Celebridades

Maria João Bastos: “A ditadura da idade ou da beleza não faz sentido”

Dona de uma beleza reforçada pela autoconfiança e de um talento que cresce com a força do trabalho, Maria João Bastos está de volta à produção nacional com a novela Na Corda Bamba, que estreou no passado mês de setembro, e a série A Espia, ainda em data a definir. Encontrámos uma atriz, que conta já com quase três décadas de carreira, assumidamente realizada mas numa constante descoberta do mundo e de si própria.
Por Carolina Carvalho, 09.10.2019

Saber sempre mais

Ao mesmo tempo que me mantenho a mesma pessoa, naquilo que são os meus valores e a minha essência, sinto também uma grande diferença na forma de viver. É uma coisa que a idade traz – a maturidade – e nos ensina a saborear e a saber viver melhor. Mas eu também tenho procurado. Sinto-me mais plena na forma como vivo a minha vida. A minha profissão tem provocado isso. Eu trabalho muito fora do trabalho. Ou seja, quando não estou envolvida num projeto, estou sempre a estudar. Às vezes faço cursos no estrangeiro porque há mais opções e é uma oportunidade para viajar, que é uma das coisas que mais gosto de fazer. Este trabalho de ator passa por um exercício muito introspetivo, por nos conhecermos a nós próprios enquanto a nossa ferramenta de trabalho. Será que alguma vez conseguimos o autoconhecimento total? Eu espero que não porque essa busca por querer saber mais é, de facto, aquilo que nos move. Depois há coisas em que acho que não mudei nada. Em relação à minha família sinto-me ainda aquela menina das minhas irmãs e da minha mãe.

Crescer entre mulheres

[Sendo a última de três irmãs] aprendi a partilhar e acho que isso acontece com todos os irmãos. E neste caso, como sou a mais nova e a bebé da família, eu era a boneca delas. Elas dividiam-me e eu tive de aprender a dividir-me entre elas. Aprendi o que é uma casa cheia com muito barulho e com muita confusão. Aprendi as coisas sobre o feminino porque cresci numa casa de mulheres. Provavelmente, o maior ensinamento que as minhas irmãs e a minha mãe me deram, e que mais guardo, foi o incentivo desafiador para me fazer correr atrás dos meus sonhos. A minha família sempre acreditou muito nos meus desejos – de ser atriz – e incentivavam-me em tom de desafio porque sabem que eu adoro desafios.

A primeira peça

Não me recordo [de quando pisei o palco pela primeira vez], mas devo ter insistido tanto com os meus pais e com os próprios organizadores de que aquele era o meu lugar que acabei por ser aceite no grupo de teatro amador de Benavente [de onde é natural], onde todos os membros eram mais velhos do que eu: deveria ter 12 ou 13 anos quando fiz a primeira peça. Era a minha mãe que me acompanhava para me pentear entre as mudanças de roupa. Era muito importante contar com a presença da minha mãe, do meu pai e delas [as irmãs] nas peças.

A decisão de ser atriz

Comecei muito cedo a dizer que queria ser atriz. A minha família foi o meu público. Eles gostavam de se sentar no sofá da sala e assistir às apresentações [caseiras]. Fui alimentando o sonho e esse sonho foi sendo alimentado. Lembro-me perfeitamente de a minha mãe estar a cozinhar enquanto eu, com uma revista nas mãos, fazia vozes a anunciar a programação da televisão. Também me lembro de cantar com o saleiro na mão [como se fosse um microfone]. Lembro-me de brincar sozinha no quarto, em frente ao espelho, de usar maquilhagem e roupa da minha mãe, enquanto imitava as personagens que via na televisão. Organizava festivais da canção e teatros em casa com as minhas irmãs. Chamava os meus vizinhos, vendíamos senhas para fazer algum dinheiro e montávamos todo um espetáculo na sala. Eu produzia tudo e adorava.

A importância das escolhas

O guião e a personagem são o que me faz aceitar ou declinar um projeto. Eu procuro sempre personagens que representem um desafio para a minha carreira. A minha escolha sempre foi a de construir uma carreira muito eclética e na qual eu pudesse apresentar trabalhos muito diferentes uns dos outros. Isso não acontece por acaso. É uma escolha que é feita e, para isso, é preciso dizer que não a alguns projetos e procurar outros que nos vão desafiar e fazer crescer. Cada personagem obriga-me a entrar num universo novo e numa realidade diferente da minha, coisa que eu adoro. Interessam-me as personagens que se aproximem do público e a ideia de "O que é que eu vou contar com esta personagem?".

Alimentar a imaginação

Ter mundo não é [o mesmo que] viajar. Pode-se viajar através de um livro, de um filme, de uma música… Ter mundo é ter a abertura de ver o mundo. É por isso que ler é das coisas mais importantes para um ator. Porque o nosso universo é feito também da nossa imaginação e se ela for constantemente estimulada voa inexplicavelmente.

