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Máxima

Celebridades

De Virginópolis, Minas Gerais, a 15 milhões no Instagram. Como a maquilhagem mudou a vida de Camila Coelho

Camila Coelho construiu uma carreira que não cabe em rótulos: pioneira digital, empresária, referência de beleza e, acima de tudo, de autoconfiança para uma geração.

Vestido em seda Maison Margiela na Stivali Boutiques.
Vestido em seda Maison Margiela na Stivali Boutiques. Foto: MARIA RITA / MÁXIMA
06 de janeiro de 2026 às 12:46 Safiya Ayoob

Durante o shooting num palácio de Lisboa, a música ia mudando de ritmo e a energia acompanhava-a como um reflexo: Alex Warren, Madonna, Karol G, Luísa Sonza. Camila ajusta o corpo a um compasso imaginário, ora rindo e trocando piadas com a equipa, ora — mal a lente lhe ficava a centímetros do rosto — ativando um "clique" quase coreografado. Há quem diga que as boas fotografias "acontecem"; com Camila, percebe-se que são construídas gesto a gesto, pelo ouvido e pelo olhar. Profissionalismo à flor da pele, talvez forjado em mais de uma década a viver diante de câmaras — uma profissão que, acima de tudo, exige vontade de se pôr em cena.

Num mundo saturado pela internet, a celebridade já não se faz apenas na televisão ou no cinema. Nasce no digital, multiplica-se em feeds e stories, mede-se em comunidades. Esta era deu-nos novas it girls e uma intimidade inédita com quem, antes, parecia inalcançável. Tal como Itália tem Chiara Ferragni e o Reino Unido Alexa Chung, o Brasil tem Camila Coelho, 37 anos, uma das primeiras criadoras de conteúdos digitais a transformar tutoriais caseiros num império próprio, continuando, tantos anos depois, a ditar tendências. Em Lisboa, durante a sessão para a Máxima, o maquilhador e cabeleireiro Alex Origuella confidencia-nos que entrou na profissão por causa dos vídeos que ela gravava, sentada no quarto. Um "full circle moment", disse ele, erguendo o pincel como quem cumpre um destino. Quantos "Alex" existirão pelo mundo? Quando nos voltamos a encontrar — desta vez por videochamada —, Camila está no Brasil, entre campanhas e uma pausa para descansar. "Estou de férias em Minas [Gerais], onde estou a construir o meu rancho. Estou com a minha família, o meu filho, a minha mãe, os meus irmãos...É um lugar onde me desconecto a 100%. Eu digo sempre que as minhas férias de verdade são em Minas... Conecto-me muito com a natureza, com os meus cavalos e com a minha família."

Vestido em seda Maison Margiela na Stivali Boutiques.
Corpete em ganga, Jean Paul Gaultier na Stivali Boutiques. Anéis, Tiffany and Co. Foto: MARIA RITA / MÁXIMA

Camila não é apenas a imagem que devolve à câmara. É também a história que carrega. Essa história começou em Virginópolis, uma cidade pequena de Minas Gerais, onde cresceu rodeada pelos primos. "Eu tive a melhor infância do mundo", recorda. "A liberdade de brincar na rua, de estar na fazenda, de estar sempre em contacto com a natureza... é isso que quero trazer também para o meu filho." O irmão mais velho de Camila, Maurício, conta-nos que se lembra dela como "a irmã mais feliz e genuína", sempre a dançar no quarto com o rádio ligado, já com uma paixão precoce por moda e beleza. "Nunca saía de casa sem o cabelo arranjado e um batom vermelho-vivo. E hoje, ao vê-la conquistar tanto e continuar a mesma pessoa, sinto-me o irmão mais orgulhoso do mundo."

Vestido em seda Maison Margiela na Stivali Boutiques.
Vestido em seda, Simkhai na Stivali Boutiques. Pulseira, Tiffany and Co. Sabrinas em pele, Alaia. Foto: MARIA RITA / MÁXIMA

Aos 14 anos, a mudança para os Estados Unidos trouxe-lhe o peso do deslocamento. Nova língua, nova cultura, novo corpo social. "Eu me sentia tão diferente de todo o mundo... Isso me fazia também sentir um pouco insegura." Mas a diferença não se resumiu apenas à cultura. Diagnosticada com epilepsia aos nove anos, a adolescência trouxe-lhe o confronto entre a vontade de "ser igual a toda a gente" e a disciplina do tratamento. "Parei de tomar o meu medicamento sem dizer à minha mãe... e acabei por ter uma crise na escola, onde toda a gente viu." Acordou no hospital à espera de um raspanete; recebeu uma lição. "Quantas pessoas lutam todos os dias pela vida?... E tu... é só tomares um comprimido por dia", disseram-lhe. A partir desse momento, a sua atitude mudou. Mais tarde, em 2020, quando tentava engravidar, decidiu falar pela primeira vez publicamente sobre o tema, num gesto de vulnerabilidade que a tornou ainda mais próxima dos seus milhões de seguidores. "Pensei comigo: quantas mulheres também não estarão a passar pelo que eu passo?" O impacto foi imediato: recebeu mensagens de todo o mundo, pessoas que lhe quiseram agradecer, partilhas de experiências, mulheres que encontraram ali um apoio inesperado. Desde então colabora com a Epilepsy Foundation, usando a sua visibilidade para dar voz à doença.

