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"Ao comprarmos produtos, pensamos que estamos a comprar felicidade"

Quem é o engenheiro da Google que quer tornar mil milhões de pessoas felizes? E porque fala um matemático sobre a fórmula para se ser feliz?

18 de agosto de 2020 | Rita Silva Avelar

Se fizermos uma pesquisa rápida no Google pelo nome Mo Gawdat, a palavra felicidade aparece de imediato – e por todo o lado. É sobre aquilo que todos queremos (ser felizes, certo?) que nos preparamos para falar com o próprio, no jardim de um hotel em Lisboa, num dia quente de maio. Engenheiro civil de profissão, Gawdat é Chief Businness Officer da Google X (o departamento secreto da entidade) e é responsável por projetos como o primeiro carro autónomo ou pelos balões de alta altitude que levam Internet a áreas remotas. Depois de ter feito uma palestra sobre a felicidade que se tornou viral na Internet e chegou a milhares, escreveu A Equação da Felicidade (Solve For Happy), um best-seller sobre a fórmula da felicidade, que já chegou a 25 países.

Como é que um crânio da Física, da Matemática e da Engenharia se debruça sobre a fórmula da felicidade? É que aos 29, já milionário, e depois de encomendar dois Rolls-Royce com apenas dois cliques e perceber que isso ainda o fazia sentir mais deprimido do que já estava, decidiu mudar o estado das coisas. Junto com o seu filho Ali começou a trabalhar num método que é hoje a fórmula 6x7x5. Mal saberia Gawdat que, anos mais tarde, quando o filho morre aos 21 anos durante uma rotineira operação ao apêndice devido a um erro médico, teria de aplicar a fórmula a si e aos seus, para ultrapassar o sofrimento e viver com a dor de perder Ali. Mas o engenheiro foi mais longe: comprometeu-se a levar a garrafa de vidro com a mensagem da felicidade não por mar, mas pela palavra, a mil milhões de pessoas, com o movimento #onebillionhappy. E é isso mesmo que está a fazer.

Qual é a sua memória feliz mais antiga?

Até hoje, sempre adorei aprender. A minha mãe foi professora e estava sempre a ler, por isso cresci a pensar que ler era algo mesmo importante. Aos 5 anos comecei a sentir inveja das pessoas porque não conseguia ainda ler, então punha o jornal à minha frente para tentar fazê-lo. Comecei a ler muito cedo, antes da escola primária. Essa memória é uma memória feliz.

E, mais tarde, decidiu tornar-se engenheiro. Porquê?

Eu li muitos livros sobre Física, à medida que ia crescendo. Li sobre Física Quântica aos 11 anos, li a Teoria da Gravidade aos 9 anos. A par disso tudo, também fui lendo sobre espiritualidade. No Egito [onde cresceu] a religião é algo muito importante, por isso decidi que eu não ia apenas seguir o que todos seguiam, ia aprender e ler sobre as várias religiões.

E como resulta essa combinação?

Acabei por criar uma estranha fusão entre as minhas áreas preferidas, Mecânica, Física, Matemática, e Espiritualidade e Religião. Depois combinei-as de forma interessante, também recorrendo às Ciências Computacionais (eu era um geek!), e acabei por escolher estudar Engenharia Civil.

Segue-se uma carreira bem-sucedida, um casamento com uma mulher lindíssima (como referiu ao jornal The Guardian) e dois filhos. Em que momento percebeu que não era feliz?

Não tinha uma vida aborrecida, mas estava infeliz. Fui muito feliz até aos meus 23/24 anos e aos 29 anos atingi o sucesso na minha carreira (a um ponto a que as pessoas aspiram a meio da vida).

Foi aí que ficou milionário?

Sim, tinha muito dinheiro e casei-me com uma mulher admirável e bonita, que me deu dois filhos maravilhosos. Eu podia fazer o que quisesse, ir para qualquer destino de férias, comprar qualquer carro, qualquer gadget e sentia-me miserável. Estava deprimido. Trabalhava como day trader*, o que era um trabalho de topo na minha profissão, e fiz uma quantidade inacreditável de dinheiro. E quanto mais dinheiro fazia, mas infeliz me sentia.

Há muitas pessoas que acreditam que a felicidade plena depende dessa quantidade de dinheiro. Não há ponta de verdade nisso?

As pessoas vivem sob camadas e camadas de ilusão. Todos nós nascemos felizes e as nossas necessidades são fisiológicas, resumindo-se a isso. À medida que crescemos, o mundo moderno (começando pelos nossos pais) faz-nos acreditar em certas imagens e padrões estabelecidos. No primeiro dia de escola é-nos dito, logo e apenas com 6 anos, que a diversão acabou, que é hora de se ser sério. Deixamos de ser crianças e tornamo-nos mais maduros e as nossas crenças começam a girar à volta da ideia de ter sucesso na vida. A sociedade faz-nos acreditar que o sucesso é mais importante que a felicidade e faz-nos acreditar que para se ser bem-sucedido é preciso pagar-se o preço da infelicidade. Que não se pode ser bem-sucedido e feliz ao mesmo tempo. Acontece vermos milionários de Wall Street, em Nova Iorque, a sentir-se miseráveis.

