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"O difícil - mas também o mais confortável - é não estarmos lá." Como a diáspora venezuelana vive a tragédia

Há distâncias que não se medem em quilómetros. Medem-se no tempo que demora uma chamada a ser atendida, na espera por um nome numa lista de desaparecidos. Dois venezuelanos em Portugal contam como se sentem depois do sismo.

Venezuelanos sofrem à distância
Venezuelanos sofrem à distância Foto: Getty Images
26 de junho de 2026 às 18:59 Patrícia Domingues Adicione como fonte preferencial no Google

O sismo na Venezuela também foi sentido em Portugal - não no chão, mas nos telemóveis de quem ainda tem família, amigos e memórias no país. As primeiras horas fizeram-se de chamadas sem resposta, mensagens trocadas em grupos de WhatsApp, fotografias partilhadas para confirmar que alguém estava bem e listas de desaparecidos que circulavam mais depressa do que a informação oficial.

Há um sentimento comum entre os venezuelanos que vivem fora do país: a impotência. Katty Xiomara conhece-o bem. Designer de moda, vive no Porto desde os 18 anos, quando deixou a Venezuela - onde nasceu, em 1974, filha de pais portugueses. A irmã, os sobrinhos e muitos amigos continuam lá. "Há situações, para além do meu núcleo mais próximo, de pessoas que continuam desaparecidas. Ainda ninguém sabe muito bem o que fazer nem como fazer. A ajuda começa agora a chegar", conta.

As imagens que circulam nas notícias são difíceis de ver, mas, diz, nunca conseguem traduzir o que realmente acontece no terreno. "Não há como descrever. Nós vemos as notícias daqui e sentimos que é muito forte, muito pesado. Mas estar lá é completamente diferente." A distância torna tudo mais estranho. E mais doloroso. "Já acontecia com a situação política. Por um lado, há um certo conforto por estarmos longe; por outro, há culpa por não estarmos lá. Vivemos tudo através do relato deles", explica. "Não é na primeira pessoa. É na terceira."

Essa sensação é partilhada por José Pereira, fotógrafo de moda, que também deixou a Venezuela. Embora já não tenha família no país, continua ligado a amigos que vivem em Caracas e noutras zonas afetadas. "O sentimento geral dos venezuelanos é de exaustão", diz. "Pensamos: o que é que ainda falta acontecer? Primeiro a crise humanitária, depois a crise política, depois tantos outros episódios... e agora um sismo. Parece uma lista interminável de tragédias."

O mais difícil, admite, é não conseguir perceber a verdadeira dimensão do desastre. "Um amigo escreveu-me logo quando aconteceu o sismo e dizia que nem tinha percebido que tinha sido tão grave. Noutras zonas, as pessoas quase não sentiram. Só mais tarde começámos a perceber a dimensão."

Se houve algo que chegou depressa, antes mesmo das respostas oficiais, foi a solidariedade. Enquanto as autoridades procuravam avaliar os danos, começaram a formar-se redes espontâneas de ajuda. Grupos de WhatsApp. Listas de pessoas desaparecidas. Cadeias de contactos para localizar familiares, amigos e vizinhos.

"Internamente, o povo mobilizou-se muito depressa", conta Katty. "Criaram grupos para localizar pessoas, organizar resgates, partilhar listas. Muitas vezes essas cadeias funcionaram antes dos canais oficiais." A entreajuda, explica, faz parte da forma como muitos venezuelanos vivem a comunidade.

"Existe uma proximidade muito grande entre as pessoas. Apesar das diferenças sociais - e de uma pobreza muito elevada - não existe uma barreira tão marcada no contacto entre as pessoas. Não precisamos de conhecer quem está ao nosso lado para ajudar." José reconhece exatamente o mesmo espírito. "O que tenho visto é que as pessoas estão muito ativas a ajudar a própria comunidade, a vizinhança, a procurar conhecidos. Existe um sentido de comunidade muito forte."

O sismo também expôs fragilidades que já existiam. José lembra que vários dos edifícios mais afetados já apresentavam problemas estruturais e que décadas sem manutenção agravaram a vulnerabilidade de muitas construções. Alguns dos prédios construídos ao abrigo de programas públicos de habitação estiveram entre os que mais sofreram, reacendendo o debate sobre a qualidade das infraestruturas.

Mas acredita que a tragédia revelou outra coisa: a capacidade de união de um país profundamente dividido. "Durante muitos anos, a Venezuela viveu muito marcada pela divisão entre chavistas e não chavistas. Desta vez parece que essa diferença desapareceu. Quando acontece uma tragédia destas, o indispensável fica em primeiro lugar: a vida."

Katty também acredita que esse é o lado que mais importa preservar. Mesmo reconhecendo que, num país onde a pobreza marca o quotidiano de grande parte da população, também surgem episódios de pilhagem, prefere olhar para aquilo que tem visto acontecer todos os dias: pessoas à procura umas das outras. "Há muita gente que continua desaparecida. E ainda há muita confusão na informação."

É essa espera que pesa mais. Esperar por uma chamada. Por uma fotografia. Por uma localização enviada através de uma aplicação. Ou apenas por uma mensagem que diga: "Estou bem." À distância, pouco se pode fazer para aliviar essa angústia. Mas é possível apoiar as organizações humanitárias que estão no terreno e acompanhar as campanhas promovidas pela comunidade venezuelana. Porque, como lembram Katty Xiomara e José Pereira, quando tudo o resto falha, são quase sempre as pessoas que encontram as primeiras formas de cuidar umas das outras.

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