"Os líderes dominam ao manter os outros desinformados. A curiosidade é uma estratégia de sobrevivência."
Tracie D. Hall veio a Lisboa, ao festival 5L, o Festival de Literatura e de Língua Portuguesa, falar de desinformação, censura de livros e do fim da democracia. A Máxima foi conversar com ela.
Numa tarde especialmente quente de maio, a estalar no Beato Innovation District, em Marvila, a visão dos tempos incertos em que vivemos pareceu tocar o apocalíptico. Observada pela primeira mulher afro-americana à frente da Associação Americana de Bibliotecas, fundada em 1876, professora universitária na Universidade de Washington, estudou nesta universidade, mas também em Yale, na Universidade da Califórnia, na Universidade de Nairobi e na de Dar es Salaam. Recebeu um grande prémio literário por Serviços Notáveis à Comunidade Literária Americana, em 2022, é autora, bibliotecária, trabaIhou na Universidade Dominicana, na Fundação Joyce, na Biblioteca Pública de Queens e na de Seattle, é curadora e defensora das artes e dos direitos humanos. Conversar com ela no que foi um armazém, paredes descarnadas e tetos imensos, é uma viagem sentimental e um exercício idealista que vai do medo ao humano esperançado.
Tivemos o Índex da Igreja Católica, as raparigas foram proibidas de ler, durante séculos. Como é que assistimos, hoje, à proibição de livros e ao recuo no ensino feminino nos países muçulmanos. O que move a desinformação como estratégia?
Infelizmente, é o mesmo impulso: o de os líderes dominarem ao manter os outros desinformados, dominar completa e totalmente medos específicos e assim reduzirem a competição. E depois chamar-lhe meritocracia. É inacreditável o gaslighting [manipular alguém psicologicamente, distorcendo ou falsificando informações] que acontece por estes dias. Podemos ligar estes impulsos como sendo idênticos, mesmo em diferentes eras, visto que têm exatamente as mesmas motivações: autoengrandecimento, pessoas egotistas e arrogantes que querem ser vistas como heróis, importantes.
É a primeira mulher, e afro-americana, a dirigir a Associação Americana de Bibliotecas. A baixa literacia feminina preocupa-a?
Não consigo evitar pensar nas raparigas e mulheres, em todo o mundo, a quem lhes é negado o direito à leitura. Muitas vezes, é normalizado que as raparigas de uma certa idade já não vão à escola ou não vão à escola de todo! Há pais, ainda hoje, que perguntam a si mesmos se a educação das filhas é um bom investimento. Penso nas que têm de suspender as suas aspirações e sonhos, o que queriam ter sido e do que têm de abdicar, para serem mães. Ou que nem sequer se sentem confortáveis para falar em nome da sua filha, assisti-la na escola, assegurar que ela faz o ensino secundário ou segue para a universidade. Penso nas mulheres todos os dias. Penso na minha avó que viveu numa quinta, tinha 11 irmãos e tinha de trabalhar e foi só até ao terceiro ano, depois até ao sexto e depois até ao nono, teve de estudar por rotatividade porque era esperado que tivesse de trabalhar todo o ano. Penso na minha avó, na sua curiosidade e na sua alegria, o que ela adorava quando eu trazia para casa os meus projetos escolares e a minha arte. Ficava com toda a minha arte, mesmo a terrível, pendurava-a na parede, até nos trabalhos de aula ou num teste de ortografia punha um prego. Pensava nisso quando era criança: porquê um teste de ortografia? E ouvia, com muita paciência, quando Ihe descrevia o que tínhamos feito na escola. Hoje, quando penso nisso, julgo que talvez existisse uma parte dela que vivia indiretamente através de mim e do que eu achava interessante. Ter uma neta a quem pode dedicar atenção, para quem tem, entretanto, mais tempo e paciência. Havia uma parte dela, talvez, que imaginava se pudesse ter ido à escola também... Penso na minha avó e nas mulheres de todo o mundo a quem foi negado o acesso a uma educação consistente de alta qualidade, é por isso que temos de ler, é por isso que defendo as bibliotecas e luto pela educação das meninas e das mulheres.
Ainda por cima, são as primeiras grandes educadoras. Ter uma mãe que lê é um salto.
É verdade e isso impacta! Acho que, de muitas formas, nós completamos os sonhos dos nossos pais e avós. A avó do meu pai, depois da reconstrução e do período da escravatura, e tudo isso, abriu uma escola de sala única para ensinar crianças negras. O meu pai insiste que a razão por que me tornei bibliotecária é porque tenho o seu ADN. E tenho dentro de mim essa vontade de educar e apoiar, ele tem toda a razão (risos).
Ao mesmo tempo, toda a gente parece ter uma opinião sobre tudo. Se a liberdade de opinião é fundamental, nem todos têm coisas a dizer ou a acrescentar. Falamos todos ao mesmo tempo e são postos no mesmo saco os sábios e os ignorantes. Como sabemos quem está a dizer a coisa certa?