Como é que acabamos a sentir-nos assim, mesmo sabendo a verdade?

Quando começamos a seguir o mundo moderno, começamos a tornar-nos mais e mais infelizes. Ao comprarmos produtos, pensamos que estamos a comprar felicidade. Compramos um telefone novo a pensar que nos faz felizes – sim, por meia hora. Depois compramos um carro a pensar no mesmo – sim, faz-nos felizes uma semana. Isto porque a felicidade não está nessas coisas, não pode ser encontrada fora de nós, mas sim dentro. Não só fomos ensinados que o sucesso é mais importante que a felicidade como que é correto assumir que vamos ser infelizes para ser bem-sucedidos.

Costuma dizer que a felicidade é como estar em forma…

Se uma pessoa decidir que vai ficar em forma, se essa for a sua prioridade e se a pessoa treinar entre 4 a 5 vezes por semana, vai ficar em forma. A felicidade deve ser a nossa prioridade.

Qual é a maior ilusão da felicidade?

A verdade é que todos buscamos este estado de alegria, mas, como disse, no mundo moderno criticamos tudo, a toda a hora, e começamos a preencher a falta dela com diversão e prazer. Eu chamo a este fenómeno "armas de distração em massa" que é uma tentativa de esquecermos as preocupações. Por exemplo: acordamos de manhã a sentir-nos em baixo, vamos ao ginásio, ouvimos música, tomamos banho, mais tarde vamos a uma festa com música bem alta e tomamos uma ou duas bebidas – tudo isto são momentos que nos fazem suspender o nosso cérebro para evitarmos os problemas que nos rodeiam e adiarmos a sua resolução.

E no dia seguinte?

No dia seguinte, acordamos, o nosso cérebro tenta de novo abordar o que nos está a perturbar e não deixamos. É como quando se tem dor de cabeça, toma-se um comprimido, mas sabemos que esta dor só desaparece por 4 horas. Resumindo: aquilo que não nos faz felizes volta sempre a incomodar-nos se insistirmos em ignorar a sua abordagem. Há um estudo que diz que 60% a 70% dos pensamentos num adulto são negativos ao olhar o mundo (a tal comparação de eventos com expectativas). Não é preocupante?

É assustador. Foi por isso que decidiu criar o método 6x7x5? O que significa?

Há 6 grandes ilusões e 7 ângulos mortos. As grandes ilusões são conceitos que aprendemos a acreditar para ter sucesso (e que resultam, mas não nos fazem felizes). Por exemplo, o controlo que aplicamos nas nossas vidas. Achamos que controlamos a vontade e os sentimentos dos outros, o trânsito, o tempo. Mas há coisas que não poderemos nunca controlar. A Teoria do Caos diz isso mesmo: qualquer coisa que tentemos controlar irá, provavelmente, tomar um rumo imprevisível. Só aos 50 ou aos 60 é que aprendemos a deixar de o fazer, mas porquê? Porque não aprender a controlar apenas aquilo que é controlável (quando os eventos correspondem ou superam as nossas expectativas realísticas) logo aos 20?

Se soubéssemos aos 20 o que sabemos aos 50, talvez fosse diferente. E os 7 ângulos mortos, o que representam?

Os 7 ângulos mortos são na verdade recursos do cérebro, não erros, para fugir de situações perigosas. Por exemplo, no tempo das cavernas, quando um tigre aparecia, o cérebro humano não via beneficio nenhum em pensar: "Bem, que animal tão bonito!" Por outro lado, o cérebro dizia: "Se não fugires, vais morrer." Os recursos do cérebro encobrem os aspetos positivos e fazem-nos encontrar apenas os pontos negativos, por isso é o que vai fazer com que, numa situação como a do tigre, sobrevivamos. No livro ensino a remover as 6 ilusões e os 7 ângulos mortos, para que a equação da felicidade não seja corrompida.

Por fim, o que aprendemos com o número 5?

São 5 verdades fundamentais que nos ajudam a compreender que a vida é sempre o que esperamos dela. Uma delas é aceitar que vivemos no aqui e agora, não no ali ou num futuro que imaginamos. Por isso, porque não vivemos o agora? O que faríamos se soubéssemos que iríamos morrer amanhã? Durante 5 anos resolvi a primeira parte da equação e concluí que 98% das vezes não há razão para não se ser feliz, se solucionarmos essa primeira parte. E depois percebi que mesmo que a vida seja difícil, ela preenche facilmente as nossas expectativas.

Consegue explicar melhor?

