Obesidade infantil não é escolha, é doença."Gostava que estas crianças não fossem apenas o 'gordo que vai à baliza'"
Entre dados, políticas públicas e histórias de família, a obesidade infantil continua a ser vista demasiadas vezes como resultado de más escolhas. Mas a ciência - e quem vive o problema por dentro - contam uma história mais complexa.
Gustavo tem nove anos e um irmão gémeo, Vicente. Cresceram na mesma casa, à mesma mesa, com os mesmos pais, os mesmos horários, os mesmos hábitos e as mesmas regras. Um vive com obesidade. O outro, não. Para Sofia Vieira, mãe dos dois, esta diferença bastou para desmontar uma ideia que continua a pesar sobre muitas famílias: a de que a obesidade infantil é apenas consequência daquilo que se come.
A experiência da família Vieira desmonta a ideia de que a obesidade infantil é somente uma questão de escolhas individuais. Em casa, diz-nos Sofia, mãe de Gustavo, em chamada, os seis comem o mesmo e seguem as mesmas rotinas. "Todos temos os mesmos hábitos alimentares e os mesmos cuidados com a alimentação. Se fosse uma escolha só do Gustavo, ele teria de comer diferente." Por isso, para a mãe, não há dúvida: "Eu considero a obesidade uma doença".
A história do Gustavo não cabe no retrato simplista da criança que "come demais" ou da família que "não controla". Até aos três anos, recorda a mãe, a preocupação era a inversa: o filho não aumentava de peso. No infantário, havia tabelas mensais de peso e altura, e Sofia lembra-se de chorar ao ver que as outras crianças ganhavam 100, 200 ou 300 gramas, enquanto o Gustavo continuava igual ou até mais leve. Depois, perto dos três anos, tudo mudou. O aumento de peso começou a surgir de forma gradual, enquanto o irmão gémeo mantinha outro padrão de crescimento.
Pelo caminho, Gustavo foi diagnosticado com malformação de Chiari tipo 1, uma condição neurológica que obrigou a família a alterar rotinas, cuidados e limites. Não pode fazer tudo o que as outras crianças fazem: há restrições em viagens longas, avião, insufláveis, ginástica ou brincadeiras com maior risco de impacto. A família procurou respostas, fez testes genéticos, ouviu médicos. Até hoje, diz Sofia, não há uma explicação fechada para a obesidade do filho. Há, sobretudo, uma certeza: "Não mudámos nada nos nossos hábitos alimentares. Pelo contrário, começámos a tirar inúmeras coisas."
Esta é precisamente a zona cinzenta que Mário Silva, presidente da Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil (APCOI), diz ser urgente tornar visível. "Existe ainda muita falta de informação", afirma. Para o responsável da APCOI, o erro começa quando se faz uma associação automática entre obesidade e má alimentação. A alimentação saudável é importante, sublinha, mas não explica tudo. "A obesidade não vem só do facto de a pessoa comer X ou Y. É um problema de saúde."
A Mayo Clinic descreve, num artigo publicado, a obesidade infantil como uma condição complexa, em que podem estar envolvidos fatores genéticos e hormonais, acesso aos alimentos, stress, sono, condições sociais e económicas, medicamentos, hábitos alimentares e atividade física. Também alerta que o diagnóstico não se faz "a olho": o índice de massa corporal, as curvas de crescimento, o contexto clínico, a história familiar e os hábitos da criança devem ser avaliados por profissionais de saúde. Ou seja, o corpo de uma criança não é uma fotografia simples de uma escolha. É o resultado de vários sistemas que interagem de formas diferentes de criança para criança.
Mário Silva insiste nesse ponto: "O peso é um sintoma, é um sinal de que alguma coisa não está bem. Mas interessa perceber o que é que está a provocar isso." Na visão da APCOI, a resposta não deve começar pela acusação, mas sim pela investigação clínica, com equipas multidisciplinares que possam incluir pediatria, endocrinologia, psicologia e nutrição. Essa mudança de olhar é mais do que uma questão técnica. É também uma forma de retirar peso psicológico às famílias. "Quando fazemos a associação direta de que a obesidade é uma responsabilidade individual, provocamos naturalmente um sentimento de culpa e frustração", diz-nos. E essa culpa, acrescenta, pode afastar as famílias da ajuda profissional de que precisam.
Em Portugal, os números mostram que o tema não é marginal. De acordo com o Childhood Obesity Surveillance Initiative (COSI) Portugal 2022, coordenado no âmbito da iniciativa europeia da Organização Mundial da Saúde (OMS), 31,9% das crianças portuguesas entre os seis e os oito anos tinham excesso de peso, incluindo obesidade; 13,5% viviam com obesidade. Depois de anos de descida entre 2008 e 2019, os dados de 2022 voltaram a mostrar um aumento.
