação; em vez de joias, casacos de peles e peças de arte valiosíssimas, a vivenda de Brentwood tinha livros, muitos livros, mais de 400. Marilyn era uma leitora voraz. Lia Joyce, Keats, Shelley, Wolfe, Rilke, Proust. Porém, sempre que era fotografada com um livro, as pessoas interpretavam isso como uma espécie de piada. Ela era, afinal, uma loura burra. “Ela lê, não é?”, questionou o dramaturgo Clifford Odets, “como se ela fosse uma gazela premiada ou um chimpanzé genial”. Numa entrevista, ousaram perguntar-lhe pelos estômagos das baleias e pela bomba atómica, como se a inteligência fosse um acumular de conhecimentos aleatórios. Ela sabia melhor: "Quando se é famoso, tal como a nossa imagem e o nosso nome são amplificados e projetados em outdoors ou ecrãs de cinema, o mesmo acontece com todas as nossas fraquezas”, desabafou.
E era, acima de tudo, generosa - lutou pelos direitos LGBTQ+ quando o tema era um tabu, nomeadamente ao defender o colega Montgomery Clift, que era gay; sobre isso, declarou: “Rótulos - as pessoas adoram pôr rótulos umas nas outras. Isso faz com que se sintam seguras. Tentaram fazer de mim lésbica. Eu ri-me. Nenhum tipo de sexo é errado desde que exista amor”. Numa época de segregação racial, a sua amizade com Ella Fitzgerald tornou-se lendária. Tal como o seu à-vontade em falar nos “castings de sofá”, que punham em causa a subida a pulso de certas celebridades. Seria verdade o que se dizia sobre algumas atrizes? “É possível”, afirmou numa entrevista. “Mas não é por dormir com qualquer um que [alguém] se torna uma estrela. É preciso muito, muito mais do que isso. Mas ajuda. Muitas atrizes tiveram a sua primeira oportunidade dessa forma. A maioria dos homens é tão horrível que merecem tudo o que conseguirem tirar deles!”
Lutadora e visionária , em 1955 criou, com o fotógrafo Milton Greene, a sua própria produtora, Marilyn Monroe Productions, para poder interpretar os papéis que os estúdios insistiam em lhe negar. Nada disso bastou para fazer a feliz. Em 1954, escrevia, com ilusão: “Este é o fim da minha história sobre Norma Jeane… Mudei-me para um quarto em Hollywood para viver sozinha. Queria descobrir quem eu era. Quando escrevi ‘Este é o fim de Norma Jeane', corei como se tivesse sido apanhada numa mentira. Porque esta criança triste e amarga que cresceu demasiado depressa quase nunca sai do meu coração. Com o sucesso a rodear-me, ainda consigo sentir os seus olhos assustados a olhar através dos meus. Ela continua a dizer ‘Nunca vivi, nunca fui amada’, e muitas vezes fico confusa e penso que sou eu quem está a dizer isto”. Só que Norma Jeane nunca deixou de existir. Marilyn Monroe, tal como Norma Jeane, tinha um medo imenso de ser “louca como a mãe” (que morreu num hospício, como vários membros da sua família). Marilyn Monroe, tal como Norma Jeane, tomava “demasiados comprimidos” para colmatar problemas crónicos que lhe delinearam o futuro - as insónias, a endometriose, a depressão. Foi isso que a matou. Foi por isso que se matou - dizem. É também provável que Marilyn, a mulher que passou vida à procura de um abraço que nunca chegou, tenha sido vítima de um suicídio acidental.
Em 2012, no 50º aniversário da sua morte, de 4 para 5 de agosto de 1962, foi lançado Fragmentos, uma “recolha inédita de poemas, cartas e notas íntimas” da atriz - uma obra essencial que prova, através das suas próprias palavras, a sua complexidade e sagacidade. A edição portuguesa do livro conta com um magnífico prefácio do escritor António Tabucchi, que reflete sobre o lado intelectual de Marilyn, tantas vezes apagado da sua história, e a possibilidade de uma “outra vida” onde a sua aparência eletrizante não ofuscasse nem o seu talento nem a sua humanidade.
“Dentro deste corpo, que em certos momentos da sua vida Marilyn usou como se carregasse uma mala, vivia a alma de uma intelectual e de uma poetisa de que ninguém suspeitava. O que teria acontecido se Marilyn, em vez de ter essa extraordinária beleza que a tornou famosa através do cinema, tivesse sido uma mulher de aspecto banal? Teria publicado em vida o que vamos ler agora e, provavelmente, ter-se-ia suicidado como o fez Sylvia Plath. Teríamos dito dela, como de Sylvia Plath, que se tinha suicidado porque era demasiado sensível e inteligente, e as pessoas demasiado sensíveis e demasiado inteligentes sofrem mais do que as pessoas pouco sensíveis e pouco inteligentes e, tendencialmente, cometem suicídio (dizem os psiquiatras e as estatísticas). Porque se as pessoas pouco sensíveis e inteligentes tendem a ferir os outros, as pessoas que são muito sensíveis e muito inteligentes tendem a ferir-se a si próprias.”
Nunca saberemos como teria sido essa outra Marilyn. Talvez nem num universo alternativo esse outro destino fosse possível porque, vemos agora, estava condenada a ser aquilo que queriam dela - a sua transcendência foi o seu maior pecado. A sua imagem, construída minuciosamente por ela, pelos estúdios e pela imprensa, “era tão poderosa que resultou numa dissonância fundamental entre a realidade da sua personalidade e o leque de fantasias elaboradas que lhe eram projetadas”, escreve Andrew Wilson no recém-lançado I Wanna Be Loved By You: Marylin Monroe - A Life in 100 Takes. O dramaturgo Arthur Miller, com quem esteve casada quatro anos e meio, foi dos poucos que soube (quis?) ver para lá do óbvio. Na sua autobiografia, Timebends: A Life, publicada em 1987, afirmou: “Ela era uma poeta na esquina de uma rua, a tentar recitar para uma multidão que lhe puxava a roupa”.
Ao longo dos seus 36 anos de vida, Marilyn Monroe foi sucessivamente castigada por ser um símbolo sexual - e por ambicionar ser mais do que isso. O seu corpo, mais do que uma referência ou um ideal, tornou-se propriedade pública, um “campo de batalha” sobre o qual todos se julgavam no direito de opinar: os seus abortos, as suas doenças, as suas cirurgias, a sua (in)fertilidade, a sua sexualidade, tudo foi objeto de escrutínio, de crítica, de análise. Nem o seu cadáver escapou à profanação atroz dos media, que não hesitaram em violar o seu descanso final ao divulgar alegadas suspeitas sob o estado em que foi encontrada: com a manicure por fazer, as raízes do cabelo por pintar, as pernas por depilar - uma “sombra” do seu antigo eu. A resposta a todo esse ruído, que permanece ainda hoje tão ensurdecedor como aquando da estreia de Some Like It Hot (1959), foi dada pela própria Marilyn Monroe, a mulher que viveu duas vezes: “Nunca enganei ninguém. Deixei que as pessoas se iludissem a si próprias. Não se deram ao trabalho de descobrir quem e o que eu era. Em vez disso, inventavam uma personagem para mim. Eu não discutia com elas.”
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