Acho essencial ouvir todos os pontos de vista, todos os lados, e é importante mantermo-nos curiosos. A curiosidade é uma estratégia de sobrevivência. Para não cair apenas em padrões familiares e te perguntares: a informação que estou a consumir preenche alguns dos meus critérios? Tem a intenção de ajudar? De informar? Procura os diferentes lados de uma história? Tem a intenção de ser partilhada ou tem um propósito específico? É propaganda? É alguém a querer contar apenas um lado da história, quem é o vencedor ou quem é a vítima? E alguém que omite uma parte da narrativa ou convida para a conversa pessoas que têm um ponto de vista completamente diferente? O que queres fazer com a informação? O que queres que ela faça por ti? O que acontece agora é que muita da informação que consumimos tem excesso de curadoria ou vem por meio de máquinas e do machine learning, da IA, o computador passa a ter uma ideia de quem somos, do que gostamos, de onde vivemos. Em alguns casos, são mesmo exatas e usam todas as estratégias, de localizacão ou de psicografia [estatísticas que classificam grupos populacionais de acordo com variáveis psicológicas como atitudes, valores ou medos], todo um conjunto de modelos de linguagem, para compreender e definir quem somos e do que devemos gostar. É essa sobrecuradoria que nos dá aquela opção, por isso nós não estamos a expandir, podemos achar que temos acesso a um conjunto completo de informações, mas não é verdade, é muito parcial e unilateral. Mesmo quando olhamos para o ChatGPT e a Cloud AI, todas essas ferramentas, sabemos que se fizermos uma pergunta, temos mais probabilidade de ter uma variedade de respostas, pelo menos alguma variação; mas se dissermos a mesma coisa com um ponto final, é mais provável que tenhamos o nosso ponto de vista inicial corroborado. Então, mesmo com uma ferramenta destas conseguimos perceber se estamos a agir, porque estamos curiosos ou porque estamos certos. Temos de perceber isso, é importante. Talvez possamos sentir-nos um pouco alarmados, mas temos de perceber que a busca de informação requer uma verdadeira busca. Senão, quando importa, quando a informação nos pode ajudar, quando dela depende o nosso bem-estar ou fazer boas escolhas, quando procuramos ter uma opinião de voto ou perceber se um candidato é sincero ou não, podemos cair em grandes armadilhas. É o que está a acontecer agora.
Com as novas gerações a terem uma atenção média de leitura de cinco minutos, como podem ser críticos?
É uma realidade. É da leitura que vem a curiosidade, todos devíamos ler muito mais. Digo sempre isto: precisamos de uma revolução de leitura! Consumimos bastante informação, muitos ouvem-na, outros até podem ler e dizer: "Estou a ler mais." Mas lês de maneira diferente. Recebes imensa informação, mas não a estás a verificar, a confirmar. Isto é verdade? O que vou fazer com esta informação?
Temos de a mastigar.
Devemos mastigá-la bem, mas estamos a engoli-la e isso é perigoso. É perigoso com a comida e é, de certeza, com a informação. Temos mesmo de ser diligentes porque estamos a receber uma sobrecarga de informação e não estamos a convertê-la em conhecimento. Ler é a ação de interpretar a informação e convertê-la em conhecimento.
E é completamente diferente ler em papel ou num ecrã de portátil ou de telemóvel...
Absolutamente! E não quero dizer que não possas extrair sentido quando lês no teu telefone, mas tens de te lembrar de não fazer scrolling, senão estás só a deslizar para cima e a deslizar para cima o tempo inteiro. Às vezes, estamos apenas a dar uma vista de olhos e não estamos a compreender o conteúdo real. Ler exige alguma imersão, estás atento ao que se está a passar, estás a pensar sobre o assunto e, por vezes, até a pôr-te naquela situação particular ou espaço. Não faças scroll! O que me dá esperança é que há muitas pessoas a ler livros online, podem ter uma vista mais fraca (eu tenho e adoro a luz de fundo). Para mim, é importante envolver-me com a textualidade, o que é que o autor está a tentar dizer? O que é que as personagens estão a fazer? Como a história está a evoluir? E se não é ficção, o que é que sabemos agora e não sabíamos antes? Esse nível de interação e de envolvimento exige uma maior atenção e não a que usas para fazer scroll no telefone.
Têm saído alguns livros sobre livros, bibliotecas, livrarias. Apesar de tantos livros escritos, tanto pensamento produzido, com o advento da tecnologia, arriscamo-nos a perder a democracia?
