Mulheres que deram o máximo. Graça Lobo: "Os homens são tão infantis, tão inúteis. Nós não dependemos deles!"

Antes de hashtags e manifestos virais, houve mulheres que abriram caminho com palavras firmes - esta rubrica recupera as suas entrevistas para a Máxima. Afinal, voltar ao passado é, também, um gesto de futuro.

Graça Lobo, atriz contestatária, aplaudida e criticada, mostra faceta insinuante e sedutora Foto: Jorge Paula
26 de janeiro de 2026 às 16:07 Maria do Céu Avelar e Eduardo Grilo

Chegámos pontualmente à casa de Graça Lobo. Aliás, à grande casa de Graça Lobo. Nem ela seria capaz de se contentar em viver num espaço pequeno e reduzido na luz. Por isso, a casa, com vista para a cidade, é espaçosa e bem iluminada. Domina parte de Lisboa. As paredes, brancas, estão quase revestidas por grandes telas ou por desenhos pintados por Júlio Pomar, com Graça omnipresente. Retratos desconcertantes. Talvez insondáveis. Afinal, como a musa inspiradora do artista.

Ela dá a sensação de estar sempre na dianteira. Um bom exemplo? Quando chegámos, Graça Lobo tinha escrito o seu ponto de vista sobre os homens. Publicamo-lo à parte, para que conste. Sabia que pretendíamos que falasse sobre si, como mulher, e do seu relacionamento com o universo masculino. Deixámos, propositadamente para trás, Ibsen, Beckett, Feydeaut, Coward. Não falámos das Cartas Portuguesas, de Molly Bloom, da Carne Cor de Rosa Encarnada ou de Boulevard, Boulevard, a mais recente produção da Companhia de Teatro de Lisboa, que Graça Lobo dirige Ouvimo-la falar sobre as suas paixões. Fatalmente acabámos por falar do Teatro. É impossível, com Graça Lobo, dissociar a mulher da atriz. A última está-lhe no sangue. Rebelde e viva como a Graça Lobo que, menina de boa família, recusou ser a mera fada do Lar e aceitar o destino que outros lhe queriam traçar. Diz ter sido sempre rebelde. Daí, nunca ter parado nos colégios por onde andou, em Carcavelos, em Paris, (num convento) na Irlanda e na Suíça. Um dia, meteu-se num avião e decidiu ser hospedeira. Conheceu mundo. Hoje, recorda esses momentos como se os estivese a viver, apesar de Graça Lobo mulher-mãe-amiga-esposa-empresária-atriz que fala, recostada num grande sofá de veludo, vestida de negro, mexendo as longas mãos, como quem quer agarrar o mundo.

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A sua primeira paixão foi pelo Teatro?
Pelo Teatro?! Que loucura! Sou uma mulher normal. Normalíssima. Por isso, a minha primeira paixão foi por um homem. Aliás, ele acabou no manicómio... Fui visitá-lo, lá, muitas vezes. Era lindo!! Tinha olhos verdes... Era o homem ideal. Só que acabou louco!

Isso marcou-a para o resto da vida? 
Não! Cada um tem aquilo que merece. Ora, eu estou aqui saudavelzíssima, e ele acabou no manicómio...

E a segunda paixão?
Foi também um homem! Nunca me apaixonei por mulher alguma! Mas percebo a pergunta: se a minha segunda paixão terá sido o Teatro. Apaixonei-me pelo Teatro aos 24 anos e, até lá, tive várias paixões, ou melhor, «paixonecas»...

E a grande paixão?
Essa aconteceu-me aos 24 anos e durou até aos 27 ...

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Sabemos que houve nela grandes divergências por causa do Teatro...
Houve-as, de facto, porque ele era um homem que aparentava não ser muito convencional, mas que na verdade o era - e ainda é! Lembro-me de uma coisa engraçada: a filha dele dizia, "Então o pai está apaixonado por uma mulher do Teatro?" Como se uma muIher do Teatro fosse qualquer coisa de anormal! Ainda por cima, nessa altura, eu ainda estava a estudar no Conservatório... Tinha 24 anos e era uma aluna mais velha do que o habitual. Imaginem! A filha ver o pai apaixonado por uma mulher do Teatro. Que horror! Que escândalo!

Na sua vida houve mais divergências com os homens por causa do Teatro?
Sim..., talvez...

