Beleza / Wellness

"A alimentação emocional é um alívio temporário para os desafios da vida."

Bate leve, levemente, como quem chama por si. Será fome? Será tédio? Fome física não é certamente e o tédio não bate assim. Fomos ver, era a fome emocional.

Foto: Pexels
17 de agosto de 2020 | Pureza Fleming

É um cenário muito típico este que passo a descrever. Está em casa e o aborrecimento começa a ser mais do que muito. Já não há zapping possível de ser feito na televisão — até porque já sente os dedos dormentes e os olhos bambos. É dos tais dias em que se acorda "com os pés de fora" e a única vontade à vista é que aquele dia não exista. Porém está lá e, de uma forma ou de outra, irá ter de o enfrentar. É então que o enfado a arrasta até à cozinha. Entra, abre a porta do frigorífico e por lá fica, imóvel, contemplando o seu interior enquanto aguarda por uma resposta qualquer do universo que teima em não chegar. Quando dá por si já passou quase um minuto de cabeça enfiada no frigorífico, sem qualquer retorno, nem um único alimento na mão (só mesmo a conta da eletricidade a subir). Seria fome a necessidade que a fez deslocar até àquela assoalhada? É provável que não. O mais certo é estar apenas entediada, chateada ou stressada e é por isso que foi procurar no frigorífico a comida que lhe poderia trazer algum consolo.

"Todos nós já demos connosco a ceder a uma alimentação emocional. O ser humano procura conforto na comida desde sempre e desde que nasce. Como a maioria dos sintomas emocionais, acredita-se que a alimentação emocional seja o resultado de vários fatores, e não de uma única causa. As pessoas que tendem a relacionar comida com conforto, poder, sentimentos positivos ou por qualquer outro motivo que não sejam as necessidades físicas do corpo, podem ter mais propensão a uma alimentação emocional", confirma a psicóloga Cristina Sousa Ferreira, da Oficina de Psicologia. É comum a nossa mente, quando se encontra num destes estados, enviar mensagens ao cérebro que gritam "estou cheia de fome", contudo, na grande maioria das vezes não se trata de fome física. Este tipo de fome, a fisiológica que é também a fome no seu mais honesto sentido, vai surgindo gradualmente quando o estômago está vazio e a comida traz satisfação e saciedade. A fome emocional, por sua vez, surge de forma mais repentina, com desejos de alguma coisa em particular. É deste modo que a comida traz um efeito imediato esperado, mas que se esvai rapidamente. Aquela psicóloga clarifica: "A fome emocional não é uma perturbação (embora esteja presente em algumas perturbações do comportamento alimentar), mas é originada por fatores emocionais e surge em resposta a emoções positivas ou negativas e não a fome física. Comemos quando estamos tristes, stressados, ansiosos ou frustrados, mas também quando festejamos um aniversário ou nos reunimos com amigos em que escolhemos os nossos pratos preferidos". Assim sendo, não é totalmente nocivo que se sinta o tipo de fome emocional — é, inclusive, humano. A questão é que "a alimentação emocional também pode anular os sinais de saciedade, o que pode levar a pessoa a cometer excessos e, consequentemente, resultar em problemas de peso, principalmente se o comportamento se tornar rotineiro", alerta Cristina Sousa Ferreira. Ninguém deve ignorar os desejos do corpo, mas é prudente ficar-se atento ao que pode estar a provocar um desejo por comida.

As estatísticas confirmam a ligação entre as emoções e a comida: cerca de 40% das pessoas tendem a comer mais quando estão stressadas, enquanto cerca de 40% comem menos e 20% não alteram a quantidade de alimentos que comem quando expostas ao stress. Ou seja, o stress pode estar associado quer ao ganho quer à perda de peso. Isto porque alguns dos fatores que nos levam a ter desejo de comida e a ceder a esses desejos estão explicados pela ciência e pelas "drogas" (neurotransmissores) do nosso cérebro: o cortisol, a dopamina e serotonina. "A curto prazo o stress pode diminuir o apetite. O sistema nervoso promove a libertação da adrenalina que ajuda a desencadear a resposta de luta ou de fuga do corpo, um estado fisiológico acelerado que coloca, temporariamente, a comida em espera. No entanto, se o stress persistir já a história é diferente. O cortisol é a principal hormona do stress, libertada através do nosso sistema de resposta a ameaças. Também regula a forma de como o nosso corpo usa carboidratos, gorduras e proteínas. Se estamos stressados ou ansiosos e o cortisol entra em ação, o corpo tende a desejar alimentos com alto teor calórico e de açúcar, pois esse tipo de alimentos fornece ‘boosts' de energia a curto prazo". É por estes motivos que, numa altura em que estamos fechados em casa, aborrecidos, stressados e/ou ansiosos, os níveis elevados de cortisol fazem-nos desejar alimentos açucarados, gordurosos ou salgados, e… a cozinha ali tão perto.