Eu explico. Por exemplo, se colocarmos dois polos magnéticos perto um do outro, eles colam-se. E isso incomoda alguém? Não, porque sabemos que é o que vai acontecer, é o que se vai passar se os colocarmos perto. Quando se percebe que a verdade é a verdade, é mais fácil aceitar as coisas e ser-se mais feliz. O meu filho Ali morreu e eu podia chorar por toda a minha vida, mas isso não iria trazê-lo de volta. E isto é a realidade, é a verdade. A questão é: mesmo que não gostemos desta ideia, é algo esperado, toda a gente um dia vai morrer.

A morte é uma dessas verdades fundamentais?

Quando sabemos e aceitamos que há verdades inquestionáveis como a morte, deixamos de sufocar a todo o momento. Este é o processo: reagir à mudança ao saber que o melhor a fazer é lidar com ela com a verdade, aceitar essa verdade e fazer o melhor que se pode; depois chorar; depois aceitá-la de novo e fazer o melhor que se pode. Logo a seguir à morte do meu filho Ali passei as horas seguintes a chorar, a pensar que o podia ter levado a outro hospital e depois pensei – ele morreu. O que é que eu posso fazer em relação a isso?

E o que decidiu fazer?

Escrever o modelo da felicidade do Ali e fazê-lo chegar a milhares de pessoas. Partilhá-lo com o mundo. O que me fez de imediato sentir, mesmo sabendo que o perdi, que isso poderia tornar a minha vida pelo menos suportável.

O que é que as pessoas pensavam, inicialmente, desta fórmula?

Em 2009 comecei a partilhar a fórmula com os meus amigos, até aí era algo mantido só na família. Eu não sou um guru a viver no meio da selva ? por outro lado, a minha vida profissional é esgotante e stressante. Como sou do Médio Oriente e viajo por todo o mundo, sempre vivi com a desconfiança das pessoas à minha volta. Na altura em que comecei a aplicar a fórmula, mesmo que viajasse durante 12 horas ou que me parassem na segurança do aeroporto para me interrogarem durante 4 horas, o sorriso nunca me abandonava.

Nunca ficava aborrecido?

Nada haveria de mudar a minha felicidade. Foi nessa altura que os meus amigos também quiseram começar a experimentar a fórmula. Seis semanas depois de o vídeo sobre a equação da felicidade ter saído, a mensagem chegou a 100 mil pessoas. Agora, o objetivo é chegar a mil milhões de pessoas. Só quero uma coisa: tornar as suas vidas mais felizes.

E o que aconteceu aos amigos naturalmente pessimistas?

O simples ato de nos sentarmos com pessoas positivas já nos faz aprender os seus padrões e observar a forma como expressam a sua felicidade em torno de outros. Se um dos nossos amigos nos está a fazer sentir o contrário, nos puxa para baixo, o primeiro passo é dizer-lhe e perguntar se isso pode mudar. Porque a infelicidade é contagiosa. Se nos sentamos com pessoas pessimistas, sempre a ver o lado mau, estas pessoas vão, imediatamente, quebrar a nossa equação da felicidade. Para estas pessoas, tudo é um problema ? até o som do ar condicionado num jardim pleno de luz e flores durante uma boa conversa.

E como podemos mudar o pensamento dessas pessoas?

Em casos em que estas pessoas negativas estão no nosso círculo familiar, eu costumo dizer que a elas devemos três coisas: amor, atenção e respeito. Não a nossa infelicidade. Por exemplo, a minha mulher sempre foi muito protetora e preocupada com os nossos filhos. Sempre que pedia ao nosso filho Ali para fazer algo contra a sua vontade, ele questionava-a e dizia que não queria fazê-lo. Mas ela insistia. Então, ele acaba por dizer: "Mãe, eu não o vou fazer, mas eu amo-te."

Como é que ele era com as pessoas que não conhecia?

Ele era muito consciente, queria mudar o estado das coisas e dizia às pessoas para viverem com os valores corretos. Tornar os seus amigos mais felizes, que eram pessoas com idades que iam dos 10 aos 70 anos. Quando o memorial dele aconteceu, várias pessoas vieram dizer-me que o Ali tinha mudado as suas vidas. O Ali era tudo de bom que existia. Ele costumava sentar-se com os sem-abrigo na rua e falar com eles durante horas.

Recorda-se de algum episódio em particular?

Uma vez sentou-se com uma senhora já idosa, falaram horas a fio e ele deu-lhe todo o dinheiro que tinha no momento. Depois, ela correu atrás dele, abraçou-o e deu-lhe a única coisa que provavelmente guardou toda a vida: um tubo de creme de mãos, ainda fechado. Foi um gesto de enorme importância para ambos. O meu filho não era a pessoa que estava sempre em festas, mas sim junto das pessoas que precisavam mesmo dele. Ele ensinou-me algo precioso: que toda a gente importa. Que a felicidade de cada um de nós importa.

*Day trading, daytrade ou intraday trading é uma modalidade de negociação utilizada em mercados financeiros que tem por objetivo a obtenção de lucro com a oscilação de preço, ao longo do dia, de ativos financeiros.

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A Equação da Felicidade, por Mo Gawdat, €16,90 [lua de papel]
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