De Virginópolis, Minas Gerais, a 15 milhões no Instagram. Como a maquilhagem mudou a vida de Camila Coelho
Camila Coelho construiu uma carreira que não cabe em rótulos: pioneira digital, empresária, referência de beleza e, acima de tudo, de autoconfiança para uma geração.
Durante o shooting num palácio de Lisboa, a música ia mudando de ritmo e a energia acompanhava-a como um reflexo: Alex Warren, Madonna, Karol G, Luísa Sonza. Camila ajusta o corpo a um compasso imaginário, ora rindo e trocando piadas com a equipa, ora — mal a lente lhe ficava a centímetros do rosto — ativando um "clique" quase coreografado. Há quem diga que as boas fotografias "acontecem"; com Camila, percebe-se que são construídas gesto a gesto, pelo ouvido e pelo olhar. Profissionalismo à flor da pele, talvez forjado em mais de uma década a viver diante de câmaras — uma profissão que, acima de tudo, exige vontade de se pôr em cena.
Num mundo saturado pela internet, a celebridade já não se faz apenas na televisão ou no cinema. Nasce no digital, multiplica-se em feeds e stories, mede-se em comunidades. Esta era deu-nos novas it girls e uma intimidade inédita com quem, antes, parecia inalcançável. Tal como Itália tem Chiara Ferragni e o Reino Unido Alexa Chung, o Brasil tem Camila Coelho, 37 anos, uma das primeiras criadoras de conteúdos digitais a transformar tutoriais caseiros num império próprio, continuando, tantos anos depois, a ditar tendências. Em Lisboa, durante a sessão para a Máxima, o maquilhador e cabeleireiro Alex Origuella confidencia-nos que entrou na profissão por causa dos vídeos que ela gravava, sentada no quarto. Um "full circle moment", disse ele, erguendo o pincel como quem cumpre um destino. Quantos "Alex" existirão pelo mundo? Quando nos voltamos a encontrar — desta vez por videochamada —, Camila está no Brasil, entre campanhas e uma pausa para descansar. "Estou de férias em Minas [Gerais], onde estou a construir o meu rancho. Estou com a minha família, o meu filho, a minha mãe, os meus irmãos...É um lugar onde me desconecto a 100%. Eu digo sempre que as minhas férias de verdade são em Minas... Conecto-me muito com a natureza, com os meus cavalos e com a minha família."
Camila não é apenas a imagem que devolve à câmara. É também a história que carrega. Essa história começou em Virginópolis, uma cidade pequena de Minas Gerais, onde cresceu rodeada pelos primos. "Eu tive a melhor infância do mundo", recorda. "A liberdade de brincar na rua, de estar na fazenda, de estar sempre em contacto com a natureza... é isso que quero trazer também para o meu filho." O irmão mais velho de Camila, Maurício, conta-nos que se lembra dela como "a irmã mais feliz e genuína", sempre a dançar no quarto com o rádio ligado, já com uma paixão precoce por moda e beleza. "Nunca saía de casa sem o cabelo arranjado e um batom vermelho-vivo. E hoje, ao vê-la conquistar tanto e continuar a mesma pessoa, sinto-me o irmão mais orgulhoso do mundo."
Aos 14 anos, a mudança para os Estados Unidos trouxe-lhe o peso do deslocamento. Nova língua, nova cultura, novo corpo social. "Eu me sentia tão diferente de todo o mundo... Isso me fazia também sentir um pouco insegura." Mas a diferença não se resumiu apenas à cultura. Diagnosticada com epilepsia aos nove anos, a adolescência trouxe-lhe o confronto entre a vontade de "ser igual a toda a gente" e a disciplina do tratamento. "Parei de tomar o meu medicamento sem dizer à minha mãe... e acabei por ter uma crise na escola, onde toda a gente viu." Acordou no hospital à espera de um raspanete; recebeu uma lição. "Quantas pessoas lutam todos os dias pela vida?... E tu... é só tomares um comprimido por dia", disseram-lhe. A partir desse momento, a sua atitude mudou. Mais tarde, em 2020, quando tentava engravidar, decidiu falar pela primeira vez publicamente sobre o tema, num gesto de vulnerabilidade que a tornou ainda mais próxima dos seus milhões de seguidores. "Pensei comigo: quantas mulheres também não estarão a passar pelo que eu passo?" O impacto foi imediato: recebeu mensagens de todo o mundo, pessoas que lhe quiseram agradecer, partilhas de experiências, mulheres que encontraram ali um apoio inesperado. Desde então colabora com a Epilepsy Foundation, usando a sua visibilidade para dar voz à doença.