Eles ajudaram-na naquilo que hoje é como actriz?
Bem, um dos homens por quem me apaixonei era pintor. Tinha uma inteligência, uma sensibilidade e uma abertura maiores. Também eram outros tempos... Fez-me cenários. O pai da minha filha também. Mas quem teve uma grande influência e uma grande importância para que a minha carreira fosse o que hoje é, foi, sem dúvida, o meu atual marido, o Carlos Quevedo.

Está casada com ele há muitos anos...
Há doze anos. E estarei até ao resto da minha vida. 

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Ele não faz parte daquelas categorias de homens que escreveu...
Ai, faz! Faz, sim senhora! Só que não é o marido que gargareja na casa-de-banho, que faz tosses esquisitas e que, acima de tudo, não come a melhor posta de pescada... Mas tem ciúmes e o resto das características de um marido típico. São todos assim, coitados... Não há um que escape.

Há quem escape a essas características?
Ah, esses são os amantes, os namorados, os amigos, os admiradores! Mas têm todos uma característica comum: são muito divertidos. Farto-me de ir com eles. Divirto-me muito a observá-los. Gosto de os ter ao meu lado. São imprescindíveis! Mas existe ainda uma grande diferença entre os homens: a diferença entre portugueses e estrangeiros.

Porquê?!
Normalmente, os estrangeiros são mais civilzados, até porque estão menos à vontade quando vivem em Portugal. Os portugueses, como estão na terra deles, acham que vale tudo. Os estrangeiros são, de facto, mais civilizados.

E então como são os estrangeiros nas terras deles?
Ora, isso é lá problema das estrangeiras. Issoé lá com elas! Eu estou a falar dos homens na nossa terra! Por exemplo, os franceses são insuportáveis. Seria incapaz de casar com um deles. São insuportáveis por excelência. São rebetizos e malcriados, mesmo os "muito bem", os supostamente bem educados, porque quando chega a hora da verdade - que chega sempre... - são malcriados.

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Mas há-de haver exceções. Você é casada com um estrangeiro. 
O meu marido não é estrangeiro (risos). O meu marido é argentino! Devo dizer que os argentinos são o povo mais civilizado que conheço. Mais civilizado e bem educado. Por exemplo, entra-se num táxi e o condutor é de uma extrema educação. Fala corretamente a língua, não «atropela» a gramática e trata a passageira como uma Senhora. Um empregado de restaurante trata-nos com uma amabilidade inaudita. E, para além disso, o meu marido é profundamente civilizado e bem educado. O povo argentino é civilizadíssimo e isso poderá parecer um anacronismo, porque ninguém será capaz de o supor, talvez por não o conhecer. Repare-se nisto: no princípio do século, os editores da língua espanhola lançavam os livros primeiro na Argentina e só depois em Espanha! A Argentina chegou a ser classificada como "Paris da América do Sul"!

O que pressupõe que os franceses, afinal...
Ai, mas que chatos (risos)!... Perceberam bem o que quis dizer.

A propósito, nunca aturou um homem chato?
A esse tipo de homem mando-o embora! Já não tenho idade para o aturar...

Lembra-se de algum em particular?
Ah, sim! Houve um que era careca, e que por inha causa mandou a cabeça contra uma parede (daquelas verdadeiras...) e quase estoirou os miolos. Esse era, de facto, um chato. Pu-lo na rua dois segundos depois... Foi uma exceção, porque nem todos os homens são assim.

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O que mais a atrai num homem?
O sentido de humor. Rir com um homem, criar cumplicidade com ele, é a coisa mais importante que existe.

Que conselhos daria à sua filha quanto à escolha de um homem?
Que ele seja generoso e que tenha tido, desde pequenino, uma boa educação, no sentido mais profundo do termo: que tenha bons princípios. Digo sempre à minha filha que, quando ela quiser casar ou viver com alguém, que tenha tudo isso como princípio. Odiaria que ela um dia pudesse ser insultada ou maltratada por um homem. A educação é fundamental numa relação a dois.

A bondade é também essencial...
Com certeza! Mas uma pessoa com princípios não pode deixar de ter bondade. Há regras mínimas que um homem - e uma mulher - tem que ter, e às quais não pode fugir: a generosidade, e não falsidade, o tentar compreender os outros, o respeito. Este, então, é fundamental! Isto quando se quer criar uma relação profunda e séria.

