Cansaço e infecções urinárias frequentes? Pode haver uma ligação
Alguns estudos clínicos sugerem uma relação intrigante entre o ferro e as infecções urinárias. A deficiência deste mineral pode enfraquecer o sistema imunitário, mas o ferro em excesso pode alimentar as bactérias. Um equilíbrio delicado que pode influenciar o risco de infecções.
A deficiência de ferro é uma das carências nutricionais mais comuns nas mulheres. Estima-se que cerca de 1/3 das mulheres em idade fértil tenha anemia – na maioria dos casos causada por falta de ferro – e que até 30 a 40% apresente baixos níveis deste mineral. O sintoma mais comum, conforme explica a ginecologista-obstetra Sofia Figueiredo, “é o cansaço persistente e desproporcionado para o ritmo de vida”. Alguns sinais, porém, “são mais subtis e pouco específicos, pelo que facilmente passam despercebidos, como queda de cabelo, unhas quebradiças, dificuldade de concentração, irritabilidade e sono pouco reparador podem ser expressão de reservas de ferro insuficientes”.
Isto é de conhecimento mais ou menos comum. De resto, mulheres que tiraram a carne da sua dieta ou que têm grandes fluxos menstruais têm, regra geral, mais atenção aos seus níveis de ferro e estão particularmente sintonizadas com os sinais que a médica refere. O que é pouco conhecido – até porque a descoberta é relativamente recente e carece de mais investigação – é que alguns estudos clínicos indicam haver uma relação entre deficiência de ferro e infecções urinárias.
O estudo mais recente foi publicado em junho do ano passado na revista académica Public Library of Science e analisa dados de uma grande amostra populacional (idosos na Índia). A análise permitiu concluir que existe uma associação estatisticamente significativa entre infecções urinárias e anemia. Convém, porém, ressalvar que se trata de um estudo observacional e que, portanto, mostra associação, mas não prova causa direta. Ainda assim, o estudo demonstrou que as pessoas com infecções urinárias tinham cerca de cinco a seis vezes mais probabilidade de serem anémicas. Também convém sublinhar que uma pessoa com deficiência de ferro não é, automaticamente, uma pessoa anémica.
Esta investigação não é sobre mulheres jovens, mas faz uma revisão da literatura existente e destaca que há vários estudos em mulheres grávidas que mostram uma associação significativa entre anemia e infecção urinária, com uma prevalência que, em alguns contextos, pode chegar a cerca de 49%.
De acordo com este estudo, o motivo para esta associação está relacionado com o facto de a anemia por deficiência de ferro enfraquecer o sistema imunitário, reduzir a eficácia das células de defesa, e poder alterar o equilíbrio da microbiota urinária, criando um ambiente mais favorável à infecção.
Um outro estudo de 2014, publicado na National Library of Medicine, procurou identificar fatores de risco para a bacteriúria assintomática (presença de bactérias na urina sem sintomas), que é muitas vezes um estádio intermédio ou precursor de infecção urinária. E concluiu que a anemia por deficiência de ferro pode ser um desses factores. Para tal, teve em consideração 330 doentes hospitalizados. Dos 100 que tinham bacteriúria, 80,6% também tinham anemia por deficiência de ferro. E embora a anemia também estivesse presente nos pacientes sem bacteriúria, nesse grupo a percentagem era de apenas 53,6%. Ou seja, este estudo conclui que a anemia ferropriva está associada a um risco cerca de 2,6 vezes maior de ter bacteriúria.
Questionada sobre a relação entre infecções urinárias e a deficiência de ferro, a médica Sofia Figueiredo, que dá consultas no Hospital da Luz, na Clínica Mulher e na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, confirma tratar-se de uma “hipótese biologicamente plausível” e concorda que “a evidência científica disponível ainda não permite estabelecer uma relação direta e inequívoca entre deficiência de ferro e maior predisposição para infeções urinárias nas mulheres”. Ainda assim, a ginecologista sublinha que “corrigir a carência de ferro é benéfico para a saúde global da mulher. No entanto, não deve ser apresentado, de forma isolada, como estratégia específica para prevenir infecções urinárias recorrentes”.
Sofia Figueiredo acrescenta que “o ferro é essencial para o equilíbrio do organismo, incluindo o bom funcionamento do sistema imunitário e, quando existe carência, a resposta imunitária pode tornar-se menos eficiente, deixando o corpo mais vulnerável às agressões externas”. Agressões essas nas quais se incluem as infecções do trato unrinário.
Sobre se há sinais de alerta que indiquem que uma mulher com infeções urinárias recorrentes deve avaliar os níveis de ferro, a ginecologista confirma que há, de facto “sintomas como cansaço persistente, palidez, queda de cabelo, unhas frágeis, dificuldade de concentração ou perdas menstruais abundantes devem motivar uma avaliação clínica orientada para excluir a carência de ferro”.
Já quanto à possibilidade de a suplementação de ferro favorecer a proliferação de bactérias, promovendo precisamente aquilo que se pretende combater, Sofia confirma que é uma possibilidade real “porque o ferro também é utilizado por microrganismos”. Como tal, a médica deixa um alerta: “É precisamente por isso que a orientação clínica é fundamental. Tão importante como corrigir uma carência real é evitar a suplementação sem critério. O equilíbrio está em não banalizar nem a deficiência, nem o uso de ferro.”
Concluindo, embora as evidências científicas ainda não sejam muito claras, para quem teve uma infecção urinária há pouco tempo ou tem um quadro de infecções urinárias recorrentes, vale a pena analisar a possibilidade de ter uma deficiência de ferro e, se for esse o caso, corrigi-la. Mas sempre com o conselho do médico.