A preparação das personagens

O António Fagundes disse-me, um dia, uma frase que eu nunca mais esqueci: "O meu trabalho está bem feito quando o público diz: ‘Isso é muito fácil!’ Isso acontece porque já fiz todo o trabalho difícil antes." A lição é que se tem de trabalhar muito para que, quando chega o momento de enfrentar o público, o trabalho esteja tão bem feito que saia de forma natural e pareça fácil. Cada personagem pede uma realidade diferente e eu mergulho num trabalho de imersão, muitas vezes. Quando fiz [o filme] O Último Condenado à Morte [RTP, 2009] e interpretei uma personagem francesa, fui viver para Paris durante um tempo. Quando regressei a Portugal, fui para Castelo de Vide, onde filmei e onde vivi algum tempo antes das filmagens para encarnar a Adelaide. Vestia a roupa dela, ia tomar café vestida de época [o filme desenrola-se no século XIX], tomava banho como ela tomava, lia o que ela lia. A Liliane Marise [a cantora a que deu vida na telenovela Destinos Cruzados, TVI, 2013] foi um trabalho muito minucioso. Tudo aquilo parecia muito natural, mas ela não tem nada a ver comigo. Houve outra personagem muito interessante, a da Vera Lagoa. O trabalho de preparação foi muito intenso emocionalmente. Eu fiz muita observação e contei com o apoio da família dela que me deu imenso material e que me emprestou joias e roupa para eu usar na série [Três Mulheres, RTP, 2018 e 2019]. O que há de comum em todas as preparações é a construção da personalidade da personagem e isso consegue-se através de ferramentas que dão trabalho a encontrar.

O papel da moda

Eu cresci muito ligada à moda através da minha mãe que tinha uma loja de roupa. Vínhamos a Lisboa escolher as peças ou íamos à FIL [Feira Internacional de Lisboa], onde as coleções eram apresentadas. Tudo aquilo era fascinante para mim. Em nenhum momento da minha vida, desde que tive contacto com a moda ou com o cinema, dissociei uma coisa da outra. Muito pelo contrário. E isso está muito claro no meu livro Life Style [Oficina do Livro, 2018]. Depois acabei por ir parar ao mundo da moda e trabalhar como modelo durante seis anos e adorei. Quando fui convidada para integrar a equipa da Elite recusei, porque não era esse o meu objetivo. Vim para Lisboa com 17 anos e, um ano depois, lembrei-me desse convite. Pensei: "Eu sei que não quero ser modelo, mas através da agência terei, com certeza, acesso a trabalhos em publicidade, castings para televisão e outras coisas que me vão ajudar a entrar nesse universo, acabada de chegar de uma vila." Quando entrei na agência avisei: "Eu venho, mas eu quero é ser atriz e ter acesso a castings de televisão." Pus as cartas na mesa e disseram-me: "Vamos ajudar-te a conquistar o teu sonho." Eu era fotogénica e camaleónica e viram ali uma oportunidade. Passado pouco tempo, comecei a trabalhar em publicidade e em editoriais de moda. Foi através da agência que consegui um casting de televisão na NBP. Depois não demorou muito até eu começar a trabalhar em televisão. Ainda conciliei as duas coisas, durante algum tempo, mas chegou uma altura em que quis apostar só na representação.

O Brasil como uma segunda casa

Eu estava em Portugal quando fui convidada para fazer a minha primeira novela na Globo, há 20 anos. Nunca tinha estado no Brasil e jamais imaginei que iria trabalhar na Globo, o que era um sonho antigo, mas que eu achava longínquo… Parti para o Brasil e para uma grande aventura. Fui extremamente bem recebida e tive uma identificação muito estranha com aquele país. Senti, desde o primeiro dia, que já pertencia ali. Já viajei e vivi em diversos locais onde gostei de estar, mas nunca tive essa sensação. Hoje, passados 20 anos, sinto o país como uma casa onde tenho uma vida construída, uma carreira e uma família brasileira, constituída pelos meus amigos de há 20 anos. Mas foi essa sensação de pertença que me deu o à-vontade e a confiança que me fizeram lá ficar durante cinco anos seguidos, logo no início. Depois desse período, fui gerindo a minha vida entre cá e lá porque também é muito importante para mim estar aqui, em Portugal, em casa, com a minha família e com o meu público português.

O Brasil, hoje

O Brasil atravessa um momento muito difícil. Entristece-me porque estou lá e vivo essa situação, diariamente, porque vejo as pessoas de quem gosto a passarem por episódios muito difíceis e porque me entristece ver um povo que ama tanto o seu país. Porque se há povo que ama o seu país é o povo brasileiro – desiludido e desacreditado. Espero que se encontre uma solução rapidamente, mas neste momento eu acho que [o Brasil] não está no caminho certo.

