"O nascimento de um filho é um momento nojento em que o pai não serve para nada"
A frase foi dita pela apresentadora francesa France Pierron durante um debate sobre Jérémy Doku, internacional belga, e sobre a possibilidade de o jogador deixar temporariamente o Mundial para assistir ao nascimento do primeiro filho. Uma psicóloga e uma ginecologista discordam.
No dia 15 de junho, Jérémy Doku, 24 anos, ponta-esquerda da seleção belga e do Manchester City, falou com jornalistas em Seattle, antes da estreia da Bélgica no Mundial contra o Egipto. O jogador contou que o nascimento do primeiro filho estava previsto para a segunda semana de julho, altura que poderia coincidir com os quartos de final da competição. A possibilidade de sair temporariamente da concentração para assistir ao parto estava em cima da mesa. "Depende de quando acontecer, mas é o meu primeiro filho, por isso eu definitivamente gostaria de estar lá", disse Doku, citado pela Reuters. E continuou: "Se me perguntarem o que eu quero, a minha resposta é que ninguém quer perder o nascimento do primeiro filho. Mas também sei que o futebol envolve muitas outras considerações. (...) Sei que a federação apoia os seus jogadores e compreende as suas situações. Vamos ver o que podemos fazer."
A frase, por si só, não parecia polémica. Um homem, prestes a ser pai pela primeira vez, dizia querer estar presente no nascimento do filho. Nada de extraordinário. Ou, pelo menos, nada que devesse ser extraordinário. Mas bastaram alguns dias - quatro, para sermos mais rigorosas - para que o tema saltasse de uma declaração familiar para um debate sobre prioridades, masculinidade, futebol e paternidade. Na sexta-feira seguinte, France Pierron, apresentadora do programa L’Équipe de Choc, da televisão francesa L’Équipe, reagiu ao caso da pior forma possível, diríamos. "Não sei se é por eu ser mulher, ou por ser um bocado torta e não ter coração… mas não compreendo", começou por dizer.
O argumento principal era simples: para Pierron, disputar um Mundial é uma oportunidade demasiado rara para que um jogador a interrompa por causa do nascimento de um filho. "Há centenas de futebolistas que matariam para estar no teu lugar", afirmou. Como se não bastasse, acrescentou a frase que acabou por incendiar a polémica: "E vais deixar tudo isso para assistir ao nascimento do teu filho, que é um momento nojento, desculpem-me, em que o pai não serve para nada. Ele tem um papel de figurante". Quando Brahim Asloum, outro comentador presente no programa, reagiu e perguntou "como assim, não serve para nada? Quem é que encoraja?", Pierron insistiu: "Não, não serves para nada. Pegas na mão, tiras uma foto". A certa altura, ainda sugeriu que a parteira poderia cumprir esse papel de apoio e que Doku se iria cansar, sofrer um "choque emocional" e sair mentalmente do Mundial.
O comentário não foi bem recebido pelo público nem, pelo que se percebeu, por todos os que estavam em estúdio. As redes sociais explodiram, e com razão. Não podemos dizer que não tenha sido bom ver a indignação pública perante uma ideia destas. Mostra, pelo menos em parte, que há algum avanço na forma como se olha para a presença de um pai, não só no parto, mas no acompanhamento da vida de um filho. Não estamos assim tão perdidos. Ainda existe alguma luz ao fundo do túnel.
Depois da polémica, a própria L’Équipe demarcou-se das declarações de Pierron e pediu desculpa a Doku. A apresentadora também publicou nas suas redes sociais uma explicação, dizendo que não tinha intenção de diminuir o papel dos pais. Ainda assim, a frase já tinha feito o seu caminho: "o pai não serve para nada". E é talvez por isso que o caso se tornou maior do que uma discussão televisiva. Porque aquilo que ali foi dito não era apenas sobre Doku. Era sobre todos os pais que ainda são vistos como acessórios no nascimento dos filhos.
"Há momentos na vida que não se repetem. O nascimento de um filho é um deles", diz Sofia Figueiredo, ginecologista-obstetra, subespecialista em Medicina da Reprodução pela Ordem dos Médicos e consultora da Direção-Geral da Saúde para a área da saúde reprodutiva, em entrevista à Máxima. "Durante muito tempo, a gravidez, o parto e o pós-parto foram vividos como territórios quase exclusivamente femininos. À mulher cabia carregar, parir e cuidar; ao homem cabia muitas vezes apenas 'ajudar', assumindo um papel secundário. Hoje, esta forma de encarar a parentalidade faz cada vez menos sentido."
