Beleza / Wellness

Açúcar, o (doce) veneno que mata lentamente

Os doces são a face mais visível do açúcar. Mas em que alimentos se esconde esta propriedade, que mata lentamente, e com que designações? Na era da proliferação falaciosa de informação e à luz das estatísticas mais recentes, temos de voltar a encarar este inimigo diário. E silencioso.

Foto: IMDB
16 de janeiro de 2020 | Rita Silva Avelar

Quem cresceu nos anos de 1990 certamente se lembrará, entre outros imaginários infantis, da Pipi das Meias Altas, a personagem literária criada por Astrid Lindgren, em 1945, que, depois dos livros, foi alvo de várias adaptações, entre elas uma série televisiva criada por Olle Hellbom, em 1969. Quem seguisse as aventuras dessa criança de tranças ruivas que, para além de tudo, tinha uma liberdade imensa para brincar (não é esse o sonho de qualquer criança?), dificilmente esquecerá a sua adoração por bolos e por doces. Indo ao pormenor, recordarmos o episódio em que a personagem devora sozinha o bolo de aniversário com a ajuda das mãos que vão ficando cobertas de creme e de natas. Isso traduz, de um modo algo caricato, o fascínio por doces. Porque é que o vislumbre de um bolo coberto de natas é algo tão apetecível e capaz de provocar exclamações de prazer?

Em realidades e tempos diferentes, veja-se outro exemplo do impacto visual mencionado: a cena em que Kirsten Dunst, no papel de Marie Antoinette no filme de Sofia Coppola, se reclina numa poltrona rodeada de bolos cor-de-rosa, símbolo da luxúria daqueles tempos. Regra geral, o deslumbramento e a gula por esta "imagem" reúnem consenso. Mas a verdade é que os bolos e os doces são apenas a face visível do açúcar (nome comum dado à sacarose), pois este está muitas vezes escondido em alimentos menos suspeitos. A alusão a ambos os imaginários serve para chegar à pergunta: conhecemos nós a verdadeira face criminosa deste doce veneno? Como o açúcar oferece mais do que apenas energia – também ajuda a armazenar gordura –, na era ancestral em que caçar era imprescindível à sobrevivência, gerir as reservas de gordura era algo benéfico e que não representava um risco para a saúde. Os tempos mudaram e as necessidades também e hoje os riscos do consumo de açúcar têm consequências perigosas.

Comecemos pela definição, esta que consta no livro Açúcar – O Pior Inimigo, de Richard P. Jacoby e de Raquel Baldelomar. "Sacarose é o nome químico para açúcar refinado ou de mesa (seja ele branco ou amarelo, de origem biológica ou coberto de pesticidas), composto por duas moléculas de hidrato de carbono – glicose e frutose." No século XX, ainda que o açúcar já fizesse parte da dieta comum, a maioria das pessoas ingeria apenas 11 quilos do mesmo por ano, segundo os dados revelados por aqueles investigadores, mas atualmente essa estatística quintuplicou, muito em parte devido aos alimentos processados. "A maioria das pessoas já ouviu falar nos malefícios do açúcar, mas uma grande percentagem continua a associá-lo apenas à diabetes e ao ganho de peso. Como muitas destas pessoas não têm problemas de saúde, elas pensam que podem comer açúcar à vontade", começa por esclarecer Custódio César, nutricionista. "Como o açúcar provoca dependência e na nossa sociedade costuma ser consumido desde tenra idade, é uma tentação difícil de esquecer." As consequências do consumo do açúcar, em Portugal, revela João Filipe Raposo, diretor clínico da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP), são dramáticas. "Os últimos dados revelados pelo Observatório Nacional da Diabetes da Sociedade Portuguesa de Diabetologia mostram que, de acordo com o envelhecimento da nossa população, os números da diabetes continuam a crescer. Estima-se que 13,6% da população adulta, ou seja, mais de um milhão de pessoas, tenha diabetes, das quais cerca de 40% ainda desconhecem o seu diagnóstico. A cada ano são diagnosticados mais de 60 mil novos casos de diabetes. Ou seja, mais de 200 pessoas, em cada dia, recebem um diagnóstico que lhes muda significativamente a vida para sempre." De repente, o glamour que outrora evocámos perde toda a graça, perante uma realidade que carece de uma mudança imediata dos nossos hábitos alimentares.