Como analisa a nova geração de homens, os que têm hoje 30 anos?
Esta nova geração é muito generosa e está a tentar ser europeia. Isto é: está a tentar ser ambiciosa, no bom sentido da palavra. Trabalhando, estudando e preparando-se para ter uma vida condigna num país que não é muito promissor e que está atrasado muitos anos em relação ao resto da Europa. Um país, de resto, com um nível de vida muito baixo. Baixíssimo, mesmo.

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Esta geração irá ter os mesmos defeitos e qualidades das anteriores?
Creio que não! Os mais novos estão a evoluir, porque estudam e preparam-se mais. Esta nova geração percebeu que é através da formação e da informação que pode ter acesso a uma vida melhor, que nada lhe cai do céu, em suma, que tem que lutar ainda mais.

Denota um certo desencanto pelo nosso País...
Por vezes. Mas atenção: adoro esta terra e a sua gente!

Será mais um desencanto em relação à forma como o País é gerido?...
Sim...

Pelo que tem afirmado publicamente, você manifesta um autêntico descontentamento em relação aos apoios que são dados à Cultura, sobretudo no tocante à vertente que lhe diz ainda mais respeito: o Teatro.
Claro!! Parece que, em 1993, Lisboa irá ser a capital europeia da Cultura. É o que dizem. Só que eu pergunto: Como?!? Uma capital europeia da Cultura, quando o Estado e o Governo que temos não investem dinheiro nela?! Para que a Cultura exista, tem que haver dinheiro... Não pode ser cada indivíduo a puxar a brasa à sua sardinha. Também não posso ser eu sozinha a fazer tudo, ou um pintor ou um escritor a fazer o mesmo em relação ao ofício deles. É evidente que temos que ter iniciativas individuais, mas o investimento por parte do Estado é fundamental para que a Cultura seja usufruida pelos portugueses em geral.

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Não estou nada a ver que Lisboa venha a ser essa tal capital europeia da Cultura, em 1993. E se vier a ser, vamos assistir a uma invasão de estrangeiros, porque eles, isso sim, já têm o conhecimento e a prática adquiridas nos países deles, mais avançados, e que lhes dão apoios. Vão ser eles a dão apoios. Vão ser eles a tomar todas as iniciativas e serão eles que receberão todos os apoios. Vocês vão ver... E nós, que não temos sido ajudados, mas sim marginalizados, vamos ser completamente postos de lado.

Não está a ser extremamente pessimista?
Pessimista, eu?! Vocês vão ver... E isso é um grande perigo!

Se isso acontecer, eventualmente, os portugueses por certo reagirão da mesma forma que você reage, ao montar os seus espectáculos, ao concretizar os seus projetos sem apoios por parte do Estado...
Pode ser que sim. Esperemos bem que isso aconteça. Mas nem todas as pessoas possuem um certo resguardo económico como eu tenho. O que irá suceder depois? Será que os portugueses vão ficar calados e à espera que os outros, vindos de fora, passem a dar as cartas? Eu sou pela abertura da CEE e das fronteiras. Sempre fui. Absolutamente. Mas coloco pessoalmente essas interrogações que, para mim, são angustiantes.

A propósito de «um certo resguardo económico». Como se sente como empresária, num universo essencialmente masculino, nesse aspecto? Pensou alguma vez que iria gerir uma empresa?Sempre tive consciência de que herdaria a empresa da minha mãe. De resto, a minha mãe (que era uma mulher lindíssima, e que teve em mim uma grande influência) preparou as coisas nesse sentido. Nunca tive um interesse particular pela empresa, e foi um grande favor que fiz à minha mãe, porque se me tivesse interessado por ela teria arruinado completamente o negócio (risos)...

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Acontece que tive que ficar à frente dessa empresa quando ela adoeceu. Dei uma quota a um empregado aficientíssimo, muito leal e de uma grande competência. É ele que está sempre na empresa, que cuida de tudo. Mas quem a gere sou eu. Ele é uma pessoa em quem deposito confiança e que percebe dos problemas do dia-a-dia da empresa. 

Na sua empresa está rodeada de homens...
...e estou muito bem!! São pessoas de quem sou muito amiga e com quem mantenho boas relações de amizade, de trabalho e de confiança. Mas também lá trabalha uma mulher muito eficiente...

A Graça Lobo entende-se melhor com o homens ou com as mulheres?
É-me indiferente. Trabalhar com mulheres é muito agradável, dentro e fora da empresa, ou dentro e fora do Teatro. O que me importa é trabalhar com gente competente e com talento. Nesse momento, na minha peça Boulevard, Boulevard  os cenários foram executados por uma mulher competentíssima e com muito talento: a Maria Gonzaga.

