Béhen AW26 na ModaLisboa: "Os valores da marca não mudam só porque há uma tendência x ou y"
Por mais uma estação, Joana Duarte aposta no que dura: tempo, cuidado e dedicação. Enquanto a gentrificação transforma ruas em vitrines, a Béhen mantém a tradição portuguesa viva, bordando o passado no presente.
Joana Duarte mantém tradição portuguesa na Béhen FW26, ModaLisboa
Foto: João Janot; Modelo: Maura Soares/Just Models14 de março de 2026 às 12:00 Patrícia Domingues
Sinto que, enquanto houver um baú esquecido num canto de uma casa portuguesa, haverá Béhen. A lógica é simples e poética: cada encontro com o passado pode revelar a roupa do futuro. Hoje, Joana Duarte apresenta a do presente.
A pesquisa é constante, e a introdução de técnicas novas (que, no fundo, já são velhas) define o amadurecimento da marca. Depois de nos lembrar da beleza do que é nosso, a Béhen cresceu com uma identidade própria, sólida e reconhecível. E surge uma pergunta que se reflete no espelho, que btw é um dos materiais-chave desta coleção: importa mais o ser bonito ou o ser verdadeiro? Na Béhen, não é preciso escolher, as peças falam por si. Lindas, bem-feitas, contemporâneas e autênticas.
PUB
A marca funciona uma contra-resposta às mudanças estruturais, preservando as artes ancestrais da moda portuguesa, em especial os bordados, que se tornam um refúgio seguro. Afinal, quando há alguém por trás de cada peça, é como um cordão umbilical que nunca se corta, feito de linhas que costuram cada criação saída do atelier Béhen.
Na edição Pebbling da ModaLisboa Joana Duarte, apresenta a coleção de outono/inverno Mirror, Mirror on the Wall, Who’s the Cutest of Them All?, e partilha com a Máxima algumas imagens do processo de criação, oferecendo um olhar íntimo sobre o coração da Béhen.
Joana Duarte mantém tradição portuguesa na Béhen FW26 na ModaLisboa
Foto: DR
Podes falar-nos um pouco sobre a nova coleção que apresentas nesta edição da ModaLisboa? Qual é a história ou o ponto de partida conceptual?
PUB
Mirror, Mirror on the Wall, Who’s the Cutest of Them All? é o nome desta coleção composta por peças “core” que a marca tem vindo a desenvolver e aprofundar ao longo dos últimos anos.
O título surge a partir de uma das novas técnicas introduzidas nesta coleção: o bordado manual de espelhos. Trata-se da primeira técnica não tradicional portuguesa integrada no portfólio da Béhen. Já tinha aparecido de forma pontual numa coleção anterior através de uma colcha antiga oriunda da região do Gujarat, mas desta vez os espelhos foram bordados manualmente em novas peças, em colaboração com o projeto Homelore, um coletivo de mulheres migrantes que reside em Lisboa. Existe também a questão do simbolismo: nos têxteis do Gujarat, os espelhos são usados nas peças como forma de afastar o mau-olhado.
Ao mesmo tempo, o nome reflete o facto de ser uma coleção pensada inteiramente para mulheres. Existe uma ideia de “cute” e de feminilidade assumida: peças construídas a partir de materiais mais clássicos e associados ao tailoring, mas reinterpretadas com cortes e detalhes mais playful e delicados.
A nível de materiais, é uma coleção que procura o melhor, trabalhando exclusivamente com fibras naturais: 100% lã, 100% algodão e 100% seda. Nos bordados, algumas das técnicas fazem já parte do portfólio da marca há vários anos, como o bordado com vidrilhos (contas de vidro), tradicional da região do Minho. Os desenhos foram desenvolvidos no atelier e muitos dos bordados foram feitos por mim J uma necessidade que surgiu do facto de bordar algumas das peças para ter melhor controlo no desenvolvimento das amostras e perceber o tempo que cada peça leva a ser executada. Nesta coleção introduzimos também novas contas/missangas (nunca sei exatamente o que chamar), em latão.
PUB
O burel tem finalmente um papel de destaque numa coleção nossa, um material que sempre despertou interesse por ser tão português e tradicional da zona da Serra da Estrela. Sobre o mesmo desenvolvemos o bordado de feltro tradicional da zona de Nisa, com desenhos também desenvolvidos pela equipa em atelier.
A técnica mais complexa desta edição são os “rabinhos de gato”, uma técnica feita manualmente nos xailes tradicionais em especial da zona de Nisa, realizada em 100% lã merino, mais uma pela equipa no atelier mas que mais tarde serão produzidos no Alentejo.
Pebbling, o tema desta edição, é o ato de oferecer pequenos gestos para criar ligação. Que sensações esperas que as tuas peças ofereçam a quem as veste/vê?