No livro Açúcar – O Inimigo Invisível, o jornalista e investigador Miguel Ángel Almodóvar Martín põe em evidência as fabulosas quantidades de açúcar invisível que consumimos diariamente em milhares de alimentos. "Um bom exemplo poderia ser o ketchup, condimento adorado pelas crianças e que os pais põem à sua disposição sem medidas. No mínimo, metade do conteúdo de uma embalagem de ketchup é composta por açúcar. Uma lata de 300 gramas de molho de tomate contém entre 45 e 50 gramas de açúcar", explica. "Nos rótulos, geralmente aparece a imagem de uma avó adorável a cozinhar. Alguém imagina essa mesma avó a deitar meia tigela de açúcar na panela onde o tomate é cozinhado? Escusado será dizer que existem muitos exemplos semelhantes." Aliás, neste seu livro revela, entre outros dados, que quase todos os alimentos processados são "bombas" açucaradas, estando no topo as frutas em calda, os sumos de frutas, os smoothies, as bebidas energéticas, os sabores lácteos, os cereais e as barras de cereais, as pizzas congeladas e toda a gama de maioneses e de molhos. Mas há uma ressalva: Custódio César explica que, seja qual for o alimento em questão, é preciso olhar primeiro para os rótulos e saber lê-los porque o índice glicémico (um indicador que nos aponta com que velocidade um alimento que tem carboidrato aumenta a glicose no sangue) pode variar de alimento para alimento. "Os alimentos mais ricos em sacarose são os bolos, as bolachas, as barras de chocolate, os gelados e os doces, em geral. O que a maior parte das pessoas desconhece é que há alimentos que não tendo açúcar são iguais ou piores do que aqueles que o contêm", revela. "Por exemplo, o pão branco (tipo baguete francesa) tem 95 de índice glicémico (o máximo é 100), enquanto um bolo de chocolate, em média, tem 40. Assim podemos notar que um alimento sem açúcar é, claramente, pior que outro com açúcar quando nos referimos em termos de prevenção da obesidade, da diabetes e da pré-diabetes."

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Deixar esta adição, que se instala no nosso organismo e que cria dependência, pode revelar-se uma tarefa difícil. Como explicar a dificuldade que persiste em evitar o açúcar? "A rotulagem alimentar e nutricional é fundamental, uma vez que permite aos consumidores fazer escolhas alimentares adequadas. No entanto, cerca de 40% dos portugueses não compreendem a informação nutricional presente nos rótulos dos alimentos", constata Ana Pereira, nutricionista da ADPD. "Um estudo recente, publicado com o apoio da Direção Geral da Saúde e da Organização Mundial de Saúde, demonstra a incapacidade de muitos portugueses em compreender a informação presente nos rótulos que inclui a informação nutricional e realça a necessidade de a simplificar." A indústria alimentar também não ajuda, camuflando a sacarose e dando-lhe outros nomes, mais específicos e menos conhecidos. "Termos como glucose, xarope de glucose, xarope de milho (HFCS), maltodextrina, dextrose, açúcar invertido, amilopectina, entre outros, são iguais ou piores que o açúcar branco. Alguns são usados como adoçantes e outros não", explica Custódio César. Mas o jornalista Miguel Almodóvar vai mais longe: "A grande indústria alimentar funciona como as grandes máfias do contrabando de armas ou de drogas. Mentem compulsivamente e compram discursos de políticos e de responsáveis de saúde, seja por que preço for, para que medidas não sejam tomadas e se continuem a tolerar os rótulos confusos e enganadores."

Como desacelerar uma tendência que tem crescido de forma exponencial e que deixou danos irreversíveis na saúde, como revelam as estatísticas? Neste ponto, a opinião daqueles especialistas e autores converge. É preciso adotar melhores hábitos alimentares, saber como otimizar melhor a informação e, claro, praticar exercício físico. "Sair do sofá e da frente da televisão, do computador e dos jogos eletrónicos, e começar a fazer exercício ou a fazer mais exercício. Não podemos esquecer que, em Portugal, entre a população com mais de 15 anos, só 5% é que afirmam fazer exercício regularmente, o que nos coloca na cauda da tabela entre todos os países da União Europeia. O envolvimento com o exercício físico serve para nos motivar a comer melhor e a alterar os nossos hábitos alimentares", ressalva Custódio César. Por sua vez, Miguel Almodóvar adverte: "A primeira medida é voltar a ingerir comida verdadeira. Produtos que nós compramos nas mercearias, no talho e nas peixarias, e que possamos cozinhar em casa com ingredientes de qualidade, tendo como base o azeite virgem." A nutricionista da ADPD também menciona a importância da dieta mediterrânica. "É um padrão alimentar com vários benefícios para a saúde, nomeadamente a diminuição do risco para o desenvolvimento de doenças crónicas, como a diabetes tipo 2, vários tipos de cancro, obesidade, doenças neurodegenerativas (exemplo: Alzheimer) e doenças cardiovasculares."

Numa reflexão final, o jornalista Miguel Almodóvar culpa o vasto mundo de informações, muitas vezes falaciosas, que se propagam na Internet. "Existe uma verdadeira avalanche de informação sem a menor base científica, especialmente na Internet e nas redes sociais, a que se soma o ‘boca a boca’ da família, dos vizinhos e dos amigos. Vivemos numa sociedade em que se diluiu e quase perdeu o princípio da autoridade intelectual. Na sociedade contemporânea, imersa na pós-modernidade líquida definida por Zygmunt Bauman, tem muito mais impacto e peso a opinião de celebridades, algumas absolutamente analfabetas ao nível científico, que a de investigadores de alto nível que levam décadas a trabalhar nestes temas." Conclusões? Sonhar com aquele maravilhoso bolo coberto de chantili e de morangos, e com várias camadas e sabores, passou a ser proibido? Cremos que não, até porque a felicidade está nos pequenos prazeres. O segredo está na moderação e na prevenção, pondo em prática escolhas independentes e conscientes na alimentação. Regressar à cozinha das avós, aprender a ler rótulos de forma eficaz e manter presente que o exemplo que damos será crucial para as gerações futuras.

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