Café e cérebro: quantas chávenas por dia podem proteger contra a demência?
Um truque que ajuda a retardar, não a curar.
À partida, uma pessoa que se senta à secretária para escrever o seu próprio obituário está, provavelmente, depressiva e a precisar de ajuda médica. E, no entanto, de acordo com Bill Burnett e Dave Evans, dois professores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, essa é uma das melhores formas de uma pessoa descobrir o que realmente quer para a sua vida. Numa ida ao podcast da famosa autora e divulgadora de saúde e bem-estar, Mel Robbins, estes dois professores e criadores do programa académico Designing Your Life partilharam algumas sugestões, sustentadas pela psicologia, para todos quantos já olharam para a vida como quem olha para uma equação impossível de resolver – tanto por não saberem, de todo, o que fazer com as semanas, meses e anos que têm pela frente, como por se sentirem derrotados por escolhas erradas e não saberem o que fazer para corrigir a rota.
Bill Burnett é um especialista em design e produtos de inovação que trabalhou na Apple durante vários anos e tem diversas patentes e prémios de design. Já Dave Evans é engenheiro e empreendedor. Juntaram-se na Universidade de Stanford há mais de 10 anos com o intuito de criar um programa académico que ajudasse os alunos a descobrir o que queriam fazer com as suas vidas e a pôr esses objetivos em prática. O que começou como uma cadeira da faculdade, acabou por se transformar num programa transversal, com livro (um bestseller internacional ainda sem edição em português), workshops e certificações. E, como já deve ter adivinhado, não serve só para ajudar jovens de 20 anos. Afinal, quantas vezes ao longo da vida é que uma pessoa duvida do rumo que escolheu e deseja poder voltar atrás, mudar tudo, começar do zero?
E se Burnett e Evans não podem ajudar ninguém a voltar atrás no tempo, podem certamente ajudar qualquer pessoas a encontrar a sua vocação e propósito de vida. Para tal, começam por sugerir, por muito mórbido que possa soar, que a pessoa escreva o seu próprio obituário. O objetivo é que pense na idade com a qual imagina que vai morrer, e depois escreva o obituário que gostaria que fosse verdade nessa altura, incluindo detalhes que ainda não aconteceram. Este exercício aspiracional e de imaginação, sobre quem gostaria de ter sido quando já cá não estiver, ajuda a clarificar o que realmente quer para a sua vida e como gostaria de ser recordada. Pode ser que gostasse de ser lembrada por ter descoberto a cura para uma doença, por ter recebido o Nobel da literatura, por ter posto a sua vida ao serviço do bem-estar e dos direitos dos animais, ou por ter sido um raio de luz e alegria na vida de todas as pessoas à sua volta. Com o obituário na mão, é uma questão de apontar baterias ao objetivo e “fazer acontecer”, como agora se diz.
Se isto falhar ou o objetivo demonstrar ser impossível de atingir – convém não esquecer que os sonhos têm de se conciliar com a realidade – estes dois especialistas recomendam que se ponha em marcha o Plano Odisseia, um exercício mental que ajuda a identificar caminhos e propósitos de vida alternativos. Afinal, todas as pessoas – pelo menos as que não são monomaníacas – têm diversos interesses ou capacidades (atividades também conhecidas como hobbies) que, em caso de necessidade, podem ser empurradas para a linha da frente. Para entrar nesta Odisseia, é preciso que a pessoa faça a si própria três perguntas simples:
1. O que é que gostaria de fazer com as capacidades que já tem e a carreira que já desenvolveu?
2. Se, por alguma razão, não pudesse fazer nada relacionado com o seu trabalho atual, o que é que faria?
3. Se ganhar dinheiro não fosse uma necessidade imperativa, e ninguém se fosse rir da sua escolha e, na verdade, essa sua escolha não tivesse forma de falhar, o que é que gostaria de fazer?
Dave Evans explica que é natural que esta terceira pergunta resulte em respostas inusitadas – como abrir um gabinete para ler a sina, transformar a casa numa creche para gatos ou criar um serviço de arremesso de fezes (à cara de pessoas que dizem “fazer acontecer”, por exemplo. Porém, o professor também garante que isso é importante porque “é preciso ter muitas ideias para ‘sacar’ de dentro do cérebro a melhor ideia possível”. Ou seja, raras vezes a melhor ideia para resolver um problema é a primeira que nos ocorre. Porquê? Porque está espartilhada pelas circunstâncias, condições e aquilo que o sujeito pensante acredita serem as suas capacidades. Só que o sujeito pensante é também um sujeito “subestimante”.
Por outro lado, Evans também alerta que não é suposto pôrmos em prática uma ideia maluca só porque sim. O objetivo deste exercício é “calar o crítico interior”. E explica: “Uma mulher de 54 anos diz ‘na verdade, gostava de voltar para a faculdade para acabar o curso de medicina, e acho que não é demasiado tarde, mas os meus amigos dizem que eu não estou boa da cabeça’, ou seja, a voz crítica que vive dentro da cabeça dela está a ser alimentada pelas vozes críticas que vivem dentro da cabeça dos amigos.”
“O Plano Odisseia”, conclui Evans, “ajuda-nos a imaginar que há várias maneiras de nos podermos sustentar e viver a nossa vida, ao mesmo tempo que nos ensina a calar a voz crítica para podermos aceder a todas as nossas ideias”, e não apenas às ideias certinhas, de quem pinta dentro das linhas.
E a verdade é que, muitas vezes, é quando a vida que levamos rebenta por completo – ou porque somos despedidos, ou porque alguém morre, ou algo igualmente trágico – e não temos nada a perder, que acabamos por arriscar seguir um sonho antigo ou transformar um hobby num trabalho a sério. O objetivo desta técnica é ajudá-la a chegar a esse espaço mental, sem que tenha de ser empurrada por uma tragédia.