No geral, não distingo as mulheres dos homens, no tocante à relação de trabalho, porque vou buscar as pessoas que  considero serem as melhores, as mais eficientes. Obviamente, não vou buscar pessoas com gostos e interesses diferentes dos meus e do Carlos (Quevedo). Gabo-me sempre de uma coisa: os meus espetáculos têm todos muito bom gosto.

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Mas tem mais admiradores entre os homens ou entre as mulheres?
Entre os homens. Sem qualquer dúvida. Mas também tenho o meu público feminino. Não esqueçam que sou considerada feminista...

Feminista?!
Sou um bocado. Acho que a mulher é maltratada em Portugal. Isso não acontece na América, porque as americanas têm leis que as protegem de tudo. A mulher portuguesa sofre de falta de leis que a protejam.

Não sofrerá, antes, de uma efetiva aplicação das leis que na teoria a protegem..?
Insisto: tem falta de leis que a protejam na sua dignidade, sobretudo nas classes menos privilegiadas, que não tiveram acesso a uma educação e a uma cultura sólidas durante muitos anos. Isso reflete-se, hoje, nas mulheres com 40 ou mais anos. Elas não têm culpa. Obviamente, os homens é que são culpados dos maus tratos. Uma mulher é espancada pelo marido legítimo, apresenta queixa na Polícia, e esta não se intromete pura e simplesmente na vida do casal, pelo que a mulher continua a receber maus tratos e vai aguentando, pois não tem dinheiro para avnçar com um processo nos tribunais! Eu conheçocasos flagrantes!!! É aí que sou feminista! Já não o sou na defesa de que a mulher deva ser rival do homem. Somos seres específicos e diferentes deles. 

Muito mais diferentes?
Claro! Mais inteligentes (felizmente!), mais generosas e perspicazes, com maiores qualidades e, por necessidade, mais lutadoras.

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E acha que o homem não reconhece tudo isso?
Que remédio tem ele, coitado (risos)...

Porque razão se refere aos homens como "coitados"?
Porque tenho por eles uma certa complacência. Acho-os tão infantis, tão inúteis. E precisam tanto de nós.

Mas a Graça Lobo não pode passar sem eles...
Eles não são independentes em relação a nós. Eles são "dependentes" das mulheres. Nós não dependemos deles! A não ser no amor e na afetividade. Felizmente, e cada vez mais, a mulher afirma-se económica e profissionalmente, sem precisar deles.

Existe alguma mulher que, pelas suas qualidades, a possa tomar como um modelo?
Deixem-me pensar... Há uma mulher- com quem politicamente nunca me identifiquei, porque sou de uma Esquerda muito moderada, direi mesmo, moderadíssima... - mas que considero ter sido notável no seu tempo: a Simone de Beauvoir. Ela influenciou uma geração.

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Ao longo desta ano, houve alguma mulher portuguesa que, na sua opinião, se tivesse evidenciado?
A Zita Seabra! É uma mulher por quem tenho um grande respeito. No resto, é difícil. Em atrizes, não vejo nenhuma... Escritoras, não leio livros delas... Na política, não vejo mais ninguém... Mas creio que existem mulheres extraordinárias, só que, de momento, não consigo pensar em alguma em particular.

E quanto aos homens?
Então, aí, ainda é mais difícil. Esperem... Só se for o Miguel Esteves Cardoso. Perdeu as eleições, mas acabou por sobressair por isso, como sempre, e, aliás, foi bem sucedido com o Independente. Ah!, já me esquecia: o Dr. Mário Soares. É um homem com coragem. Sensibilizou-me saber que cumpriu as suas obrigações, ido à Hungria, apesar do filho ter tido aquele desastre terrível. Foi um a atitude de grande respeito para com os outros.

O que pensa dos dois candidatos à Câmara Municipal de Lisboa?
São ambos homens inteligentes. Um deveria ficar-se por uma carreira universitária brilhante. Tem uma inteligência privilegiada e fora do comum. O outro, é um homem inteligente e muito sério que me merece, também, o maior respeito.

Nota-se a preferência por Jorge Sampaio...
Foi o candidato que apoiei. Embora não o considere um homem da Cultura (o que não quer dizer que não seja culto...), acho que tem plena consciência do que uma Câmara, importantes como a de Lisboa, pode fazer pela Cultura. 