Acho que há sinais de que está, definitivamente, a estalar. É claro que vejo estudos que o indicam, vejo pontas soltas. Penso que, quando chegamos a um tempo em que estamos a negar às pessoas acesso ao tipo de informação que pode transformar e informar as suas vidas, isso é muito problemático. E em que o dinheiro, o capital, está a produzir-se com e pela nossa carência, isso é importante... E quando temos espaços onde não podemos, sequer, falar uns com os outros sem querer discutir, isso diz muito. Quando temos políticos e governos que querem ser reis, ou não estão interessados na democracia, é problemático. E estamos a ter agora uma participação eleitoral tão baixa, não temos sequer um mandato, é "olhar para dentro do frasco e ver o que sai". Como é que podemos dizer, verdadeiramente, que esta é uma democracia quando tão poucas pessoas se envolvem efetivamente? E sabemos porquê, porque não lhes foi dada educação suficiente e porque há muita propaganda e desinformação. Nós, na última eleicão, tivemos até desinformação que dizia: "Ah, não vamos votar no dia 5 de novembro, vamos votar para a semana!" E houve padrões destes um pouco por todo o país, especialmente apontado às classes com rendimentos mais baixos e aos potenciais votantes of color. Quando começamos a ver este tipo de coisas a acontecer, sem dúvida de que a democracia está ameaçada.
A globalização também não ajuda, estes problemas parecem doenças que se espalham pelo planeta...
Viajam como um vírus. Se alguém descobre que fechar a internet na iminência de uma eleição resulta, vão tentar. Se dizer que as votações são no dia errado resultar, vão tentar. E eu posso fazer todas estas promessas, e fazer de conta que vou fazer tudo isto para ajudar as pessoas, se funcionar, vão tentar. Tens toda a razão, é o que vemos acontecer com a censura. Os Estados Unidos, o suposto berço da democracia, está a conseguir, ao banir livros, dizer que estes são contrabando, está a pôr bibliotecários na prisão e a retirar fundos a bibliotecas em todo o mundo. E vês as pessoas a tentarem versões da mesma atitude. É como um vírus que, se continuar a ser transmitido, vai adoecer todos, sendo muito difícil encontrar uma cura.
Diz-se que as pessoas já não querem ler, é verdade?
Existem dados que nos dizem que as pessoas estão a ler menos vezes com sentido e propósito, a analisar e a interpretar a informação. A mover os leitores e a levá-los a agir. Não é um palpite, ouvimo-lo dos editores. As pessoas hoje não parecem interessadas nos livros mais extensos, nos livros com que crescemos. Os jovens, de todos os países, estão a ler muito menos literatura tradicional, não só porque consomem informação pelo telefone, mas porque leem bastante menos do que as gerações anteriores. E o modo como lemos foi alterado, porque mudou a forma como o fazemos, ou seja, maioritariamente no telefone... A realidade é que as leituras longas, em que nos sentamos e lemos capítulos de um livro, que pode ter mais de 100 páginas, 300, as pessoas já não as fazem tanto. Existem dados que nos dizem que depois de se graduarem, no liceu ou na universidade, podem nunca mais ler um livro inteiro. E o número de pessoas que diz que lê pelo menos um livro por ano continua a descer. Ao mesmo tempo, vemos chegar uma nova história que capta a imaginação de um grupo novo de pessoas que não estavam habituadas a ler, inspiram um amigo, um amigo recomenda o livro e vão comprá-lo, sentam-se e dizem: "Já não lia há imenso tempo." E descobrem que não custou nada, é divertido, revelador e talvez comecem a ler um pouco mais.
E o que podemos fazer e dizer aos escritores?
Os escritores não devem perder a esperança, escrevam coisas mais interessantes, tornem a escrita muito específica. Deve ser uma história restrita e que vai direita ao ponto, ou sobre uma experiência específica, seja ficção ou não ficção. Quando se torna realmente específica, torna-se realmente universal. Escreve com mais verdade, com mais transparência. As pessoas sentem-se atraídas por literatura que se relaciona com elas, que as faz rir, as assusta, as deixa high, que faz com que tenham vontade de se apaixonar, de convidar alguém para sair. Que as faz ter vontade de atravessar o país ou, pelo menos, sair do seu apartamento. Se houver uma literatura que mova as pessoas, aí as pessoas vão começar a ler. Por isso, o que digo aos escritores é: continuem a escrever, mas vão mais longe! E digo às pessoas: partilhem livros! Se estão entusiasmados com alguma coisa, falem disso nos social media, falem do último livro que leram e porque os moveu tanto que o atiraram para o canto do quarto! Precisamos de uma revolução da leitura!
Revolução como?
Temos de nos reencontrar. Houve um tempo em que a leitura era a grande recreação, depois veio a rádio. Acho mesmo, até por uma questão de saúde cognitiva e ferramentas de pensamento crítico e de empatia, que não há nada que substitua a leitura. Claro que ir ver uma peça de teatro ou ir ver um filme também, mas há qualquer coisa de táctil em segurar um livro ou um tablet que te põe dentro dele. Precisamos mais disso. A maioria dos livros de que mais gostei foram recomendações e, muitas vezes, vieram de pessoas completamente diferentes de mim. Adoro perguntar a uma pessoa o que anda a ler, principalmente se vier de uma demografia completamente diferente, sou muitas vezes surpreendida e faz-me perceber aquela pessoa melhor.
Entrevista originalmente publicada na edição de aniversário da Máxima, novembro de 2025.
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