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Maria Pia, a rainha de Portugal que ditou modas à Europa

Filha do primeiro rei da Itália unificada, Maria Pia de Sabóia chegou a Portugal aos 15 anos para casar com o rei D. Luís I. Por inerência mas sobretudo devido ao seu temperamento forte tornou-se uma figura muito marcante na sociedade portuguesa.

Foto: DR
09 de novembro de 2022 Maria João Martins

Chegou a Lisboa a 5 de outubro de 1862, sem poder saber que exatamente 48 anos depois a coroa que vinha cingir daria lugar à República. Filha do primeiro monarca da Itália unificada, Vitor Emanuel I, Maria Pia, que nasceu em Turim a 16 de outubro de 1847, teve uma vida e um reinado marcados por fatalidades e tragédias várias (a maior das quais terá sido o regicídio que vitimou o filho, o rei D. Carlos, e o neto, o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe), que eram outros tantos sinais dos tempos conturbados que a Europa viveu na segunda metade do século XIX e princípio do século XX. Mas não lhe atribuamos o papel de vítima que ela seria a primeira a rejeitar. Como se pode ler em Eu, Maria Pia, a biografia que Diana de Cadaval, duquesa de Cadaval lhe dedicou (editada originalmente em 2010 e agora reeditada pela Planeta), a penúltima rainha de Portugal foi também uma mulher culta, voluntariosa, muito consciente do papel que lhe cabia desempenhar. Ao confesso fascínio da biógrafa não será estranho o facto dela ser a atual duquesa de Cadaval, uma das mais tradicionais e históricas casas nobiliárquicas de Portugal.

O que a levou a interessar-se pela figura da rainha Dona Maria Pia, a ponto de lhe dedicar uma biografia?

É uma princesa estrangeira, que chega a Portugal com 14 anos para ser rainha... tinha tudo onde cresceu, mas em Portugal, apesar de rainha, teve que lutar por tudo e pelo amor do povo que sempre a viu como uma estrangeira. Quando estava no auge da sua glória começou a perder tudo, primeiro o marido e depois o filho, o neto, o reino... É uma história de vida apaixonante!

Diana de Cadaval reedita o seu livro sobre Maria Pia.
Diana de Cadaval reedita o seu livro sobre Maria Pia. Foto: João Lima

O que a surpreendeu mais ao longo da investigação?

Pude confirmar que era uma mulher afetiva e sensível, apesar da ideia feita e que ficou para a História de que foi mulher gastadora e caprichosa. Acredito que, para estas jovens que viajavam para um mundo desconhecido e perdiam todas as suas referências e o conforto do universo onde nasceram, era muito violento. A saudade e a falta das suas fundações faziam delas mais fortes, algumas mais duras, outras mais descontroladas, outras mais enigmáticas.

O gosto pela moda e pela decoração, características muito italianas, eram marcas dominantes da sua personalidade. Considera que também nesse aspeto ela mudou a sociedade portuguesa?

As rainhas influenciam sempre a nobreza à sua volta e depois as outras classes. Neste caso coincidiu com uma época de grandes transformações e do despertar de movimentos culturais. A Itália sempre foi uma fonte de inspiração na decoração, na moda, na arte em geral e pela mão duma rainha, claro que ainda ficou mais acentuado. Hoje dir-se-ia que a rainha Maria Pia era uma influencer – sempre as houve, ao longo dos séculos.

Eu, Maria Pia, de Diana de Cadaval, editora Planeta.
Eu, Maria Pia, de Diana de Cadaval, editora Planeta.

No seu livro, retrata também a sua imensa generosidade. Quer falar um pouco desse aspeto?

As princesas europeias, apesar do fausto em que cresciam, eram educadas a fazer o bem e a dar. Ela não era exceção, apenas coincide com uma época em que as rainhas estavam mais "na rua", mais perto do povo.

Dona Maria Pia tinha conhecimento de muitos dos affairs extraconjugais do rei, sobretudo com a atriz Rosa Damasceno. Foi uma esposa infeliz?

Acredito que sofreu, mas estas mulheres nem conheciam outra realidade. O mesmo se terá passado com os seus pais e os seus avós. Era assim, os reis e os imperadores tinham sempre várias amantes, o que era do domínio público. E vários filhos fora do casamento. Era terrível, felizmente os tempos mudaram e nisso ganhámos muito no respeito, no decoro, na moral em sociedade.

Pelo menos até ao regicídio, a rainha, e depois rainha-mãe, nunca cessou de dar as suas opiniões e conselhos ao marido e depois ao filho. Podemos dizer que ela era uma mulher à frente do seu tempo e daquilo que se esperava duma rainha consorte?

Era uma mulher com personalidade, ativa, dinâmica, que não se deixava ficar para trás e que não se apagava. Mas a sociedade nesse tempo ainda era muito machista e o poder e raio de ação da rainha ficava muito pela vida nos palácios e pela educação do segundo filho. O herdeiro era sempre mais acompanhado pelo pai e pelos homens que o rodeavam.

Filha do primeiro rei da Itália unificada, Maria Pia de Sabóia, chegou a Portugal aos 15 anos para casar com o Rei D. Luís I
Filha do primeiro rei da Itália unificada, Maria Pia de Sabóia, chegou a Portugal aos 15 anos para casar com o Rei D. Luís I Foto: João Lima

Sente que os portugueses amaram esta rainha?

Os portugueses gostam de gostar dos estrangeiros, admiram-nos, mas nunca os adotam completamente. O mesmo se passou com a rainha D. Amélia. Terá havido sentimentos contraditórios, apesar dessa admiração por uma pessoa que vem dum país mais avançado e mais rico. Admiraram-na, sim, amar não tenho a certeza.

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