No atual ano de 2020, um dos mais estranhos de que há memória, tem sido comum ouvir-se relatos e queixumes de pessoas que dizem ter engordado muito, resultado do confinamento: "Existem mais do que razões fisiológicas para nos virarmos para a comida nesta altura em que o mundo se virou de ‘pernas para o ar’", assevera a psicóloga da Oficina da Psicologia. E remata: "Os principais fatores do stress são a incerteza e a falta de controlo, que são dois aspetos bem presentes no panorama atual. Encontramo-nos numa situação de confinamento e de distanciamento social, impedidos de uma vida ‘normal’, perante uma ameaça que não vemos, nem sabemos quando se vai embora, com rotinas ameaçadas e num aborrecimento como nunca vivemos. (…) A alimentação emocional é uma maneira poderosa e eficaz de encontrar alívio temporário para muitos dos desafios da vida. Se não funcionasse tão bem, ninguém faria isso". Numa entrevista à MUST, a propósito deste tema, a nutricionista Mariana Abecasis confirma a explicação daquela psicóloga: "Para a maior parte das pessoas, comer não é só um ato fisiológico. (…) Existe uma parte emocional que condiciona o apetite. Na maioria das vezes não são necessidades reais, mas a verdade é que procuramos na comida conforto e consolo". No mesmo artigo, aquela nutricionista explica que, em tempos como os que estamos a presenciar, em que andamos mais ansiosos, talvez até tristes e preocupados (cada caso é um caso), este tipo de fome que em nada é uma necessidade, pode despontar: "É natural que esta fase de isolamento mexa com o sistema nervoso e emocional das pessoas, no geral. E, como estamos em casa, temos mais disponibilidade para comer. No quotidiano normal passávamos tanto tempo em correria que, muitas vezes, até nos podíamos esquecer de fazer certas refeições, já que estávamos sempre ‘muito ocupados’. Porém, em casa temos mais atenção aos nossos sentimentos. É realmente provável que se sinta mais fome nestas circunstâncias que estamos a testemunhar".

 

Feitas as contas, de uma maneira ou de outra, já todos sentimos fome emocional — e não há problema nenhum nisso, desde que tal não se torne num comportamento padrão. Como adiantou aquela psicóloga, "o problema não é a alimentação emocional por si só, mas sim fazê-lo sem dar por isso e em excesso, com menos prazer e com mais culpa". Saciar a fome, a verdadeira fome fisiológica, revela-se também um factor importante no combate à fome emocional — se comermos bem, com consciência e fully present, iremos ficar bem e saciados. Logo, sem os tais picos de (não) fome. Um estudo da Universidade Federal de Lavras (UFLA), no Brasil, concluiu que, em comparação à refeição que é tomada sem distrações, entreter-se com o smartphone ou com um livro enquanto come pode aumentar o consumo de calorias em até 20%. "Quando existe um fator distrator, a pessoa não presta a devida atenção à quantidade de alimentos que está a ingerir", adiantou ao site da Globo o coordenador daquele estudo, o professor Luciano José Pereira, do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade. "E o nosso centro de saciedade leva em consideração não só o aspecto fisiológico daquilo que foi ingerido, mas também o efeito da própria memória", remata. Em suma, da próxima vez que o seu cérebro o informar que se encontra faminto (daquela maneira histérica que lhe é tão familiar), tome consciência de que o grito desesperado não vem do estômago, mas de um lugar qualquer mais profundo que merece a pena ser questionado. Se isto falhar lembre-se: por mais prazeroso que aquele bolo encharcado de calorias possa parecer (e até ser), será um minuto de prazer na boca para uma vida inteira nas ancas. E, então, adeus fome.

Como evitar "cair" num tipo de alimentação emocional — Cristina Sousa Ferreira deixa alguns conselhos:

Tomar consciência de que o estamos a fazer… Só conseguimos mudar o que conhecemos. Quando o fazemos, o que comemos e porque o fazemos. Vamos comendo ao longo do dia, antes ou após as refeições, depois de uma discussão? Estamos a evitar emoções difíceis, a gerir o stress ou cansaço ou a comer distraidamente? Queremos conforto?

Aprender a gerir o stress com uma boa gestão do tempo, de resolução de problemas ou de conflitos, prática de atenção plena sem julgamento (mindfulneess), meditação e outras técnicas de relaxamento. Evitar cansaço ou fome excessivos, dormir bem e fazer pequenas refeições durante o dia. A prática do exercício físico regular tende a diminuir a produção de cortisol, leva a uma diminuição da depressão, ansiedade e insónia, e a tendência para uma alimentação emocional. Fazer pausas e evitar uma agenda demasiado cheia. Aprender a reconhecer os gatilhos de stress.

Alimentação mindfulness tentando assim ficar atento ao que está a comer e quando. Começar devagar e evitar o autojulgamento.

Aceitar as emoções difíceis. Ninguém gosta de se sentir triste, zangado, rejeitado e entediado. As emoções têm uma função e uma razão. Pode não se sentir melhor, mas impedirá de substituir as emoções com comportamentos que lhe trazem, posteriormente, emoções desagradáveis, como a culpa e a vergonha habitualmente presentes depois de comer o que não deve. E se resultam de algum problema… resolva-o.

Introduzir comportamentos saudáveis e de prazer e mestria. Faça uma lista de atividades de que pode gostar e que não envolvam preparar, comer ou comprar comida. Uma das alternativas mais simples, fáceis e saudáveis é a caminhada: regular, rápida ou a passear com o cão. As atividades manuais, como fazer tricô, pintar, construir artesanato, não só ajudam o tempo a passar como permitem que seja criativo e produtivo. Aprenda uma nova atividade ou recupere algo que deixou de fazer.

 

 

 

 

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