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Concorda que, independentemente do vencedor, Lisboa vai mudar?
Espero bem que isso aconteça! Mas que mude para melhor. O engnheiro Abecasis mandou destruir o teatro Monumental — que continua em ruínas, ao contrário do que ele prometeu - e mantém fechados dois teatros municipais, o Maria Matos e o de S. Luís, onde a única coisa, que ainda por lá se passa, é a festa da «Nova Gente». Manter os teatros nessa situação é criminoso! Em Paris ou em Londres, tais casos seriam debatidos no Parlamento e todos os jornais falariam deles. Seriam um escândalo nacional! É um escândalo manter dois teatros praticamente fechados.

A propósito, o que pensa do Teatro que se faz em Portugal?
É normalmente mau, com raríssimas exceções. Há companhias que estão a funcionar bem, apesar da falta de verbas. O grande problema do Teatro no nosso País é o da falta de verbas. Neste momento, felizmente, temos à frente do Teatro Nacional de D. Maria II, o Ricardo Pais, que é uma pessoa capaz de pôr aquela casa a funcionar bem, o que não aconteceu nos últimos 14 anos... O Teatro Nacional abriu após o incêndio, e tem sido apenas aquela desgraça, aquele terror, aquela morte lenta. Nem sei como a Secretária de Estado da Cultura se lembrou de pôr o Ricardo Pais como director do Teatro Nacional!

Mas a Graça Lobo acredita muito nas mulheres!
Lamento ter que dizer isto, mas acho que a Secretária de Estado da Cultura deveria demitir-se. Escrevam isto que acabo de dizer!

Apesar de tudo, sente que o público está a regressar ao Teatro?
Bem, comecemos pelo principal: o que afastou as pessoas das salas foi o facto de, a seguir ao 25 de Abril, terem andado a fazer a Reforma Agrária em cima dos palcos! Isso é a grande verdade! Era só Brecht. Era só chatice. E as pessoas que iam ao Teatro cansaram-se, e as que iam ver esse tipo de peças (e que até gostavam) acabaram por se saturar e quiseram outras coisas... Felizmente, compreendeu-se o fenómeno que então aconteceu e modificou-se a estratégia. Por isso, está-se hoje a fazer Teatro para o público real, e não para um público imaginário e ideal que só existia na cabeça de certas pessoas...

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E quanto à crítica. Os críticos-homens são piores do que os críticos-mulheres?
Não. Os últimos são piores do que os primeiros, se é que pode haver alguma coisa pior do que eles. Neste caso, a mulher é pior, porque ela, como crítica, retlete-se como mulher-atriz. Quer ser como a atriz. Ou seja: ter talento, ser admirada, ser bonita, ser vista, estar em cima de um palco. Não está, quase sempre, em cima de coisa alguma... Estará talvez em casa, a escrever os disparates do costume.

E digo disparates, pois para se escrever sobre Teatro (e isto aplica-se também aos homens-críticos), ou para se poder criticá-lo, é preciso estar por dentro dele. Tem que se saber de Teatro.

Existem bons críticos?
O Carlos Quevedo é um ótimo crítico. E há um outro que, apesar de tudo, também acerta, que é o Jorge Listoppad. Isso deve-se ao facto de ele ser também encenador e perceber de Teatro. Os outros não percebem.

Uma última pergunta: se as mulheres mandassem, Portugal seria diferente?
Claro! Portugal é um país onde os homens detêm os poderes todos. Quando as mulheres saem um bocadinho do normal, são umas grandes estrelas! Não são estrelas algumas! São pessoas normais que trabalham e que se afirmam num meio que lhes é hostil e muito difícil. As mulheres têm tido muitos problemas para se afirmarem no nosso País.

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Mas a Graça Lobo conseguiu isso...
Porque sempre fui rebelde. Contestava tudo o que me diziam. Aos três anos, a minha mãe irritava-se e dizia-me: "Repete lá!". E eu repetia. Eu comecei cedíssimo a tomar o sabor da minha independência. Os meus pais tinham um grande sonho: que eu fosse casada com um senhor muito sério e que tivesse muitas criancinhas e que tomasse conta do lar. Não fui educada na perspectiva de trabalhar e de ser uma mulher independente, capaz de tomar decisões e de empreender iniciativas. O sonho dos meus pais era diferente do meu. Por isso saíu gorado. E o resultado está à vista... 

Artigo originalmente publicado na edição impressa da Máxima, Janeiro de 1990.


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