Não responder, não demonstrar interesse, não querer saber: como nasceu a "cultura do desinteresse"?
Nos dias de hoje não há nada mais cringe do que querer saber.
Não queremos atirar sempre as culpas para a Gen Z, mas a verdade é que todos os termos criados para descrever aquilo que se está a passar na cultura dos relacionamentos modernos foram da sua autoria. Situationships, ghosting, hookup culture, avoidant, orbiting e love bombing são só alguns exemplos de códigos para descrever comportamentos que, na maioria dos casos, nos irritam e estão relacionados com uma certa coolness em "não querer saber" (resumidamente uma unbothered queen com zero f*cks given). A verdade é, com tantos termos novos e assustadores, quem é que tem vontade de namorar?
A sexóloga e terapeuta de casal Sandra Neto nota a importância de "contextualizar esta geração antes de a definirmos" e relembra que, "a Gen Z foi a primeira geração a crescer completamente imersa na internet de alta velocidade e nas redes sociais. É uma geração que cresceu com acesso constante ao mundo, às opiniões dos outros, às experiências dos outros e, sobretudo, a possibilidades infinitas. E isso muda profundamente a forma como nos relacionamos".
Em entrevista à Máxima, Sandra explica que a chamada "cultura do desinteresse" não se trata, apenas, de um mecanismo de defesa mas sim de uma questão de sobrevivência emocional: "Talvez seja sobretudo o reflexo de uma geração que está a tentar aprender a relacionar-se num mundo onde tudo é rápido, acessível e substituível, incluindo, muitas vezes, as próprias relações."
Por outro lado admite que há quem evite investir emocionalmente para não sofrer, quem se torne excessivamente vigilante a sinais de abandono, ou quem entre numa lógica constante de autoproteção onde já não se relaciona de forma espontânea, mas defensiva.
"Esta geração vive num contexto de enorme acessibilidade relacional: conhece pessoas mais rapidamente, contacta mais facilmente, está constantemente exposta a novas possibilidades e também às histórias, opiniões e experiências emocionais de milhares de outras pessoas. Isso cria uma sensação permanente de comparação e de questionamento".
Vivemos numa sociedade que está presa num paradoxo: 'Deus nos livre' a vergonha de nos importarmos ou mostrarmos algum tipo de sentimento por alguém, mas quem nos dera um romance de tirar a respiração, como aqueles que vemos nos filmes.
A Roe Magazine descreve este fenómeno como “ressaca de vulnerabilidade”, e explica que “quando convidamos alguém para sair e essa pessoa demora doze horas a responder, ou quando vamos a um encontro e não nos enviam nenhuma mensagem depois, sentimos sempre uma espécie de ressaca. Uma mistura de dopamina esgotada, humilhação e ansiedade”. Mas será que nos esquecemos, coletivamente, de que antigamente se esperavam horas por uma resposta? Que se queríamos ver alguém aparecíamos-lhe à porta? Se ligar para alguém só porque sim é embaraçoso, o que é que as novas gerações pensam sobre os gestos românticos (ou cringe) dos anos 90?
Tudo se resume a dois sentimentos: vergonha e medo da rejeição (mas aquilo de que devíamos ter vergonha é de todas as vezes que publicámos um story com a música favorita dele só para ver se dava like). Fazemos o esforço, vamos ao encontro, enviamos a mensagem e, no fim, não temos qualquer tipo de reciprocidade emocional imediata e isto destrói-nos. Aliás, é um pouco com base neste sofrimento que Sandra Neto explica a necessidade da criação de todas estas novas palavras: "Muitos destes termos, nomeadamente situationship, ghosting ou orbiting, acabam por surgir porque dar nome aos fenómenos que estamos a viver também nos traz uma certa sensação de orientação e segurança emocional".
Surpresa: ser vulnerável é o preço que pagamos pela intimidade que queremos. E a verdade, e esta pode doer, é que quem não se permite ser vulnerável perde todas as hipóteses de ter qualquer tipo de intimidade (principalmente emocional). A rejeição é ambígua: por um lado, é vista, como um ato feito por alguém superior emocionalmente. Como se o desinteresse e a indisponibilidade fossem merecedores de um prémio de valorização social qualquer. Por outro, é vivida por quem é rejeitado ou substituído como se do fim do mundo se tratasse.
Para a Gen Z, o medo e a pressão de parecer emocionalmente independente, desejável, confiante e “desapegada” é culpa das redes sociais: " A confrontação diária já não é com a fragilidade humana real. É com pessoas que parecem sempre seguras, produtivas, felizes, desejadas e absolutamente certas do caminho que estão a seguir. E isso altera profundamente a forma como os jovens olham para si próprios", explica a terapeuta, acrescentando que a vulnerabilidade torna-se assustadora porque expõe precisamente aquilo que esta cultura nos ensinou a esconder. Em bom português, "a dúvida, a insegurança, a necessidade de sermos escolhidos, correspondidos e importantes para alguém".
Ao mesmo tempo que observamos um crescimento e admiração por "não querer saber" e participamos ativamente neste desinteresse coletivo, temos também um aumento exponencial de relações e comportamentos tóxicos que, graças à Internet, são todos os dias expostos (e muitas vezes normalizados). Parece que existe aqui um conflito mas na verdade está tudo ligado e resume-se a uma coisa: performance. "Acho que um dos preços mais caros que pagamos hoje pela dúvida constante e pela acessibilidade infinita é o facto de deixarmos, muitas vezes, de ser genuínos dentro das relações para começarmos a performar. Performamos interesse, performamos desapego, performamos felicidade, performamos segurança", expõe Sandra Neto.
Com tudo aquilo a estamos expostos, a comparação torna-se inevitável: “Porque é que não fazemos o que vejo outros casais fazer?”, “Porque é que não me dás aquilo que vejo na Internet?”, “Porque começaste a seguir esta pessoa?”
Mas de acordo com a terapeuta, nem tudo está perdido: "Acredito genuinamente que esta geração tem potencial para construir relações mais conscientes, mais igualitárias, mais alinhadas emocionalmente e até mais felizes". Para a especialista, a Gen Z está, de certa forma, a funcionar quase como uma geração-piloto daquilo que é amar num mundo hiperconectado. "É a primeira geração filha de pais que, em muitos casos, nem cresceram com telemóveis (...)", conclui.
Um lembrete importante de que estamos todos a experienciar a vida pela primeira vez e a descobrir como viver numa era em que temos tudo na ponta dos nossos dedos. Ou talvez não.
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