Foi também essa lógica que esteve na origem da sua carreira. Antes de ser um nome global, Camila Coelho trabalhava no balcão da Dior, em Boston. "As mulheres chegavam e saíam literalmente empoderadas. Falei comigo mesma: é esse o sentimento que eu quero dar." Em 2010, criou um canal de YouTube. As gravações eram caseiras, a luz improvisada, mas a proximidade era total. Seguiu-se um blogue, depois o Instagram, e em pouco tempo as marcas começaram a enviar produtos, convites, propostas. "A primeira vez que uma marca me mandou uma caixa de produtos, eu pensei: 'Uau, isto está a ficar sério.'"
O "sério" depressa se transformou em estrutura. Vieram as semanas de moda internacionais, os convites para as primeiras filas, as colaborações com gigantes da cosmética e da moda, as capas de revistas de referência. Em 2019, subiu as emblemáticas escadas do Met Gala, um dos eventos mais importantes para a indústria da moda, a angariação de fundos para o Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque. Seis anos mais tarde, em 2025, integrou a lista dos 100 mais influentes da revista TIME. Não como exceção, mas como representante de uma geração que transformou o digital em capital cultural.
"Camila é uma pessoa excecional", conta Ícaro, marido da empreendedora. "O seu caráter autêntico atrai naturalmente as oportunidades. Vê-la crescer de maquilhadora e criadora de conteúdos no YouTube a empresária é um privilégio." Porém, Ícaro insiste em lembrar aquilo que o ecrã não mostra: "O que mais admiro nela é o quanto é uma mãe extraordinária. O Kai tem a maior sorte do mundo em tê-la."
A maternidade foi, de facto, um ponto de viragem. Não apenas porque cumpriu um desejo antigo, mas porque reorganizou as suas prioridades. "Ser mãe é descobrir o que é amor de verdade... A minha prioridade é o meu filho, a minha família." Se antes a disponibilidade para viagens, campanhas e reuniões era infinita, hoje há uma bússola clara: dizer "não" sempre que o trabalho ameaça devorar o tempo pessoal.
Quem a conhece de perto garante que a mulher pública e a privada não se contradizem. "Ela muda logo a energia de uma sala, não porque seja barulhenta, mas porque tem uma energia calorosa que faz todos se sentirem incluídos", diz Dafne Evangelista, amiga próxima de Camila. Lembra o primeiro encontro, na cozinha de um set já vazio: "Recebeu-me como se já me conhecesse há anos. Foi tão genuína." E acrescenta, divertida: "Às vezes estamos num quarto de hotel e ela diz 'vamos treinar!', dois minutos depois: 'Na realidade vamos comer chocolate.' Esse lado espontâneo, generoso, é muito dela."
A carreira de Camila também foi feita de recusas. Ao longo dos anos, disse "não" a propostas milionárias que poderiam comprometer a sua imagem. Optou por lançar as suas próprias marcas - uma de moda, outra de beleza -, controlando cada etapa do processo: "Produto, inspiração, design, marketing." Delegar foi o maior desafio: "O meu nome já era uma marca, por isso foi uma grande responsabilidade." Aprendeu a confiar na equipa e a aceitar que um império pessoal também exige gestão coletiva.
Não é por acaso que continua relevante tanto tempo depois de começar. A sua trajetória é menos sobre ser pioneira por acaso e mais sobre compreender, desde cedo, que a influência digital é um espaço de curadoria, caráter e consistência.
Hoje, olha para o futuro sem pressa. "Daqui a 10 anos, eu vou ter 47... Eu penso num próximo desafio... Talvez um programa de Tv, mas não tenho nada certo." O que tem certo é o desejo de expandir a família, de dar um irmão para o Kai, de manter vivas as raízes de Minas, de continuar a crescer com as suas marcas sem ceder à pressa, uma quase contradição num mundo obcecado por isso mesmo. Na verdade, Camila Coelho sempre soube fazer diferente. Foi uma das primeiras a provar que a câmara de um quarto podia ser um palco global, que a vulnerabilidade pode ter lugar numa narrativa pública. Hoje, mostra que moda, beleza, maternidade e negócios podem coexistir sem que se perca a personalidade. Talvez o segredo esteja naquele "clique" que vimos na sessão fotográfica: um instante de foco absoluto, em que o ruído para, a música comanda e a imagem - construída com rigor - devolve, sem filtros, quem ela sempre foi.
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