No plano europeu, a OMS/Europa publicou em 2025 a sexta ronda do COSI, com dados recolhidos entre 2022 e 2024. Os números ajudam a dimensionar o problema: entre as crianças dos sete aos nove anos, uma em cada quatro tinha excesso de peso - categoria que inclui a obesidade - e uma em cada dez vivia já com obesidade. A organização sublinhou ainda outro dado revelador: entre as crianças com excesso de peso, cerca de dois terços eram percecionadas pelos pais como tendo peso normal ou baixo peso.
Globalmente, a UNICEF alertou em 2025 para uma viragem histórica: pela primeira vez, a obesidade ultrapassou o baixo peso como forma mais prevalente de malnutrição entre crianças e adolescentes em idade escolar. O relatório estimava que uma em cada 10 crianças e adolescentes dos cinco aos 19 anos - cerca de 188 milhões - vivia com obesidade. A agência apontou também a exposição ao marketing de alimentos ultraprocessados como parte do problema, num ambiente alimentar em que produtos ricos em açúcar, sal, gorduras e aditivos competem com vantagem contra alimentos frescos e nutritivos.
Portugal tem sido apontado como um dos países europeus com políticas públicas relevantes nesta área. Em setembro de 2025, o país foi distinguido pelas Nações Unidas e pela OMS pelo trabalho de controlo e prevenção da obesidade, com destaque para medidas como a restrição da publicidade a alimentos não saudáveis dirigida a crianças, o imposto sobre bebidas açucaradas, regras para a oferta alimentar nas escolas e instituições públicas, e acordos para reformulação de produtos alimentares. Mas as políticas, por si só, não entram no recreio, não calam comentários, não curam feridas de autoestima. E é aí que a obesidade infantil deixa de ser apenas uma questão clínica ou estatística para se tornar uma experiência social.
Sofia Vieira lembra-se dos comentários de profissionais de saúde, de conhecidos, de desconhecidos. "Diziam que o problema era da panela lá de casa." Outras vezes, a comparação com o irmão gémeo era feita sem qualquer filtro: "Mas um é gordo e outro é magro". A mãe diz que o Gustavo começou a perceber cedo. "Por que é que eu sou assim? Por que é que o meu irmão não é? Por que é que ninguém cá em casa tem barriga como eu?" Na escola, ouviu nomes: "fofo", "balofo", "pareces uma bola de Berlim".
Mário Silva chama-lhe "terror psicológico". A obesidade, explica, é uma diferença visível e, por isso, torna-se facilmente arma de bullying. "No caso da obesidade, é impossível esconder. Está ali à vista de todos." Para muitas crianças, o estigma começa cedo, com o cliché do "menino gordinho que vai à baliza", o último a ser escolhido, o corpo transformado em anedota antes de ser entendido como sinal de uma doença. É por isso que a APCOI insiste nas ideologias de "zero culpa, zero pressão". A criança não deve ser culpabilizada por ter uma doença. E o tratamento não deve ser reduzido a uma obsessão com a balança.
"Não pode haver pressão para fazer dieta, para emagrecer", defende. O foco, diz, deve estar na saúde, na avaliação individual e no acompanhamento técnico. Restrição radical, sobretudo em crianças, pode ter o efeito contrário: criar medo da comida, culpa, compulsão ou distúrbios alimentares.
Na casa de Sofia e Paulo Vieira, pais do Gustavo, a vida foi mudando à volta desta tentativa de ajudar sem castigar. Passaram a usar pratos de sobremesa, copos com palhinha, talheres mais pequenos. Fazem caminhadas diárias com os gémeos, dentro dos limites que a condição neurológica de Gustavo permite. A comida não é tratada como tentação proibida. "Em nossa casa tudo está à disposição", diz Sofia. O que mais custa, conta-nos, é o olhar dos outros. O convite para festas onde os filhos ficam de lado porque não podem fazer as mesmas atividades. A insistência de quem diz que "um McDonald’s num dia não faz mal". A ideia de que os pais estão a ser rígidos demais quando, na verdade, tentam proteger uma criança que já carrega mais do que devia.
Quando se pergunta a Sofia o que gostaria que os professores, os profissionais de saúde e a sociedade entendessem melhor, a resposta vem sem rodeios: que estas crianças não são "o gordo que vai à baliza". Que não se deve presumir que comem bollycao's ou batatas fritas às escondidas. Que a obesidade não é uma escolha. "Ninguém escolhe ser assim", afirma. "Ele não quer ser assim."
O futuro, acredita Mário Silva, terá mais respostas clínicas, mais investigação e mais soluções. Mas o presente ainda exige uma mudança básica: parar de confundir doença com falha moral. A obesidade infantil precisa de políticas públicas, ambientes alimentares mais saudáveis, acesso a atividade física, consultas especializadas, apoio psicológico e acompanhamento familiar. Precisa de ciência. Mas precisa também de uma coisa mais simples: dignidade.
Porque, como lembra a história de Gustavo, há crianças que vivem todos os dias com um corpo que a sociedade comenta antes de compreender. E, muitas vezes, o peso mais difícil de suportar não é o que está na balança.
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