Novos projetos

O Mecanismo [Netflix, 2019] foi uma experiência muito importante para a minha carreira. Eu trabalhei com o José Padilha, que é um realizador que admiro imenso. [O Mecanismo] conta a história do Lava Jato, o maior caso de corrupção que existiu no Brasil. No entanto, tivemos uma grande liberdade para construir as personagens e no meu caso isso aconteceu, claramente. Eu não vi nada sobre a personagem real, nem tive contacto com ela. A minha personagem inicialmente era brasileira. Mas depois de escolherem uma atriz portuguesa, os realizadores consideraram que podia ser interessante que a personagem fosse uma portuguesa a viver no Brasil há 20 anos. Achei engraçado, fiquei contente e senti um certo orgulho. [Em Na Corda Bamba, TVI, 2019] não há brincadeira, [a personagem] é brasileira. As novelas do Rui Vilhena têm sempre um tom muito enigmático e de uma ironia sarcástica. A minha personagem é uma mulher muito inteligente que é capaz de escolher certos caminhos para atingir os seus objetivos e sempre com muita graça. É uma vilãzinha de que o público vai gostar. Também acabei de filmar A Espia [RTP], recentemente. Eu gosto muito destes projetos em que contamos a história de Portugal, nomeadamente retratando uma época tão rica como foi a da II Guerra Mundial, em que éramos um país neutro, mas, ao mesmo tempo, o maior palco de espionagem do mundo.

Volta ao mundo

O que realmente é especial nas viagens – e daí eu fazer tantas e tão longas – é sentir-me parte daquela cultura, de estudá-la, de ter tempo de conhecer as pessoas, de ter o meu apartamentozinho, de ter um sítio onde vou comprar o meu jornal e o meu pão, de chegar a cumprimentar algumas pessoas na rua. Isso é o que eu mais gosto nas minhas viagens. Posso viajar acompanhada e já o tenho feito, mas maioritariamente vou sozinha porque acabo por ficar, pelo menos, um mês. Prefiro essas viagens às viagens turísticas.

Talentos escondidos

Eu vou vivendo a vida à medida que os desafios vão surgindo. O que me motiva e o que me move é essa curiosidade, sinto uma constante vontade de explorar o que eu não conheço. E daí ter aceitado escrever o livro. Foi uma surpresa, como cantar também o foi. Eu desconhecia que sabia cantar. Não fazia ideia que conseguia estar em cima de um palco a cantar e a dançar durante duas horas seguidas e dei um concerto para 15 mil pessoas [depois do sucesso alcançado pela personagem Liliane Marise, que saltou do pequeno ecrã para o palco do então Pavilhão Atlântico]! Eu não sei o que por aí vem, nem quais são os talentos que eu tenho escondidos… Mas também quero ser surpreendida. Quem sabe se um dia eu voltarei a desenhar. Eu desenhava pelo prazer, mas desenhava bem vestidos de noiva. [Desenhar] era uma coisa que estava muito ligada a uma partilha com o meu pai e, depois de o perder, os desenhos ficaram guardados numa gavetinha de memórias boas. Também gosto de pintar. Eu fiz uma personagem que era pintora, a Suzana da [mini-]série Segredo [2005]. Fiz um enorme trabalho de preparação, pintei vários quadros e ofereci-os. Estou a dever um quadro ao Ruy de Carvalho. Trabalhámos juntos nesse projeto e ele adorava os quadros que eu pintava…

A ditadura da idade

Eu acredito que esse é um tabu que tem de ser quebrado. Temos de desmistificar essa ideia porque podemos trabalhar em qualquer idade. Efetivamente, a partir de uma certa idade as oportunidades de trabalho começam a ser escassas e eu considero que a luta aqui tem de ser outra: incentivar que as histórias tenham papéis para idades mais avançadas. Até porque os atores com mais idade têm muito mais experiência e muito mais para trazer para a cena. Não faz sentido na nossa profissão haver essa ditadura da idade ou da beleza. Isso é completamente despropositado e desnecessário. Muito pelo contrário, nós contamos histórias com pessoas bonitas e menos bonitas, novas e menos novas, de todas as classes sociais e etnias. História de humanos sem estereótipos. Deveria ser assim.

O segredo do sucesso

Eu sempre fui muito consciente dos sonhos que queria atingir e daquilo que tinha de trabalhar para conseguir alcançar os meus objetivos. Dedico-me muito à minha vida, não só profissional, mas também pessoal. Trabalho para conseguir aquilo que quero, nunca precisei de passar por cima de ninguém, mas sou uma lutadora. Eu corro atrás dos meus objetivos e não fico sentada à espera que me caiam no colo. E verdade é que poucas coisas me caíram no colo. A sorte dá muito trabalho e eu trabalhei muito, desde miúda, para estar preparada para o dia em que tivesse sorte e pudesse agarrar a oportunidade. Depois acredito em mim, nas minhas capacidades. Eu não penso que tenha algum talento extraordinário. Eu acho que tenho capacidade para trabalhar e visualizo aquilo que quero conquistar e acredito que vou conseguir. Isso aconteceu-me muitas vezes na vida e, às vezes, não acontece à primeira. O "Não" nunca me deteve. Pelo contrário, sempre me motivou.

 

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