Em 2024, a American Psychological Association (APA) divulgou o seu relatório Stress in America, mostrando que mais de três quartos dos adultos nos Estados Unidos consideravam o futuro da nação uma “fonte significativa de stresse”. Um número que rivalizava com o impacto do desemprego ou da inflação na saúde mental coletiva. Dois anos depois, aqui estamos nós, em 2026, em Portugal e no resto do mundo, a assistir à propagação global dessa ansiedade política: não como um fenómeno distante do outro lado do Atlântico, mas como uma verdadeira condição pandémica de atenção permanente. A política, como Brett?Ford, psicólogo da Universidade de Toronto, salientou na análise da APA, não é apenas um tópico de conversa, é um stress crónico que nos persegue até nos sonhos.
Em plena corrida para as eleições presidenciais de 2026, cada scroll parece um teste de resistência emocional: notícias que prometem caos, bots que sussurram teorias e o eterno “e se…?”. Por isso mesmo, falámos com a psicóloga Ângela Rodrigues para perceber como sobreviver a este turbilhão político. A solução mais simples pode passar por dar umas festas ao seu gato ou, em contexto de família, abandonar a mesa de jantar a meio alegando que “é uma decisão consciente de preservar o bem-estar emocional e a relação”. Se nada resultar, talvez tenhamos de aceitar o único antídoto possível: o simples acto de votar.
Existe um “limite saudável” para acompanhar a atualidade política sem prejudicar o bem-estar emocional? Que limites devemos ter no doomscrolling?
Sim, existe e é fundamental estabelecê-lo. A exposição excessiva a notícias políticas funciona como um stressor crónico, mantendo o sistema nervoso em estado de alerta constante. O doomscrolling, hábito de consumir compulsivamente notícias negativas, ativa os mesmos mecanismos cerebrais da ansiedade, gerando um desgaste emocional significativo. O limite saudável é aquele que permite estar informado sem comprometer o bem-estar. Recomenda-se estabelecer horários específicos para ver notícias, por exemplo, 15 a 20 minutos duas vezes ao dia, e evitar fazê-lo logo ao acordar ou antes de dormir, quando existe maior vulnerabilidade emocional. É importante ouvir o corpo: tensão muscular, coração acelerado ou pensamentos incessantes são sinais claros de que é necessário fazer uma pausa. Deve-se escolher duas ou três fontes credíveis e evitar perder-se nos feeds das redes sociais, que são desenhados para prender a atenção através de conteúdos emocionalmente intensos.
Que estratégias simples podem ajudar a reduzir a ansiedade em dias de grande tensão política?
Em dias de maior tensão, é essencial adotar estratégias para acalmar o sistema nervoso. A primeira é reduzir drasticamente a exposição às notícias, desligar notificações e afastar-se das fontes de informação por algumas horas. Colocar o corpo em movimento é uma ferramenta poderosa. Uma caminhada, mesmo curta, ajuda a metabolizar as hormonas do stress e a libertar endorfinas, promovendo bem-estar. Caso não seja possível sair, qualquer movimento em casa já é benéfico. A respiração consciente também é muito eficaz: inspirar lentamente pelo nariz durante quatro segundos, reter brevemente e expirar pela boca durante seis segundos. Repetir durante alguns minutos ajuda o corpo a entrar num estado de relaxamento. Redirecionar a atenção para atividades sob controlo pessoal e que tragam prazer, como conversar com um amigo, ouvir música ou brincar com um animal de estimação, ajuda a quebrar o ciclo de preocupação constante e a recuperar o equilíbrio emocional.
Como lidar com discussões políticas em família ou entre amigos sem aumentar o stress emocional? É saudável evitar conversas políticas quando estas geram ansiedade?
As discussões políticas tornaram-se particularmente desafiantes porque tocam em valores profundos e na identidade pessoal. Antes de entrar numa conversa, é importante questionar a intenção: partilhar perspetivas e ouvir o outro ou tentar convencer. Conversas focadas em “ganhar” raramente são produtivas e tendem a gerar conflito. Quando se opta por conversar, é útil manter curiosidade e respeito, ouvir genuinamente o outro mesmo sem concordar e fazer perguntas abertas, como “o que te leva a sentir isso?”, em vez de afirmações categóricas. É absolutamente saudável evitar o tema quando as conversas se tornam consistentemente destrutivas. Proteger a relação pode ser mais importante do que debater. Pode-se expressar essa escolha com calma, afirmando que se valoriza a relação e se prefere não falar sobre o assunto para evitar mal-estar. Evitar não é fugir, é uma decisão consciente de preservar o bem-estar emocional e a relação.
Em que momento a ansiedade deixa de ser circunstancial e passa a exigir apoio psicológico?
É normal sentir ansiedade perante a situação política; trata-se de uma ansiedade circunstancial, uma reação natural a um evento stressante. O problema surge quando essa ansiedade não diminui após o evento e começa a interferir significativamente na vida diária. Os principais sinais de alerta são a duração, quando a ansiedade se mantém elevada durante semanas ou meses; a intensidade, com ataques de pânico, insónia persistente ou sintomas físicos como problemas digestivos; e o impacto no dia a dia, como dificuldades no trabalho, nas relações ou no autocuidado. Outros sinais incluem evitar situações sociais, isolamento, irritabilidade constante, pensamentos negativos difíceis de controlar ou o recurso ao álcool ou outras substâncias para lidar com a ansiedade. Nesses casos, é importante procurar apoio psicológico. A psicoterapia oferece ferramentas concretas para gerir a ansiedade e recuperar o equilíbrio, permitindo viver com mais leveza e tranquilidade.
Que cuidados emocionais recomenda para o período imediatamente após o resultado eleitoral?
O período pós-eleitoral é emocionalmente delicado, independentemente do desfecho. O primeiro cuidado é permitir-se sentir as emoções que surgem, sem julgamento, sejam elas alívio, tristeza, medo ou esperança. Todas as emoções são válidas. Recomenda-se fazer uma pausa deliberada das notícias e das redes sociais durante alguns dias, dando tempo ao sistema nervoso para acalmar após um período de grande tensão. É importante redirecionar o foco para aquilo que está sob controlo pessoal, já que a política nacional pode parecer imensa e gerar sentimentos de impotência. Procurar formas construtivas de canalizar a energia emocional ajuda a transformar ansiedade em ação, o que é mais saudável do que permanecer em preocupações constantes. Pequenas ações concretas devolvem o sentido de propósito e esperança.