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Confissões de uma empregada doméstica em Portugal. "Quando entramos num quarto, temos de fazer o trabalho como se fôssemos cegas."

Duas mulheres portuguesas, de 51 e 60 anos, relatam experiências que viveram em contexto do trabalho doméstico. Sim, incluem-se ordens proporcionalmente opostas aos salários baixos que recebem.

Foto: Pexels
15 de fevereiro de 2022 Rita Silva Avelar

O tema estava adormecido, até à estreia recente de Criada, série original da Netflix que replica a vida de uma mãe solteira que sofre de violência doméstica, foge e é acolhida num abrigo. No entanto, o emprego que consegue é uma posição precária numa empresa de limpezas domésticas. Além de agonizarmos ao longo de todos os episódios com a história da vida desafortunada de Alex (interpretada pela atriz Margaret Qualley), tanto porque foge de uma relação violenta, como porque tem zero estabilidade e apoio familiar, ainda sofremos ao vê-la a tentar conseguir um trabalho e ajuda financeira de forma desesperada. A certo ponto, como referimos, Alex sujeita-se ao duro e mal pago trabalho como empregada doméstica, maioritariamente em casas ricas, descobrindo segredos e manias.

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A história de Alex é a história de muitas mulheres ao longo de décadas, numa profissão que evoluiu da escravidão até aos tempos modernos. Segundo a historiadora brasileira Lorena Féres Telles, que reconstruiu essa transição na sociedade brasileira, "havia escravas que negociavam com as suas 'donas' e 'donos', pequenos compartimentos, fora da casa senhorial", e noutros casos, "a moradia, a roupa e a alimentação eram a única forma de pagamento". Ou, então, os seus salários eram tão baixos "que, frequentemente, inviabilizavam o pagamento de uma simples acomodação."

Quanto à realidade portuguesa, data de 1867 a primeira lei que separa as empregadas domésticas das pessoas escravizadas. Hoje, de acordo com uma outra dissertação da socióloga Mariana Louro Ramos, dedicada a analisar o perfil da mulher empregada doméstica em Portugal, "a entrada da mulher no mercado de trabalho veio alterar o quotidiano familiar" bem como a entrada de "mulheres imigrantes no mercado do serviço doméstico." A socióloga conclui que o tempo que a mulher dedica à realização dos trabalhos domésticos é menor, tendo que ser realizado por outra pessoa. "Trabalho este que é realizado por mulheres imigrantes, que por necessidade, têm que se sujeitar a condições de trabalho, na maior parte dos casos, precárias, uma vez que as mulheres portuguesas, empregadas domésticas, não aceitam trabalhar nas condições oferecidas."

Recentemente, em Monólogo de uma Mulher chamada Maria com a sua Patroa, Sara Barros Leitão aborda esta realidade em palco, ao longo de 1h40 (ironicamente, o tempo de um ciclo de lavagem de roupa), e mergulha na história do trabalho doméstico em Portugal. Neste espectáculo, a atriz e encenadora questiona se precisaremos mesmo de empregada doméstica, e se estas devem ser consideradas "como família", para as famílias portuguesas. "A Organização Internacional do Trabalho fez um inquérito em que perguntou às empregadas domésticas se viam mais vantagens ou desvantagens em serem consideradas da família. E a grande maioria via mais desvantagens", conta Sara, numa entrevista à revista Visão. Esta e outras críticas estão bem presentes no seu monólogo.

Uma das várias tarefas das empregadas domésticas
Uma das várias tarefas das empregadas domésticas Foto: Pexels

Maria Luísa, 60 anos, não se sente como se fizesse parte da família dos patrões, para quem trabalha como empregada doméstica há mais de cinco anos e de forma permanente, mas nutre empatia pelos mesmos. Limpa, arruma, engoma, às vezes trata de deixar a comida pronta, apanha roupa do chão, faz e desfaz camas, sempre ao serviço desta família, e dos seus desígnios domésticos. "Faço tudo, o que existir para fazer." Não se sente sozinha, porque encontra sempre as vizinhas de um lado e de outro da rua, "e nunca me aborreço. Muitas vezes escolho virar-me para a janela para poder ver a rua enquanto faço as coisas, como passar a ferro." É o que está a fazer, quando nos atende para esta entrevista. Trabalha cerca de sete horas diárias, incluindo a hora de almoço, com um salário de 400 euros, "com as quartas-feiras sempre livres, bem como o fim de semana", explica.

O primeiro trabalho que teve foi na década de 70, em casa de lavradores senhoriais, detentores de inúmeras propriedades e bens, mas nessa altura era a sua mãe que ia com mais frequência às casas, montada quase sempre em cima de uma burra, e trazendo muitas vezes alimentos para consumo da própria família.

Foi na quinta de um casal alemão com uma propriedade no Alentejo que teve o seu primeiro trabalho como doméstica, aos 27 anos, fora as vezes que ajudava a mãe. Levava muitas vezes a irmã mais nova para o trabalho. Ambas se lembram bem desses tempos. "Tínhamos de limpar a casa, os cobres e as pratas até ficarem a reluzir, fazer as camas muito, mas muito bem, com os lençóis muito bem dobrados". Maria Luísa começou até a fazer comida tradicional alemã, "como ratatouille ou beringelas recheadas, e partia incansavelmente nozes e amêndoas para terem sempre como aperitivo, que adoravam", recorda.  

Filomena José, de 51 anos, trabalha em várias casas há muitos anos, entre elas algumas propriedades de pessoas abastadas. A maior dificuldade deste trabalho, começa por dizer, é "adaptar-me a cada pessoa, a cada casa, a cada estilo de vida. Aceitar este tipo de emprego é sempre ir às escuras, podemos ir com o conhecimento das tarefas que vamos realizar, mas nunca sabemos o que vamos encontrar."

O dia a dia de uma empregada doméstica
O dia a dia de uma empregada doméstica Foto: Pexels

Fala também na invisibilidade das funções de uma empregada doméstica. "É um trabalho sem reconhecimento, nunca existe lugar para subsídios, seja de refeição, férias ou natal, não existe espaço para férias, feriados, fins de semana seja natal, seja em qualquer outra época importante. Não há espaço para baixas. Não existe uma lembrança de quando é o nosso aniversário, se estamos bem de saúde ou não, o importante é o trabalho aparecer feito" diz, em jeito de desabafo. Já as exigências são altas. "Nenhum bibelot pode ficar fora do sítio onde se encontrava. Não se pode utilizar produtos de limpeza nos móveis, apenas um pano."

Alguma vez descobriu segredos sem querer? Perguntamos. "Sim, quando cuidamos do espaço íntimo de outras pessoas, como é o quarto, temos de fazer o trabalho como se fôssemos cegos, surdos e mudos. Houve uma vez, num dia comum a tantos outros, que me deparei com uma arma de fogo na mesa-de-cabeceira, um revólver."

A remuneração, diz ainda Filomena José, é sempre muito baixa, seja em casas de gente de classe alta ou de classe média. "Essa é a questão mais óbvia, por não ser um trabalho reconhecido, muitas das vezes nem existe contrato e os patrões aproveitam isso para definir o valor que mais lhes convém, não olham para o que fazemos como um trabalho digno e diminuem-nos de certa forma por isso, o que muitas vezes afeta a nossa autoestima, e a falta de vontade em exercermos o mesmo. A minha experiência é que em 100 existe apenas uma pessoa que nos valoriza realmente."

 

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