Vestido em seda Maison Margiela na Stivali Boutiques.
Vestido em seda, Simkhai na Stivali Boutiques. Pulseira, Tiffany and Co. Sabrinas em pele, Alaia. Foto: MARIA RITA / MÁXIMA

Foi também essa lógica que esteve na origem da sua carreira. Antes de ser um nome global, Camila Coelho trabalhava no balcão da Dior, em Boston. "As mulheres chegavam e saíam literalmente empoderadas. Falei comigo mesma: é esse o sentimento que eu quero dar." Em 2010, criou um canal de YouTube. As gravações eram caseiras, a luz improvisada, mas a proximidade era total. Seguiu-se um blogue, depois o Instagram, e em pouco tempo as marcas começaram a enviar produtos, convites, propostas. "A primeira vez que uma marca me mandou uma caixa de produtos, eu pensei: 'Uau, isto está a ficar sério.'"

Vestido em seda Maison Margiela na Stivali Boutiques.
Blusa em algodão, Chloé na Stivali Boutiques. Saia em lã, Alaia na Stivali Boutiques. Colar usado como body chain, Tiffany and Co. Foto: MARIA RITA / MÁXIMA

O "sério" depressa se transformou em estrutura. Vieram as semanas de moda internacionais, os convites para as primeiras filas, as colaborações com gigantes da cosmética e da moda, as capas de revistas de referência. Em 2019, subiu as emblemáticas escadas do Met Gala, um dos eventos mais importantes para a indústria da moda, a angariação de fundos para o Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque. Seis anos mais tarde, em 2025, integrou a lista dos 100 mais influentes da revista TIME. Não como exceção, mas como representante de uma geração que transformou o digital em capital cultural.

"Camila é uma pessoa excecional", conta Ícaro, marido da empreendedora. "O seu caráter autêntico atrai naturalmente as oportunidades. Vê-la crescer de maquilhadora e criadora de conteúdos no YouTube a empresária é um privilégio." Porém, Ícaro insiste em lembrar aquilo que o ecrã não mostra: "O que mais admiro nela é o quanto é uma mãe extraordinária. O Kai tem a maior sorte do mundo em tê-la."

A maternidade foi, de facto, um ponto de viragem. Não apenas porque cumpriu um desejo antigo, mas porque reorganizou as suas prioridades. "Ser mãe é descobrir o que é amor de verdade... A minha prioridade é o meu filho, a minha família." Se antes a disponibilidade para viagens, campanhas e reuniões era infinita, hoje há uma bússola clara: dizer "não" sempre que o trabalho ameaça devorar o tempo pessoal.

Vestido em seda Maison Margiela na Stivali Boutiques.
Vestido em algodão, Béhen. Pulseira no pé, Tiffany and Co. Sandálias em pele, Gianvito Rossi na Stivali Boutiques. Foto: MARIA RITA / MÁXIMA

Quem a conhece de perto garante que a mulher pública e a privada não se contradizem. "Ela muda logo a energia de uma sala, não porque seja barulhenta, mas porque tem uma energia calorosa que faz todos se sentirem incluídos", diz Dafne Evangelista, amiga próxima de Camila. Lembra o primeiro encontro, na cozinha de um set já vazio: "Recebeu-me como se já me conhecesse há anos. Foi tão genuína." E acrescenta, divertida: "Às vezes estamos num quarto de hotel e ela diz 'vamos treinar!', dois minutos depois: 'Na realidade vamos comer chocolate.' Esse lado espontâneo, generoso, é muito dela."

A carreira de Camila também foi feita de recusas. Ao longo dos anos, disse "não" a propostas milionárias que poderiam comprometer a sua imagem. Optou por lançar as suas próprias marcas - uma de moda, outra de beleza -, controlando cada etapa do processo: "Produto, inspiração, design, marketing." Delegar foi o maior desafio: "O meu nome já era uma marca, por isso foi uma grande responsabilidade." Aprendeu a confiar na equipa e a aceitar que um império pessoal também exige gestão coletiva.

Não é por acaso que continua relevante tanto tempo depois de começar. A sua trajetória é menos sobre ser pioneira por acaso e mais sobre compreender, desde cedo, que a influência digital é um espaço de curadoria, caráter e consistência.

Vestido em seda Maison Margiela na Stivali Boutiques.
Top com franjas em licra, Paco Rabanne na Stivali Boutiques. Calções, Wardrobe NYC. Sandálias em pele, Bottega Veneta. Pulseira, Tiffany and Co. Foto: MARIA RITA / MÁXIMA

Hoje, olha para o futuro sem pressa. "Daqui a 10 anos, eu vou ter 47... Eu penso num próximo desafio... Talvez um programa de Tv, mas não tenho nada certo." O que tem certo é o desejo de expandir a família, de dar um irmão para o Kai, de manter vivas as raízes de Minas, de continuar a crescer com as suas marcas sem ceder à pressa, uma quase contradição num mundo obcecado por isso mesmo. Na verdade, Camila Coelho sempre soube fazer diferente. Foi uma das primeiras a provar que a câmara de um quarto podia ser um palco global, que a vulnerabilidade pode ter lugar numa narrativa pública. Hoje, mostra que moda, beleza, maternidade e negócios podem coexistir sem que se perca a personalidade. Talvez o segredo esteja naquele "clique" que vimos na sessão fotográfica: um instante de foco absoluto, em que o ruído para, a música comanda e a imagem - construída com rigor - devolve, sem filtros, quem ela sempre foi.

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