Esta ideia antiquada de olhar para a parentalidade é também apontada por Andreia Filipe Vieira, psicóloga. Para a especialista, muitas reacções negativas a decisões deste género refletem ainda modelos tradicionais de masculinidade, segundo os quais o homem deve privilegiar o trabalho, sacrificar a vida familiar e demonstrar disponibilidade total para a profissão. A questão é que, se fosse ao contrário, talvez a crítica fosse outra. Se uma mulher atleta ponderasse falhar um momento familiar marcante por causa da competição, provavelmente seria acusada de frieza ou de falta de instinto maternal. Mas quando é um homem que diz querer estar presente no nascimento do filho, ainda há quem veja essa decisão como fraqueza, distração ou falta de compromisso profissional. A sociedade gosta de dizer que quer pais presentes, mas continua muitas vezes a estranhar quando eles se comportam como tal.
De acordo com Andreia Filipe Vieira, "o parto não é apenas um evento médico". O nascimento de um filho é um dos momentos de maior transição identitária na vida de um adulto. "O homem não está apenas a 'cortar o cordão umbilical'. Está a testemunhar a chegada do filho, a apoiar emocionalmente a parceira num momento de enorme vulnerabilidade, a iniciar a construção da identidade parental e a participar num acontecimento que nunca mais se repetirá daquela forma. Reduzir esse momento a um ato técnico ignora a sua dimensão emocional e relacional." A psicóloga lembra ainda que a presença do pai pode ter impacto no vínculo familiar e no bem-estar da mãe. Não se trata de dizer que um pai ausente no parto prejudica necessariamente o filho - há muitas circunstâncias que podem impedir essa presença. Mas, quando existe possibilidade de escolha, a participação tende a favorecer a construção desse vínculo. "O seu papel não é obstétrico, é emocional e relacional", resume.
Nas últimas décadas, tem surgido uma visão diferente: a de que um pai emocionalmente presente não é menos comprometido profissionalmente. Está apenas a assumir um papel parental mais ativo. Ainda assim, há muito caminho por fazer. Em Portugal, segundo dados do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social citados pelo Público, os homens gozaram, em média, apenas 35 dias de licença parental inicial em 2024. A diferença face às mães continua a ser muito significativa.
O mesmo artigo mostra que a licença parental continua a ser gozada, nas suas várias modalidades, maioritariamente pelas mulheres. Na licença parental alargada, por exemplo, o número de beneficiárias mulheres representa cerca de 90% do total. Em 2025, essa licença foi gozada por 12.290 mulheres e apenas 2648 homens. Ou seja: mesmo quando a lei permite uma maior partilha, a prática continua a revelar que o cuidado ainda é visto, demasiadas vezes, como território feminino.
O caso de Doku ajuda a perceber esta tensão. De um lado, está o argumento do compromisso profissional: um Mundial é raro, a equipa depende do jogador, há uma responsabilidade coletiva. Do outro, está a vida familiar: o nascimento de um filho também não se repete, e a presença nesse momento pode ter um significado profundo para o pai, para a mãe e para a história daquela família. Não se trata de fingir que não existe conflito. Existe. Mas talvez a pergunta certa não seja se um jogador deve ou não "faltar a um jogo para cortar o cordão umbilical". Como diz Andreia Filipe Vieira, "a questão é: que lugar queremos dar à parentalidade na nossa vida quando ela entra em conflito com outras responsabilidades importantes?"
No caso de Jérémy Doku, a vida acabou por se antecipar ao calendário. O filho, Praise, nasceu mais cedo do que o previsto, em Londres, e o jogador conseguiu viajar para estar com a mulher, Shireen, nesse momento. Depois, estava previsto regressar à concentração da Bélgica. Talvez seja essa a imagem que fica: um jogador de elite, em pleno Mundial, a tentar conciliar aquilo que tantas pessoas conciliam todos os dias - trabalho, família, expectativas externas e escolhas íntimas. A diferença é que, neste caso, a decisão foi discutida em direto na televisão, julgada nas redes sociais e transformada num debate público. Mas talvez ainda bem. Porque às vezes é preciso que alguém diga uma frase tão errada como "o pai não serve para nada" para percebermos quantas pessoas já não estão dispostas a aceitá-la.
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