Acho que é uma excelente coleção que representa precisamente essa ideia de pequenos gestos e a importância que eles têm. Nos bordados, por exemplo, que muitas vezes são pequenos, mas demorados e complexos, está muito presente esse gesto manual. O fazer à mão, o crochet, as lérias, os rabinhos de gato… tudo são processos que exigem tempo, cuidado e dedicação.
PUB
São peças com um toque mais sóbrio e que mostram uma face diferente da marca, talvez mais madura a nível de design. Mas, ao mesmo tempo, cada peça tem esses pequenos gestos que são tão ricos em tempo e em trabalho manual, e que acabam por criar uma ligação especial entre quem faz a peça e quem a veste.
Na ModaLisboa, Béhen FW26 celebra tempo, cuidado e tradição portuguesa
Foto: DR
Que referências - artísticas, culturais ou pessoais - influenciaram o teu processo criativo desta vez?
A pesquisa continua a passar muito por livros antigos e por bordados em toalhas antigas, encontrados em feiras ou nos enxovais de amigos e familiares. É um mix dessas “arcas de histórias” e objetos, com referências mais contemporâneas, mas acima de tudo, trata-se do exercício de criar peças com as quais me revejo e que refletem toda esta pesquisa que trago comigo.
PUB
"It takes a village" para criar uma coleção/marca. Quem é a tua aldeia?
A equipa de atelier, sem dúvida. Mas também todos os fornecedores, técnicos e parceiros que nos ajudam no dia a dia. É preciso muita confiança e cultivar relações próximas para conseguir dar vida a uma coleção, e a uma marca!
E, neste caso, inclui também os artesãos espalhados pelo país, que trabalham diferentes técnicas e saberes tradicionais e que acabam por ser uma parte essencial desta “aldeia”.
Há sempre uma história, ou várias, no processo de criar uma coleção. Quais os momentos mais conturbados desta?
PUB
Eu decidi bordar um dos vestidos cheio de vidrilhos, a peça com mais bordado que já fiz de sempre, em que a inspiração era representar as tradicionais “Algibeiras” mas numa peça de roupa. Arrependi-me a cada minuto mas depois de terminada, bordava ainda mais.
E quais os mais felizes?
Ter uma equipa com quem partilhar todo este universo! O processo de desenvolvimento no atelier é o que mais gosto.
Na ModaLisboa, Béhen FW26 celebra tradição e durabilidade com design bordado
Foto: DR
Que silhuetas ou formas definem esta coleção? Existe alguma peça-chave que represente particularmente bem o conceito?
Todas elas. Acho que, por me focar em coleções mais pequenas, cada peça acaba por ser realmente pensada. Não há looks ou peças feitas só porque sim, ou porque temos de apresentar um certo número de looks.
O que faz sentido e foi bem pensado, sim, faz-se. Fazer por fazer não se aplica à nossa prática.
Qual o teu momento preferido do teu desfile?
PUB
É uma relação amor-ódio mas o backstage!
No início do século 20, o principal objetivo das passerelles era a promoção e a venda de produtos - hoje, a runway tem muito mais significados. Qual é, para ti, o propósito de um desfile de moda?
Penso que esse propósito também se foi alterando com a evolução da Béhen. No início era mais sobre a criação de um universo e sobre mostrar materiais que eram tão próximos da maioria dos portugueses, como as mantas alentejanas, as carteiras de pão ou as colchas. Era a construção desse imaginário onde a Béhen existe.
Hoje em dia é mais sobre as peças em si e sobre uma relação mais comercial. Ou seja, pensar como é que essas peças e técnicas podem existir num contexto mais realista e no dia a dia.
PUB
Béhen FW26 na ModaLisboa celebra tradição portuguesa com bordados e design duradouro.
Foto: DR
Com a velocidade do mundo de hoje em dia, como fazer a tua marca destacar-se no meio de tanto ruído e criar o máximo de impacto?
Acho que é a consistência. O facto de manter sempre o mesmo universo. Mesmo que as coleções mudem nas cores, nos cortes e que o design vá amadurecendo, o universo base, as técnicas tradicionais e as inspirações continuam a ser as mesmas. Porque há uma “missão” e valores que são o core da Béhen e que não mudam só porque há uma tendência x ou y.
Como vês o presente da moda em Portugal? E o futuro?
PUB
Acho que, quanto mais conhecemos a indústria internacional e como as coisas funcionam, mais percebemos o quão difícil é realmente montar um projeto de moda, especialmente fora dos grandes centros como Paris, Londres ou Nova Iorque. É muito sobre ter as redes de contacto certas e estar no sítio certo à hora certa, e estar em Portugal torna o acesso a alguns desses contactos mais difícil. Daí a importância de existir apoio em Portugal dedicado à internacionalização.
No entanto, depende muito do tipo de marca. Não há uma fórmula única, e existem muitas formas de criar e vender roupa sem necessariamente entrar nos círculos mais ligados ao design ou às fashion weeks.
Joana Duarte mantém a tradição portuguesa na nova coleção Béhen FW26, na ModaLisboa
Foto: DR