Os Óscares estão mais femininos, mas ainda não chega
As recentes nomeações aos Óscares mostram um aumento no número de mulheres nomeadas. Ainda assim, estamos longe de uma igualdade de género e a previsão é que os discursos continuem a ser mais masculinos. Não deixa de ser frustrante esta abertura ao cinema do mundo com filmes do Brasil, Irão e Noruega não contribuir para a tão esperada redução do fosso entre homens e mulheres.
Os Óscares ainda são um mundo de homens? A resposta é um afirmativo sim. As recentes nomeações aos Óscares mostram apenas 30 por cento das nomeações foram para o género feminino, ou seja, 74 mulheres contra uma maioria masculina.
A questão que se impõe é pode ser lícito festejar-se o maior recorde de representatividade feminina mesmo assim? O bom senso pede para haver alguma cautela. Se é verdade que os números em torno de uma igualdade vão aumentado, a balança continua a estar demasiado inquinada para os homens, sobretudo quando no espaço mediático há um certo empolamento com um outro feito, o de Chloe Zaho, a realizadora de Hamnet ter entrado no restrito clube de mulheres realizadoras com mais do que uma nomeação, um clube onde apenas pertencia Jane Campion, cineasta de O Piano e O Poder do Cão. Custa a crer que depois destes anos todos este privilégio apenas tenha tocado duas cineastas.
O copo meio cheio também poderá mostrar que num futuro próximo cineastas como Greta Gerwig, Maggie Gyllenhaal ou Kathryn Bigelow (este ano ignorada no drama catastrófico Prestes a Explodir, o filme que a Netflix não soube fortalecer na temporada dos Óscares) possam também entrar para este tal circuito restrito.
Uma diretora de fotografia que pode fazer história
Daquilo que é particularmente entusiasmante nestas nomeações da Academia é a inclusão de alguns nomes femininos nas categorias técnicas. E porque é raro diretoras de fotografia em Hollywood, há que saudar a presença nas nomeações de Autumn Durald Arkapaw, autora da luz estonteante de Pecadores, o filme com mais nomeações de sempre na História: são 16, sim 16! Uma nomeação justíssima num trabalho de criação de atmosferas quentes numa história sobre racismo no sul dos EUA e com muito “flow” de música, sangue e sexo. A outra boa notícia é que Autumn é mesmo a favorita para vencer o Óscar. Se se concretizar será a primeira mulher a vencer esta categoria, uma categoria em que só outras três diretoras de fotografia chegaram ao patamar das nomeações. Na categoria de som é ainda mais estimulante perceber que os três filmes nomeados têm três mulheres como técnicas. Aí é um Óscar garantido no feminino.
Menos surpreendente é na categoria de melhor guarda-roupa apenas estarem nomeadas mulheres. Esta categoria, dizem os números, tem tido mais mulheres nomeadas do que homens. É a única em que os homens ficam geralmente em plano secundário, o oposto nos efeitos visuais, onde as vastas equipas nomeadas são compostas quase só por homens: em 20 nomeados, só uma mulher, uma criativa que ajudou a criar dinossauros no novo Jurassic World.
Um toque feminino na animação
E é também interessantíssimo perceber-se que nos filmes de animação há um forte contingente feminino. Aliás, os filmes nomeados têm todos um recorte narrativo assente na força feminina. Nesse aspeto, o mais belo dos cinco nomeados, o francês A Pequena Amélie, de Liane Cho-Han e Maillys Vallade, valida todo o seu poder encantamento nos ensinamentos femininos de uma ama japonesa a uma menina belga num Japão idílico. Cinema de animação pensado com alma feminina e executado com um gesto de poesia de desenho cromático ainda mais feminino. É uma obra quase a estrear em Portugal.
Ao contrário dos Óscares, a presença visível de cinema feito por mulheres nos grandes festivais internacionais é bem superior. Os programadores de Cannes, Veneza ou Berlim, têm tido um cuidado maior. O cinema do mundo, sem a máquina da indústria americana, está a dar bem mais espaço a novas realizadoras e a potenciar o crescimento de cineastas. O anúncio da próxima colheita da Berlinale assim o prova.
É nas atrizes que está o ganho
Ainda assim, nas nomeações dos prémios femininos de interpretação, o talento feminino, dê por onde der, vai estar sublinhado ao máximo. Trata-se de um ano particularmente feliz, a tal ponto que foram muitos nomes a ficar de fora sem vaga, alguns deles a causar alguma surpresa. Por exemplo, Ariana Grande em Wicked Pelo Bem há um mês atrás estava particularmente garantida na luta pela estatueta de atriz secundária. A sua omissão terá sido punição pela forma como esta sequela foi recebida com frieza pela imprensa mundial, mesmo com os resultados milionários na bilheteira. Também nesta categoria, a omissão a Emily Blunt em The Smashing Machine: Coração de Lutador parece trazer o travo de injustiça, embora seja preciso reconhecer que o efeito estado de graça de Valor Sentimental se repercutiu nas interpretações e tornou as vagas mais escassas: Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning e Renate Reinsve estão todas nomeadas, esta última na categoria de atriz principal, categoria essa onde há um duelo de interpretações de excelência - por um lado a mãe psicóloga em “burn-out” de Rose Byrne em Se Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé, do outro, a mãe em luto de Jessie Buckley nesse tão emocional Hamnet.
Sem querer fazer futurologias, a condição feminina nos Óscares de 15 de março está bem representada mas é quase garantido que Chloe Zaho não repita o discurso emocionado quando venceu há uns anos por Nomadland- Sobreviver na América ou, com este filme, o Golden Globe. As fichas estão todas em Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson ou nesse conto de vampiros tão sensual chamado Pecadores, de Ryan Coogler.
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